O Homem Ético Temporal e os Desafios da Modernidade

Por Bruno Trindade

O homem é sempre fim ou pode ser tratado como meio? Quero, com limitada abrangência, defender que a dignidade do homem não permite que ele seja utilizado como meio. Além disso, espero apresentar e analisar um fator que promove o rebaixamento social e prático da qualidade ontológica do homem.

Para essa tarefa utilizarei três teorias/conceitos de três autores que, aparentemente, pouco dialogam. São eles: Leonardo Polo, Michael Sandel e Gilles Deleuze. A primeira parte será relativa à ética apresentada por Polo; após isso, analisaremos como o dinheiro e a sociedade do controle podem subverter e impossibilitar a ética temporal aos moldes de Polo. Tentaremos, também, produzir correlações preliminares com as organizações.

Leonardo Polo, aliando-se à ética das virtudes, encontra na existência e ética humana uma raiz teleológica, ou seja, um fim para o qual o homem naturalmente tende e pelo qual as ações são justificadas. O autor introduz o homem como um ser essencialmente temporal e, por assim ser, deve usar o tempo a seu favor em busca do florescimento e do telos.

A partir desta antropologia, compreendemos que as ações são boas e corretas se aproximam o homem do seu ideal de spoudaios. Como o homem vive necessariamente no tempo, a ética é o “não perder tempo”, ou seja, o bem lidar com as atividades, contextos e fortunas temporalmente localizadas, com a perspectiva de perfectibilidade teleológica.

Polo fala também da ética como um reforço para tendências naturais que se movem em direção ao florescimento humano: viver eticamente é crescer.

“Um ser vivo que cresce não perde tempo, mas usa o tempo a seu favor” (Polo, 2025).

Por fim, em vista da continuação do meu argumento, devo salientar as premissas mais relevantes:

  1. Ser ético é utilizar bem o tempo;
  2. Utilizar bem o tempo é crescer como homem;
  3. Crescer como homem é aproximar-se da perfectibilidade;
  4. Para isso, o homem é sempre fim e nunca meio.

Consequentemente, todas as ações individuais ou sociais que diminuam a dignidade e suas faculdades são más.

Parece evidente que a sociedade contemporânea não possui, amplamente, esse ideal de ética. As causas disso são de diversos âmbitos e muito variadas; porém, quero chamar a atenção para a perspicaz análise de Michael Sandel sobre o poder subversivo da lógica do dinheiro sobre valores socialmente constituídos, que entendo essenciais para o florescimento humano.

O mercado possui um modo de ser próprio, com seus mecanismos e estruturas. Dentre as características notáveis temos:

  • Igualar utilidade com demanda¹;
  • Ausência de valoração no cálculo monetário;
  • Tendência à maximização de lucros.

Essa lógica funciona muito bem em um ambiente limitado e próprio. O que Sandel chama a atenção na sua obra é para os ambientes valorativamente independentes da lógica mercantil que são “infectados” por ela e sobrepujados para uma estrutura estranha aos seus valores próprios e intrincados à prática.

Por exemplo, a racionalidade da existência da “fila” é simples e conhecida por todos: igualdade e justiça por meio de uma ordem de chegada, salvo em casos preferenciais. Sandel apresenta locais, como a Disney e outros parques de diversão, em que é possível comprar um passe “fura a fila”. Portanto, a instituição “fila” perde completamente o seu valor de equanimidade social, em que cada um era tratado de modo igualitário. A lógica de mercado, como no caso da fila, destrói o valor antes cultivado e insere a racionalidade da oferta e da demanda.

O que quero conotar com a elaboração de Sandel? Quero, simplesmente, apresentar como a lógica de mercado é, por vezes, prejudicial para valores relevantes para o florescimento humano — como a justiça, solidariedade e honra — e é sempre insensível ao telos do homem, uma vez que reage a somente um incentivo: o da maximização monetária. Sandel ainda vai mais fundo e iguala o mercado a uma estrutura que se utiliza dos pecados humanos, o que pode parecer forte, mas não é novidade para aqueles que estudam marketing.

Portanto, para o homem com uma estrutura ética temporal, inflamar-se com a racionalidade do mercado é muito maléfico em vista da busca de bem utilizar o tempo para crescer e desenvolver as faculdades humanas.

Do mesmo modo que podemos observar a sociedade ocidental contemporânea pela predominância cada vez maior da racionalidade de mercado, é possível, por outra ótica complementar, descrever a sociedade ao modo de Deleuze, ou seja, pautada pelo controle.

