{"id":975,"date":"2018-11-10T15:57:13","date_gmt":"2018-11-10T17:57:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.admethics.com\/?p=975"},"modified":"2019-11-28T18:48:41","modified_gmt":"2019-11-28T21:48:41","slug":"when-disasters-strike-people-are-not-the-only-victims-reflections-on-the-ethics-of-disasters-and-the-animal-ethics","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/when-disasters-strike-people-are-not-the-only-victims-reflections-on-the-ethics-of-disasters-and-the-animal-ethics\/2018\/","title":{"rendered":"Quando os desastres acontecem, as pessoas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas v\u00edtimas: reflex\u00f5es sobre a \u00e9tica dos desastres e a \u00e9tica animal"},"content":{"rendered":"<p>Durante um desastre de origem natural, como inunda\u00e7\u00f5es, secas, queimadas e furac\u00f5es, geralmente os primeiros pensamentos que v\u00eam \u00e0 nossa mente \u2013 enquanto cidad\u00e3os comuns que n\u00e3o trabalham em \u00e1reas especializadas na gest\u00e3o desse tipo de crise \u2013 s\u00e3o de que devemos proteger nossas vidas e propriedades ou bens, certo? Mas de que tipo de vida estamos falando?<\/p>\n<figure id=\"attachment_976\" aria-describedby=\"caption-attachment-976\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-976 size-medium\" src=\"http:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/beagle-300x226.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/beagle-300x226.png 300w, https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/beagle.png 443w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-976\" class=\"wp-caption-text\">Fonte da imagem: <a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/photo\/2018\/09\/photos-pet-rescues-in-the-wake-of-hurricane-florence\/570598\/\">Petty Officer 2nd Class Loumania Stewart \/ U.S. Coast Guard \/ Reuters<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p>Enquanto pesquisadora da \u00e1rea de \u00c9tica na Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, com foco na gest\u00e3o de riscos e de desastres, me deparei algumas vezes ao longo da minha pesquisa de campo com relatos sobre pessoas que recusaram a deixar suas casas durante desastres, como a trag\u00e9dia do <a href=\"http:\/\/jornaldesantacatarina.clicrbs.com.br\/sc\/geral\/noticia\/2009\/11\/infografico-especial-relembra-uma-das-maiores-enchentes-de-santa-catarina-2724144.html\">Morro do Ba\u00fa e cidades vizinhas<\/a> que ocorreu em Santa Catarina em 2008. Em alguns dos casos, as pessoas se recusaram a deixar sua propriedade com <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/37707939_Filling_the_Ark_Animal_Welfare_in_Disasters\">medo de roubos<\/a> e de abandonar os animais, como porcos, gado, etc. Esses relatos me chamaram aten\u00e7\u00e3o, inicialmente, pelo dif\u00edcil dilema entre permanecer em sua casa e cuidar de tudo que foi constru\u00eddo ao longo de anos, correndo o risco de colocar sua pr\u00f3pria vida em risco, OU deixar a propriedade para garantir a sua seguran\u00e7a? O que acontece com tudo que fica para tr\u00e1s e n\u00e3o pode ser retirado h\u00e1 tempo? Entre bens pessoais e patrim\u00f4nio, cheios de hist\u00f3rias, tamb\u00e9m podem ser deixadas para tr\u00e1s outras vidas, que n\u00e3o necessariamente humanas&#8230;<\/p>\n<p>Foi somente recentemente, morando temporariamente na Fl\u00f3rida nos Estados Unidos para conduzir outra parte da minha pesquisa, que a situa\u00e7\u00e3o dos animais antes, durante e ap\u00f3s desastres \u2013 principalmente furac\u00f5es \u2013 e os diversos dilemas morais que podem surgir nessas trag\u00e9dias ficou mais evidente para mim. Nos \u00faltimos dois meses (setembro e outubro), dois furac\u00f5es atingiram a costa leste dos Estados Unidos e causaram muitos estragos e perdas de vidas humanas e n\u00e3o-humanas (Hurricane Florence e Hurricane Michael).