{"id":965,"date":"2018-11-02T14:31:55","date_gmt":"2018-11-02T17:31:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.admethics.com\/?p=965"},"modified":"2019-11-28T18:50:25","modified_gmt":"2019-11-28T21:50:25","slug":"the-irrelevance-of-ethics","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/the-irrelevance-of-ethics\/2018\/","title":{"rendered":"A irrelev\u00e2ncia da \u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo pode parecer um pouco presun\u00e7oso, uma afirma\u00e7\u00e3o dura. E o \u00e9 de fato, entretanto, este \u00e9 o t\u00edtulo de um artigo publicado no livro<em> Virtue and economy: Essays on morality and markets<\/em>.\u00a0O artigo em quest\u00e3o \u00e9 de um autor de suma\u00a0import\u00e2ncia para o contexto da \u00e9tica, mais precisamente a \u00e9tica das virtudes, Alasdair MacIntyre.<\/p>\n<p>No artigo em quest\u00e3o MacIntyre faz uma dura cr\u00edtica a possibilidade de o agente ser \u00e9tico ao trabalhar na \u00e1rea financeira. J\u00e1 no in\u00edcio do texto\u00a0MacIntyre descreve por exemplo que \u00e9 imposs\u00edvel negar que h\u00e1 um problema e que\u00a0foi notavelmente no per\u00edodo que se seguiu aos desastres econ\u00f4micos de larga escala que o capitalismo da modernidade avan\u00e7ada trouxe recentemente a si mesmo e aos povos do mundo. Neste sentido, MacIntyre explica que: <em>&#8220;O pressuposto de tal discuss\u00e3o tem sido que indiv\u00edduos que se desviaram em seus julgamentos e a\u00e7\u00f5es frequentemente o faziam apenas porque n\u00e3o haviam prestado aten\u00e7\u00e3o suficiente ao que os padr\u00f5es das virtudes recomendavam e, portanto, tinham sido moralmente mal orientados quanto aos padr\u00f5es que deveriam gui\u00e1-los em suas atividades de fazer dinheiro&#8221; (MacIntyre, 2015, p.7).<\/em><\/p>\n<p>MacIntyre est\u00e1 fazendo uma cr\u00edtica a \u00e9tica no setor financeiro e nos dizendo que o que est\u00e1 faltando nos indiv\u00edduos \u00e9 uma <strong>dimens\u00e3o \u00e9tica<\/strong>.\u00a0MacIntyre argumenta ainda no texto que a aquisi\u00e7\u00e3o das virtudes morais enfraqueceria a capacidade de algu\u00e9m de ser um bom operador no sistema financeiro e, inversamente, que um treinamento adequado nas virtudes da boa negocia\u00e7\u00e3o milita diretamente contra a aquisi\u00e7\u00e3o das virtudes morais.<\/p>\n<p>O argumento de MacIntyre se d\u00e1 em quatro pontos e a minha inten\u00e7\u00e3o neste artigo \u00e9 descrever esses pontos propostos por ele. A quest\u00e3o\u00a0que envolve tais argumentos \u00e9: <em>Quais s\u00e3o ent\u00e3o os\u00a0h\u00e1bitos que precisamos\u00a0adquirir, se quisermos agir como agentes moralmente respons\u00e1veis? (MacIntyre, 2015, p. 9).<\/em><\/p>\n<p>A primeira caracter\u00edstica moral no qual ele discorre sobre \u00e9 baseada n\u00e3o em Arist\u00f3teles como ele deixa claro, mas em D.W. Winnicott por um entendimento psicanal\u00edtico sobre a influencia das m\u00e3es no car\u00e1ter das crian\u00e7as. A ideia \u00e9 que as m\u00e3es precisam encontrar um <strong>meio<\/strong>\u00a0entre um regime muito rigoroso e muito indulgente. Se uma crian\u00e7a \u00e9 criada em um ambiente muito rigoroso, tende a ser muito complacente segundo MacIntyre e assim, deferente a autoridade, ou seja, muito anuente. Por outro lado, um regime muito indulgente pode levar a crian\u00e7a a n\u00e3o conseguir distinguir a realidade de suas proje\u00e7\u00f5es fantasiosas. Neste sentido, uma <strong>primeira marca de car\u00e1ter moral \u00e9 um realismo moderado sobre si mesmo<\/strong>. De acordo com MacIntyre h\u00e1 pouca oportunidade para essa virtude no setor financeiro.<\/p>\n<p><strong>A segunda caracter\u00edstica proposta \u00e9 a coragem.