{"id":731,"date":"2018-08-10T20:38:17","date_gmt":"2018-08-10T23:38:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.admethics.com\/?p=731"},"modified":"2021-02-23T21:13:46","modified_gmt":"2021-02-24T00:13:46","slug":"a-possibility-of-alignment-between-ethics-and-finance","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/a-possibility-of-alignment-between-ethics-and-finance\/2018\/","title":{"rendered":"Uma possibilidade de alinhamento entre \u00e9tica e finan\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p>Enron Corporation foi uma empresa l\u00edder no mundo na \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o de energia. Localizada em Houston, Texas, empregava cerca de 21.000 mil pessoas. No ano 2000, antes de declarar fal\u00eancia devido a fraudes cont\u00e1beis, a Enron faturou 101 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Este n\u00e3o \u00e9 o primeiro e nem ser\u00e1 o \u00faltimo caso em que empresas se apresentam envolvidas em algum tipo de quest\u00e3o \u201canti\u00e9tica\u201d.<\/p>\n<p>Empresas como Libor, Goldman, Wells Fargo e Baclays, bem como o esquema de Madoff, s\u00e3o partes de grandes esc\u00e2ndalos ocorridos nos Estados Unidos nos \u00faltimos dez anos. No Brasil, a opera\u00e7\u00e3o Lava \u00e0 Jato condenou mais de 130 pessoas em esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o envolvendo presidente do pa\u00eds e altos executivos de empresas privadas, por exemplo.<\/p>\n<p>Para o professor Alexander Wagner, da Universidade de Zurich, na\u00a0Su\u00ed\u00e7a, de cada sete empresas norte americanas, uma comete fraude todos os anos. Com isso, h\u00e1 um\u00a0custo tanto pra acionistas, como para a sociedade de forma geral na ordem de US$ 380 bilh\u00f5es ao ano. Ainda assim, \u00e9 importante ressaltar que seis dessas sete empresas procuram se &#8220;manter na linha\u201d.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o acerca de\u00a0\u00e9tica e finan\u00e7as j\u00e1\u00a0precede d\u00e9cadas e s\u00e9culos.\u00a0Arist\u00f3teles, por exemplo, j\u00e1 discutiu sobre este assunto. Nos anos que se seguiram ap\u00f3s Arist\u00f3teles, diversos outros\u00a0proeminentes fil\u00f3sofos procuraram dar suas respectivas ideias sobre \u00e9tica e finan\u00e7as. Nos dias atuais, MacIntyre se destaca como um dos principais nomes a descrever sobre,\u00a0principalmente pela perspectiva das virtudes. De qualquer forma, \u00e9 um assunto que ainda n\u00e3o se encontra esgotado e carece de maiores defini\u00e7\u00f5es dado a\u00a0din\u00e2mica de mercado que a sociedade atual se encontra. Obviamente a rela\u00e7\u00e3o com dinheiro que temos hoje n\u00e3o se define da mesma forma que um s\u00e9culo atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Pela concep\u00e7\u00e3o de\u00a0Arist\u00f3teles o florescimento depende, por um lado, de bens materiais, externos ou corp\u00f3reos e, por outro, de bens n\u00e3o materiais ou internos, como os bens ou excel\u00eancias da alma, tamb\u00e9m conhecidos como virtudes (Arist\u00f3teles 1990: 1324a). Embora ambos sejam igualmente necess\u00e1rios para o florescimento, os bens materiais devem ser perseguidos apenas na medida em que nos permitam alcan\u00e7ar os n\u00e3o-materiais ou espirituais (Ferrero e Sison, 2017, p. 1155). Neste sentido, h\u00e1 um limite a ser estabelecido quanto aos bens\u00a0materiais. Assim, para Arist\u00f3teles os bens materiais s\u00e3o apenas os meios necess\u00e1rios para alcan\u00e7ar algo maior, superior, como o florescimento, uma vida boa. Ou seja, a busca por bens materias, dinheiro pelo fim em si mesmo n\u00e3o \u00e9 caracterizado pela abordagem aristot\u00e9lica como virtuosa.<\/p>\n<p>Ferrero e Sison (2017, p. 1155), descrevem que em rela\u00e7\u00e3o ao limite, os seres humanos precisam de uma quantia finita de dinheiro para satisfazer as necessidades f\u00edsicas ou corporais e alcan\u00e7ar o florescimento. Portanto, al\u00e9m dessa quantidade, mais dinheiro pode resultar em um empecilho do que uma ajuda. Mais, nem sempre \u00e9 melhor.<\/p>\n<p>MacIntyre descreve acerca dos bens de Efic\u00e1cia (<em>goods of\u00a0effectiveness<\/em>)\u00a0e bens de\u00a0Excel\u00eancia (<em>goods of excellence<\/em>). Para MacIntyre os\u00a0bens de efic\u00e1cia s\u00e3o aqueles perseguidos para o benef\u00edcio de outro e est\u00e3o fora do agente, um exemplo disto e\u0301 o dinheiro. J\u00e1 os bens de\u00a0excel\u00eancia\u00a0s\u00e3o escolhidos em si mesmos, alcan\u00e7ados em atividades cujo fim ou prop\u00f3sito e\u0301 a sua pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o da melhor maneira poss\u00edvel. S\u00e3o bens internos \u00e0s pr\u00e1ticas, como florescimento, relacionamentos amorosos, ouvindo m\u00fasica, conhecimento e virtudes.