{"id":909,"date":"2018-09-26T13:18:30","date_gmt":"2018-09-26T16:18:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.admethics.com\/?p=909"},"modified":"2019-11-28T18:55:43","modified_gmt":"2019-11-28T21:55:43","slug":"a-note-on-whaling","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/a-note-on-whaling\/2018\/","title":{"rendered":"Uma nota sobre a pesca das baleias"},"content":{"rendered":"<p>O debate sobre a pesca das baleias ressurgiu com for\u00e7a recentemente. Tal debate, em minha opini\u00e3o, reacende a quest\u00e3o sobre o status \u00e9tico dos animais em rela\u00e7\u00e3o aos seres humanos, e levanta quest\u00f5es sobre a forma pela qual s\u00e3o tratados por n\u00f3s. Meu objetivo \u00e9 expressar apenas um ponto de vista sobre o tema.<\/p>\n<p>Come\u00e7o lembrando David Hume: do ponto de vista do universo, a vida de um ser humano n\u00e3o tem mais import\u00e2ncia do que a de uma ostra. Se isso for aceito, as vidas da ostra, de um gato ou de uma baleia n\u00e3o t\u00eam mais import\u00e2ncia do que a do ser humano tamb\u00e9m. Mas, como Hume mesmo notou, nossa vida importa para n\u00f3s. E as vidas de todos os animais podem tamb\u00e9m nos importar \u2013 ou n\u00e3o. Mas, sob um ponto de vista da raz\u00e3o, o que eu gostaria de destacar \u00e9: sou eu \u2013 e em grau talvez um pouco menor as pessoas que gostam de mim \u2013 quem confere import\u00e2ncia \u00e0 minha vida. E eu reconhe\u00e7o uma import\u00e2ncia igual para as vidas dos demais seres humanos, sem exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, quando se trata dos animais, embora existam defesas morais racionalmente fundamentadas de que suas vidas s\u00e3o t\u00e3o importantes quanto as dos seres humanos, elas deixam algo a desejar. Peter Singer, por exemplo, adota um ponto de vista utilitarista: os animais sentem dor e prazer tanto quanto os seres humanos, e o objetivo das a\u00e7\u00f5es morais consiste em maximizar o prazer e\/ou minimizar a dor. Portanto, n\u00e3o devemos lhes causar dor. Pescar baleias, ent\u00e3o, \u00e9 causar a esses belos e inteligentes animas uma dor desnecess\u00e1ria. Mas matar um mosquito Aedes Aegyptii para evitar que me transmita dengue tamb\u00e9m \u00e9 causar-lhe uma dor desnecess\u00e1ria.<\/p>\n<p>O argumento de Singer \u00e9 simples e incisivo, mas falha em me convencer por uma raz\u00e3o simples: sabemos que os animais sentem dor e possuem mais intelig\u00eancia do que inicialmente pens\u00e1vamos, mas n\u00e3o sabemos se eles s\u00e3o capazes de tomar decis\u00f5es morais. As pr\u00f3prias baleias parecem demonstrar comportamentos de solidariedade, amizade e cuidado (inclusive com outras esp\u00e9cies), mas s\u00e3o a\u00e7\u00f5es morais (portanto, racionais) ou o mero instinto? Singer usa a raz\u00e3o para definir como os homens devem moralmente tratar os animais, mas isso coloca o ser humano num patamar superior, pois n\u00e3o se conseguiu ainda provar que os animais tenham raz\u00e3o, e que compreendam a moral.<\/p>\n<p>Atualmente, apenas tr\u00eas pa\u00edses pescam baleias: Jap\u00e3o, Isl\u00e2ndia e Noruega (conforme https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2015\/12\/151214_vert_earth_caca_baleias_lab). Na Isl\u00e2ndia, a carne de baleia \u00e9 servida em restaurantes que atendem sobretudo a turistas, pois poucos islandeses a comem; assim, a justificativa dada seria a explora\u00e7\u00e3o comercial, mas se apela tamb\u00e9m a uma antiga tradi\u00e7\u00e3o. Na Noruega, a pesca tamb\u00e9m \u00e9 justificada por motivos comerciais; no entanto, no litoral noruegu\u00eas, os pescadores defendem a atividade com base no fato de ser um costume ancestral. O Jap\u00e3o, por sua vez, defende a pesca por motivos cient\u00edficos \u2013 mas a carne \u00e9 vendida para restaurantes, por isso, a atividade \u00e9 comercial.<\/p>\n<p>Para analisar os tr\u00eas casos, n\u00e3o recorro ao argumento de Singer \u2013 que poderia ser aplicado a todos, mas n\u00e3o me convence. Nos casos do Jap\u00e3o e da Noruega, apelo a argumentos mais pr\u00f3ximos de um imperativo moral kantiano. Para analisar o caso japon\u00eas, os fatos imp\u00f5em uma interpreta\u00e7\u00e3o do argumento apresentado: trata-se de mentira deslavada, portanto, fere o dever moral. A pesca japonesa tem finalidade puramente comercial, pois n\u00e3o h\u00e1 necessidade de matar centenas de baleias anualmente para \u201cpesquisa cient\u00edfica\u201d \u2013 mesmo que os japoneses fossem os l\u00edderes, na comunidade cient\u00edfica, na pesquisa de baleias, poucas teriam que ser sacrificadas para tanto. No caso da Noruega e da Isl\u00e2ndia, \u00e9 preciso ter em mente que costumes e tradi\u00e7\u00f5es existem, mas tamb\u00e9m evoluem. E os costumes e tradi\u00e7\u00f5es, por importantes que sejam para a vida humana, devem ser objeto de um exame racional e, portanto, moral para que possam ser justificados. Ou seja, os costumes n\u00e3o s\u00e3o fundamentos \u00faltimos da moral: ajudam a justificar posicionamentos morais, mas n\u00e3o s\u00e3o capazes de faz\u00ea-lo sem apelar a outras raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Dessa forma, independentemente de reconhecer nas baleias um status moral equivalente ao nosso, n\u00e3o h\u00e1 base moral para pesc\u00e1-las: nem o costume nem a ci\u00eancia bastam para tanto. Mas a mentira e os erros do passado s\u00e3o, no meu ponto de vista, suficientes para condenar moralmente essa atividade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O debate sobre a pesca das baleias ressurgiu com for\u00e7a recentemente. Tal debate, em minha opini\u00e3o, reacende a quest\u00e3o sobre o status \u00e9tico dos animais em rela\u00e7\u00e3o aos seres humanos, e levanta quest\u00f5es sobre a forma pela qual s\u00e3o tratados por n\u00f3s. Meu objetivo \u00e9 expressar apenas um ponto de vista sobre o tema. 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