<\/p>\n<p>Durante o primeiro furac\u00e3o (Hurricane Florence), uma reportagem me chamou aten\u00e7\u00e3o de forma especial: \u201cSalvando animais de estima\u00e7\u00e3o sem permiss\u00e3o: boa samaritana presa ap\u00f3s ajudar animais a sobreviverem ao Florence\u201d. A reportagem explica que, no auge da tempestade, essa mulher salvou a vida de animais abandonados na Carolina do Norte e os levou para seu centro de resgate sem fins lucrativos. Contudo, foi presa porque n\u00e3o possu\u00eda as licen\u00e7as corretas para cuidar dos animais: sua instala\u00e7\u00e3o n\u00e3o era legalmente registrada como abrigo. Al\u00e9m disso, ela tamb\u00e9m foi acusada de ter administrado drogas aos animais que estavam machucados sem possuir licen\u00e7a veterin\u00e1ria. (Em outra mat\u00e9ria \u00e9 poss\u00edvel ver outros resgates sendo realizados: clique <a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/photo\/2018\/09\/photos-pet-rescues-in-the-wake-of-hurricane-florence\/570598\/\">aqui.<\/a>)<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esse caso, passei a acompanhar outros relatos e reportagens que tratavam sobre animais durante desastres e tentar refletir sobre o aspecto \u00e9tico presente nessas situa\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, recentemente, Santa Catarina (meu estado natal e de pesquisa no Brasil) aprovou uma nova <a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/photo\/2018\/09\/photos-pet-rescues-in-the-wake-of-hurricane-florence\/570598\/\">Lei<\/a> que reconhece c\u00e3es e gatos como seres <a href=\"http:\/\/www.animal-ethics.org\/senciencia-secao\/introducao-a-senciencia\/senciencia-animal\/\">sencientes<\/a>, tal como ocorre em pa\u00edses como Fran\u00e7a, Portugal e Nova Zel\u00e2ndia. Sendo assim, quais tipos de assist\u00eancias os animais devem receber em desastres? Como? E quais animais?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em outra <a href=\"https:\/\/www.npr.org\/2018\/09\/14\/648115370\/why-they-chose-to-stay-in-the-path-of-hurricane-florence\">reportagem<\/a> sobre o mesmo Furac\u00e3o, uma das entrevistadas conta que seu namorado optou por n\u00e3o evacuar a cidade, mesmo estando da rota do furac\u00e3o: &#8220;Ele ficou porque temos cinco cavalos, um burro, dezenas de galinhas, dezenas de porcos e cinco cachorros. [&#8230;] Encontrar abrigo para um c\u00e3o ou gato j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil, encontrar abrigo para muitos animais grandes \u00e9 muito mais complicado. [&#8230;] Transportar esses animais \u00e9 outro desafio.\u201d Refletindo sobre como seria esse processo, a entrevista questiona &#8220;Como voc\u00ea s\u00f3 escolhe tr\u00eas dos seus cavalos para salvar? [&#8230;] Voc\u00ea n\u00e3o pode escolher seus favoritos. Eles s\u00e3o como membros da fam\u00edlia.\u201d Algumas cidades possuem abrigos p\u00fablicos espec\u00edficos que aceitam animais dom\u00e9sticos, como c\u00e3es e gatos. Mas o que fazer com os demais?<\/p>\n<p>Essa reflex\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o precisa fazer parte da gest\u00e3o de riscos e desastres, tanto por parte da <a href=\"https:\/\/www.npr.org\/2018\/09\/14\/648115370\/why-they-chose-to-stay-in-the-path-of-hurricane-florence\">popula\u00e7\u00e3o<\/a> como dos gestores de emerg\u00eancias, uma vez que os animais correm o risco de morrer se forem abandonados durante as evacua\u00e7\u00f5es (planejadas ou n\u00e3o). Al\u00e9m disso, quando sobrevivem, os animais podem sofrem com <a href=\"https:\/\/www.peta.org\/media\/news-releases\/cruel-and-criminal-to-abandon-animals-during-hurricanes\/\">traumas irrevers\u00edveis<\/a>.<\/p>\n<p>Vale lembrar tamb\u00e9m que, na maioria das vezes, os animais n\u00e3o escolheram \u201cestar na rota\u201d do desastre. Conforme destacado pela soci\u00f3loga Leslie Irvine em seu livro <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/37707939_Filling_the_Ark_Animal_Welfare_in_Disasters\">\u201cFilling the Ark: Animal Welfare in Disasters\u201d<\/a>, os seres humanos s\u00e3o os respons\u00e1veis pela maioria dos riscos enfrentados pelos animais e, assim, tamb\u00e9m devem ser respons\u00e1veis por melhores decis\u00f5es sobre seu tratamento, como, por exemplo, por meio de diferentes pol\u00edticas de evacua\u00e7\u00e3o e de utiliza\u00e7\u00e3o que os coloquem em risco, como para consumo e experimentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante um desastre de origem natural, como inunda\u00e7\u00f5es, secas, queimadas e furac\u00f5es, geralmente os primeiros pensamentos que v\u00eam \u00e0 nossa mente \u2013 enquanto cidad\u00e3os comuns que n\u00e3o trabalham em \u00e1reas especializadas na gest\u00e3o desse tipo de crise \u2013 s\u00e3o de que devemos proteger nossas vidas e propriedades ou bens, certo? 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