{"id":770,"date":"2018-08-26T14:55:03","date_gmt":"2018-08-26T17:55:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.admethics.com\/?p=770"},"modified":"2021-02-23T21:12:53","modified_gmt":"2021-02-24T00:12:53","slug":"disaster-ethics-and-the-touching-case-of-thai-boys-trapped-in-a-cave","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/disaster-ethics-and-the-touching-case-of-thai-boys-trapped-in-a-cave\/2018\/","title":{"rendered":"A \u00e9tica dos desastres e o comovente caso dos meninos tailandeses presos em uma caverna"},"content":{"rendered":"<p>Crises, trag\u00e9dias e desastres t\u00eam caracter\u00edsticas muito particulares de incerteza e que exigem diferentes relacionamentos e responsabilidades para sua resposta e solu\u00e7\u00e3o, com tomada de decis\u00f5es extremamente dif\u00edceis. A fil\u00f3sofa Naomi Zack (2009) \u2013 uma das principais refer\u00eancias sobre \u00e9tica dos desastres \u2013 esclarece que existem aspectos desses eventos que v\u00e3o al\u00e9m dos fatos evidentes, sendo vistos em obriga\u00e7\u00f5es, valores e escolhas em que emo\u00e7\u00f5es e desafios da mesma exist\u00eancia coexistem, se acomodam e se conflitam (Tavares &amp; Barbosa, 2014).<\/p>\n<p>Apesar de existirem estudiosos que se esquivam de discuss\u00f5es morais ligadas a eventos de desastres com base na premissa de que n\u00e3o s\u00e3o causados por agentes morais (Murray, 2011), Zack (2009) defende que eles dizem respeito ao bem-estar e \u00e0s raz\u00f5es pelas quais as pessoas t\u00eam uma obriga\u00e7\u00e3o moral geral de n\u00e3o prejudicar os outros e de ajudar os que sofrem ou necessitam.<\/p>\n<p>Considerando o argumento de Zack, o impressionante resgate dos doze meninos e seu t\u00e9cnico de futebol que ficaram, ao todo, dezessete dias presos em uma caverna na Tail\u00e2ndia \u00e9 um recente caso em que elementos \u00e9ticos estiveram constantemente presentes: seja nas a\u00e7\u00f5es dos adolescentes, do t\u00e9cnico, dos mergulhadores, dos respons\u00e1veis pela coordena\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o ou das autoridades p\u00fablicas envolvidas.<\/p>\n<p>Para Zack (2009), a adequada prepara\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es, tal como a realizada na Tail\u00e2ndia, trata-se de uma \u201cprud\u00eancia obrigat\u00f3ria\u201d. De forma similar, a falta de prepara\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como uma quest\u00e3o moral no campo da \u00e9tica dos desastres, ou seja, uma \u201cfalha da prud\u00eancia obrigat\u00f3ria\u201d. Ainda dentro desse campo, Jenson (1997) acredita que diferentes dilemas morais podem surgir quando os gestores se deparam com perguntas como: Como as decis\u00f5es \u00e9ticas devem ser tomadas? Quais princ\u00edpios e valores devem guiar os envolvidos em processos \u00e9ticos durante trag\u00e9dias? O que \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel em resposta \u00e0s necessidades humanas?<\/p>\n<p>No caso dos meninos tailandeses, a equipe de coordena\u00e7\u00e3o do resgate inicialmente planejou realizar o resgate dos meninos mais fortes primeiro. Essa op\u00e7\u00e3o seria devido \u00e0 pr\u00f3pria complexidade da opera\u00e7\u00e3o que nunca havia sido realizada e para que os mais fracos pudessem se fortalecer e enfrentar o desafio que estava por vir. Contudo, um m\u00e9dio e mergulhador australiano foi chamado a caverna e a estrat\u00e9gia foi revertida para o resgate dos mais fracos primeiro, uma vez que a previs\u00e3o de chuva parecia se confirmar e o resgate poderia ser prejudicado.