Para melhor compreender as sociedades de controle, é benéfico compará-las com as sociedades que as antecederam: as sociedades disciplinares.

  • Sociedades Disciplinares: Caracterizadas pela disciplina de ações, modos, vestimentas e linguagem. As fronteiras entre as atividades eram muito bem delimitadas. O homem era um produtor de energia descontínua (trabalhava no ambiente apropriado e parava quando se movia para outro ambiente, como da fábrica para a casa). O controle era dado por ordens, leis e coerção. A instituição por excelência é a prisão, inspirando escolas, exércitos e fábricas.
  • Sociedades de Controle: Longe de buscar enfraquecer o poder sobre o homem, possui outro modo de agir, mais subjetivo, simbólico e efetivo.

Deleuze diz que:

“O homem da disciplina era um produtor descontínuo de energia, mas o homem do controle é antes ondulatório, funcionando em órbita, num feixe contínuo. Por toda parte o surf já substituiu os antigos esportes”.

Portanto, o homem inserido em uma sociedade de controle está em uma estrutura social temporal própria, em que há pouca limitação entre as atividades, o esforço é contínuo e a competitividade acachapante. A velocidade e a ordenação das atividades ocorrem de maneira diferenciada, o que é relevante e central para o homem como ser temporal e ético.

Na sociedade de controle – assim como nos apresenta Charles Taylor – uma variável importante é a supervalorização da autenticidade e individualidade. Isso, aparentemente, parece contrastar com o controle; no entanto, o homem é utilizado como um meio dentro de uma lógica de produtividade e vendas. Assim nos apresenta Deleuze quando discorre sobre a diferença da fábrica para a empresa:

“Mas numa sociedade de controle a empresa substituiu a fábrica, e a empresa é uma alma, um gás. Sem dúvida a fábrica já conhecia o sistema de prêmios, mas a empresa se esforça mais profundamente em impor uma modulação para cada salário, num estado de perpétua metaestabilidade, que passa por desafios, concursos e colóquios extremamente cômicos. Se os jogos de televisão mais idiotas têm tanto sucesso é porque exprimem adequadamente a situação de empresa. A fábrica constituía os indivíduos em um só corpo, para a dupla vantagem do patronato que vigiava cada elemento na massa, e dos sindicatos que mobilizavam uma massa de resistência; mas a empresa introduz o tempo todo uma rivalidade inexpiável como sã emulação, excelente motivação que contrapõe os indivíduos entre si e atravessa cada um, dividindo-o em si mesmo. O princípio modulador do ‘salário por mérito’ tenta a própria Educação nacional: com efeito, assim como a empresa substitui a fábrica, a formação permanente tende a substituir a escola, e o controle contínuo substitui o exame. Este é o meio mais garantido de entregar a escola à empresa”.

O que quero destacar da formulação da sociedade de controle é o caráter alienador que ela pode promover no homem. O homem alienado é aquele que age sem conhecimento dos seus fins. Dentro da perspectiva da sociedade do controle, é fácil observar como é possível ao homem integrar valores da lógica de mercado e do controle de modo acrítico, pensando serem valores seus, julgados e refletidos.

Em relação à ética temporal, é evidente que o homem deve possuir conhecimento do seu ambiente e de suas motivações para a ação, além dos fins perseguidos; pois é inverossímil que o indivíduo possa bem utilizar o tempo para crescimento em busca de um florescimento se não possui consciência e intencionalidade na práxis.

Além disso, a lógica de mercado e a sociedade de controle possuem estruturas que impossibilitam, para aqueles que agem em conformidade a elas, pensar no homem como fim e não como meio. Tanto a lógica de mercado como a sociedade de controle possuem a tendência de desencantar o mundo, não no sentido fantasioso, mas na perda gradual das distinções qualitativas entre superior e inferior, entre homem e objeto.

Não quero, de modo algum, indicar soluções para questões tão complexas. No entanto, me parece claro que o tempo vivido (Kairós) está mais veloz e fugitivo. Por isso, o homem precisa de algum modo desacelerar para conseguir pensar, refletir e deliberar sobre as próprias ações.

“Nunca está alguém mais ativo do que quando nada faz; nunca ninguém está menos só do que quando está consigo mesmo.”

— Catão, o Censor.

Notas

¹ Jouvenel, em seu livro sobre o poder, apresenta essa ideia como uma das falácias do mercado, uma vez que a utilidade não pode ser equalizada com a demanda, pois a demanda pura não tem distinção valorativa.

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