O emotivismo e a moral: o que há de certo e errado?

O padre jesuíta e filósofo Harry Gensler (1945 – 2022), estudioso da lógica e da ética, definiu o emotivismo como uma corrente de pensamento que sustenta que as proposições morais não podem ser analisadas como verdadeiras ou falsas, uma vez que apenas expressam sentimentos positivos ou negativos sobre algo. Dessa maneira, uma pessoa que afirma que “mentir é mau” exprime que para ela o ato de mentir é algo negativo ou ruim e, portanto, condena-o moralmente e – espera-se – evite mentir.

Essa corrente desenvolveu-se no século XX a partir do filósofo A. J. Ayer (1910 – 1989), um dos criadores do positivismo lógico. Para Ayer, apenas proposições empíricas (que podem ser testadas por meio dos sentidos) e analíticas (que são verdadeiras por definição) podem ser classificadas como verdadeiras ou falsas. A proposição empírica “Está chovendo” pode ser testada facilmente: basta ir à janela e verificar se está chovendo ou não, e assim prová-la como verdadeira ou falsa. Já a proposição “nenhum homem solteiro é casado” é analítica, e é verdadeira por definição, já que o conceito de “homem solteiro” é definido por não ser casado.

Mas a proposição “mentir é mau” não pode ser testada sensivelmente e não é verdadeira por definição; uma pessoa pode jamais ter mentido, mas, em um determinado momento, pode contar uma mentira e se beneficiar com ela (por exemplo, uma pessoa com 59 anos de idade e muita pressa pode usar o caixa para idosos no supermercado e com isso sair mais cedo). O emotivismo, de acordo com R. M. Hare (1919 – 2002), evoluiu a partir das ideias de David Hume (1711 – 1776) e G. E. Moore (1873 – 1958), mas a conexão com Hume é muito questionada.

Por um lado, o emotivismo ajuda a conectar com clareza o juízo moral e a motivação para o ato moral, pois uma pessoa que considera moralmente errado mentir muito provavelmente evitará a mentira e denunciará os mentirosos, ou seja, estará motivada a praticar o ato (positivo) de falar sempre a verdade. Por outro lado, o emotivismo reduz o papel da razão na decisão moral: se uma pessoa sente que algo é moralmente errado, ela não pratica o ato, mas não tem nenhuma base para justificar sua decisão de não agir daquela forma. Não existe nenhuma avaliação de verdade ou falsidade, nenhum raciocínio que justifique a decisão moral: a pessoa simplesmente dirá que acha a mentira ruim, moralmente condenável, e por isso não mente e não aceita que mintam. Não existe nenhum argumento racional sobre a maldade de mentir e a bondade de falar a verdade.

Um dos principais críticos modernos do emotivismo é Alasdair MacIntyre (1929). Para o filósofo escocês, o projeto iluminista de fundamentação da moralidade fracassou ao tentar propor uma base para a moral, e conduziu ao chamado ethos emotivista, uma prática de apresentar proposições de preferências de sentimentos e atitudes para fundamentar um juízo moral. Para MacIntyre, a sociedade abandonaria a possibilidade de discutir racionalmente a moral, e cada teoria seria justificada simplesmente a partir de sentimentos: se eu sinto que essa é a coisa certa a fazer, eu a faço; mas se alguém me perguntar por que eu agi dessa forma, o máximo que conseguirei dizer é que me parecia ser a coisa certa.

Em um contexto como esse, a moral se torna um exercício individualista, em que uma pessoa pode apelar para uma estrutura de valores única no mundo para justificar suas ações, e não pode ser criticada porque simplesmente não apresenta um argumento racional para embasar suas escolhas morais. Se ela se sente correta ao agir de determinada maneira – por exemplo, falando a verdade para seus amigos e mentindo para desconhecidos se isso lhe beneficiar – então ela estará correta. No entanto, “agir bem” não é “ser bom”, e qualquer teoria moral racional exige pelo menos um critério para que um ato seja bom.

Num mundo racionalmente distorcido, em que as pessoas consideram que são algo porque se sentem como tal, o emotivismo pode encontrar um campo fértil para nortear decisões morais. Mas não irá jamais fundamentar uma teoria moral aceitável, porque não apresenta provas sólidas da moralidade das decisões, e sem uma teoria ética que pelo menos aspire à universalização (por mais que pareça impossível), a educação moral se torna impossível. Uma ética das virtudes é necessariamente contextual, mas só se prova a virtude do agir por meio de uma análise racional do contexto da ação; uma ética emotivista, por outro lado, não precisa dessa análise racional: se você acha que está certo, você está certo. E quem não gostar, problema é seu.

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