<\/p>\n<p>Refletir sobre essa decis\u00e3o traz, al\u00e9m dos aspectos t\u00e9cnicos, tamb\u00e9m um dilema moral, principalmente \u00e0queles que n\u00e3o est\u00e3o habitualmente acostumados ao trabalho em trag\u00e9dias: deve-se resgatar quem necessita de assist\u00eancia m\u00e9dica mais urgentemente, mas que poderia n\u00e3o resistir \u00e0 opera\u00e7\u00e3o de resgate devido \u00e0 fraqueza e complexidade da a\u00e7\u00e3o OU deve-se resgatar quem tem mais condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e de sa\u00fade para resistir \u00e0s dificuldades de uma opera\u00e7\u00e3o nunca realizada e para sobreviver enquanto os mais fracos se fortalecem?<\/p>\n<p>Ao colocar a quest\u00e3o dessa forma e mostrar os pr\u00f3s e contras de ambas alternativas talvez fique mais clara a compreens\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o. Entretanto, como ficam as fam\u00edlias daqueles meninos que precisavam aguardar um ou dois dias a mais para serem resgatados?<\/p>\n<p>Segundo o site da BBC (2018), h\u00e1 um ditado tailand\u00eas que diz: &#8220;Evitar\u00e1s ofender a quem te ajuda pedindo mais do que este lhe d\u00e1.&#8221; Com essa convic\u00e7\u00e3o, outra delibera\u00e7\u00e3o \u00e9tica, provavelmente baseada na cultura daquela comunidade, foi de n\u00e3o divulgar os nomes dos primeiros resgatados. \u201cPressionar as autoridades em um momento como este poderia ser considerado ingrato, desrespeitoso e ainda por a opera\u00e7\u00e3o em risco\u201d (BBC, 2018). Al\u00e9m disso, Narongsak Osottanakorn, chefe da equipe de resgate, explicou que as identidades n\u00e3o foram reveladas por respeito \u00e0s fam\u00edlias dos meninos que permaneciam presos. Assim, a comemora\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia n\u00e3o causaria ang\u00fastia \u00e0quelas que ainda aguardavam por not\u00edcias (BBC, 2018).<\/p>\n<p>Esse caso nos mostra que, t\u00e3o importante quanto considerar aspectos que s\u00e3o, essencialmente, de natureza t\u00e9cnica, \u00e9 compreender que a complexidade de sua gest\u00e3o se desenvolve na medida em que enfrenta conflitos ou necessita de delibera\u00e7\u00f5es baseadas em fatores humanos e subjetivos, tal como a delibera\u00e7\u00e3o \u00e9tica. Refor\u00e7a-se, assim, a import\u00e2ncia do tema e a discuss\u00e3o da \u00e9tica dos desastres \u2013 sejam eles naturais ou n\u00e3o \u2013 nos dias atuais.<\/p>\n<h4><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h4>\n<p>BBC. <strong>Resgate na Tail\u00e2ndia<\/strong>: Por que identidade de crian\u00e7as salvas demorou a ser revelada at\u00e9 para os pais? Dispon\u00edvel em: . Acesso em 10 ago. 2018.<\/p>\n<p>JENSON E. <strong>Disaster Management Ethics<\/strong>. UNDP Disaster Management Training Programme, 1997. Dispon\u00edvel em: . Acesso em 10 ago. 2018.<\/p>\n<p>TAVARES, L. M. B.; BARBOSA, F. C. Reflex\u00f5es sobre a emo\u00e7\u00e3o do medo e suas implica\u00e7\u00f5es nas a\u00e7\u00f5es de Defesa Civil. <strong>Ambiente e Sociedade<\/strong>, S\u00e3o Paulo, v. 17, n. 4, p. 17-34, 2014.<\/p>\n<p>ZACK, N. <strong>Ethics for Disaster<\/strong>. Lanham, MD: Rowman &amp; Littlefield, 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Crises, trag\u00e9dias e desastres t\u00eam caracter\u00edsticas muito particulares de incerteza e que exigem diferentes relacionamentos e responsabilidades para sua resposta e solu\u00e7\u00e3o, com tomada de decis\u00f5es extremamente dif\u00edceis. 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