<\/strong> Coragem \u00e9 para MacIntyre, baseando-se agora em Arist\u00f3teles, um meio entre a temeridade e a covardia. Para MacIntyre essa seria a segunda caracter\u00edstica de um agente moralmente respons\u00e1vel. Assim, descreve que:\u00a0<em>Ela ou ele \u00e9 capaz de avaliar os perigos iminentes com precis\u00e3o, identificar os recursos dispon\u00edveis para confrontar esses perigos e julgar que riscos \u00e9 razo\u00e1vel assumir e quais s\u00e3o imprudentes, sejam esses riscos para si ou para os outros.<\/em><\/p>\n<p>MacIntyre diz tamb\u00e9m que o agente moralmente corajoso se coloca na linha de frente, ou seja, se algo der errado ele (agente) tamb\u00e9m compartilhar\u00e1 as perdas. Assim, o agente financeiro acaba por se basear muito em f\u00f3rmulas, o que em si mesmo n\u00e3o tem nada de errado, mas que acaba por confiar na sofistica\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica na an\u00e1lise risco, por exemplo, o que os deixam\u00a0<em>&#8220;aptos a fracassarem em n\u00e3o serem capazes de distinguir adequadamente entre temeridade, covardia e coragem\u201d (MacIntyre, 2015, p.11).<\/em><\/p>\n<p><strong>A terceira caracter\u00edstica proposta \u00e9 a virtude da justi\u00e7a<\/strong>, onde as pessoas n\u00e3o se preocupam apenas com as suas pr\u00f3prias quest\u00f5es, mas com as quest\u00f5es dos outros a sua volta. O que essas pessoas que possuem tais caracter\u00edsticas <em>&#8220;compreenderam \u00e9 que a realiza\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio bem \u00e9 insepar\u00e1vel de sua realiza\u00e7\u00e3o de um conjunto de bens comuns, bem comuns compartilhados com aqueles os quais suas vidas se encontram ou aqueles em que suas vidas impactam em suas v\u00e1rias atividades&#8221; (MacIntyre, 2015, p. 10).<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 comum agentes financeiros atuarem em seu pr\u00f3prio interesse ao custo de outros. Essa quest\u00e3o nos parece ser bem difundida nas mais diversas atividades corporativas, bem como nos pressupostos te\u00f3ricos, como visto no trabalho de Jensen e Meckling em 1976.<\/p>\n<p>A quarta caracter\u00edstica daqueles que apresentam car\u00e1ter moral desenvolvido n\u00e3o \u00e9 um foco no presente em detrimento do futuro, nem um foco no futuro em detrimento do presente. Para MacIntyre \u00e9 compreender o senso da hist\u00f3ria, ou seja, \u00e9 compreender a si mesmo como respons\u00e1vel n\u00e3o apenas por esse ou aquele conjunto de a\u00e7\u00f5es, mas por viver e ter vivido sua vida bem ou mal. MacIntyre descreve que \u00e9 <em>\u201cpreferir o honroso fracasso ao sucesso desonesto e saber o que fazer quando falhar\u201d (MacIntyre, 2015, p.10)<\/em>. Assim, <strong>a quarta caracter\u00edstica \u00e9 um senso do contexto hist\u00f3rico de suas a\u00e7\u00f5es<\/strong>. Para ele, os agentes financeiros <em>&#8220;s\u00e3o mantidos estritamente para dar conta de sucessos e fracassos de curto prazo sob condi\u00e7\u00f5es de extrema competitividade, em que a resposta imediata \u00e0 mudan\u00e7a de pre\u00e7os \u00e9 exigida deles\u201d (MacIntyre, 2015, p. 11)<\/em>. Assim, esta vis\u00e3o de curto prazo impede que se desenvolva a virtude requerida.<\/p>\n<p>Neste contexto, me parece claro que MacIntyre se\u00a0disp\u00f5e enfaticamente contra a possibilidade de atua\u00e7\u00e3o virtuosa por parte de agentes financeiros. Ou voc\u00ea \u00e9 bem treinado para a atua\u00e7\u00e3o no contexto financeiro como um\u00a0negociador ou investidor profissional do mercado ou voc\u00ea n\u00e3o seria um excelente investidor profissional caso tenha adquirido virtudes morais. Ou \u00e9 uma coisa ou outra, mas n\u00e3o ambas. O que voc\u00ea acha?<\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<\/p>\n<p>MacIntyre, A. C. (2015). The Irrelevance of Ethics. In A. Bielskis &#038; K. Knight (Eds.), Virtue and\u00a0Economy. (pp. 7\u201321). Ashgate.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo pode parecer um pouco presun\u00e7oso, uma afirma\u00e7\u00e3o dura. 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