<\/p>\n<p>Ambos bens de excel\u00eancia e bens de efic\u00e1cia s\u00e3o definidos em refer\u00eancia a pr\u00e1ticas e institui\u00e7\u00f5es segundo MacIntyre.\u00a0As pr\u00e1ticas s\u00e3o \u201cqualquer forma coerente e complexa de atividade humana cooperativa socialmente estabelecida atrav\u00e9s da qual bens internos a essa forma de atividade s\u00e3o realizados no curso de tentar alcan\u00e7ar aqueles padr\u00f5es de excel\u00eancia que s\u00e3o apropriados e parcialmente definitivos para aquela forma de atividade\u201d (MacIntyre 2007 [1981]: 175 <em>apud<\/em> Ferrero e Sison, 2017).\u00a0Por sua vez, \u201cas institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o caracteristicamente e necessariamente preocupadas com [&#8230;] bens externos. Eles est\u00e3o envolvidos na aquisi\u00e7\u00e3o de dinheiro e outros bens materiais; eles s\u00e3o estruturados em termos de poder e status e distribuem dinheiro, poder e status como recompensas\u201d (MacIntyre 2007 [1981]: 194)\u00a0<em>apud<\/em> Ferrero e Sison, 2017).<\/p>\n<p>MacIntyre deixa claro que quando agentes buscam bens de efic\u00e1cia como dinheiro, status e poder em si mesmos, as pr\u00e1ticas s\u00e3o distorcidas.\u00a0(MacIntyre 1994: 289). Essa situa\u00e7\u00e3o descreve a perda de integridade ou a corrup\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas (MacIntyre 2007 [1981]: 195).<\/p>\n<p>Como podemos aplicar essas ideias sobre \u00e9tica dado o mercado financeiro e econ\u00f4mico dos dias atuais em que a complexidade das rela\u00e7\u00f5es institucionais \u00e9 t\u00e3o din\u00e2mica?<\/p>\n<p>O sistema\u00a0financeiro segundo Greenwood e Scharfstein (2012)\u00a0atual tem como fun\u00e7\u00e3o promover poupan\u00e7a, seja domestica ou empresarial, com a atribui\u00e7\u00e3o dos fundos de forma mais produtiva.\u00a0At\u00e9 disso, distribui e gerencia o risco entre os agentes e facilita um sistema de pagamento confi\u00e1vel.\u00a0Empregado adequadamente, o financiamento promove o crescimento econ\u00f4mico, promove o empreendedorismo e promove a educa\u00e7\u00e3o (Zingales 2015). Ora, fica claro que a\u00a0din\u00e2mica financeira e econ\u00f4mica nos dias atuais \u00e9 diferente de tempos atr\u00e1s. A forma que os agentes lidam com os recursos, promovem poupan\u00e7a e distribuem os riscos s\u00e3o diferentes. S\u00e3o tamb\u00e9m necess\u00e1rios dado a forma que a sociedade age.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por exemplo, a atividade financeira que consiste em pura especula\u00e7\u00e3o ou busca de renda (Zingales 2015) representaria a corrup\u00e7\u00e3o de uma pr\u00e1tica de acordo com MacIntyre e um abuso do uso de bens\u00a0materiais de acordo com Arist\u00f3teles.\u00a0Ao pensarmos em aplicar as quest\u00f5es \u00e9ticas em finan\u00e7as, Ferrero e Sison (2017) ao se basearem na ideia de Arist\u00f3teles e MacIntyre descrevem que:<\/p>\n<p><em>\u201cPoder\u00edamos, ent\u00e3o, arriscar um \u201cbem interno\u201d para a atividade financeira de aloca\u00e7\u00e3o de recursos ou investimento consistindo em seu \u201cmelhor uso\u201d, diferente do que \u00e9 simplesmente seu \u201cuso mais produtivo\u201d. Certamente, lucros e produtividade s\u00e3o indicadores razo\u00e1veis da solidez de um investimento, mas eles n\u00e3o devem ser o \u00fanico e principal objetivo do financista. Os requisitos \u00e9ticos devem ser satisfeitos acima de tudo. Bens e servi\u00e7os t\u00eam que ser \u201crealmente \u00fateis\u201d, n\u00e3o apenas porque satisfazem\u00a0prefer\u00eancias, mas tamb\u00e9m porque salvaguardam e promovem a dignidade humana, o bem comum e outros princ\u00edpios sociais fundamentais.&#8221;<\/em><\/p>\n<h4><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h4>\n<p>Ferrero, I., &amp; Sison, A. J. G. (2017). Aristotle and MacIntyre on the virtues in finance. In A. J. G. Sison (Ed.), <strong>Handbook of virtue ethics in business and management<\/strong> (Vol. 1\u20132, pp. 1153\u2013 1162). Dordrecht: Springer.<\/p>\n<p>MacIntyre A (2007 [1981]) <strong>After virtue<\/strong>, 3rd ed. Duckworth, London.<\/p>\n<p><em>As vis\u00f5es e opini\u00f5es expressadas nos artigos s\u00e3o as dos autores e n\u00e3o refletem necessariamente a Pol\u00edtica oficial ou posi\u00e7\u00e3o do grupo AdmEthics.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enron Corporation foi uma empresa l\u00edder no mundo na \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o de energia. Localizada em Houston, Texas, empregava cerca de 21.000 mil pessoas. No ano 2000, antes de declarar fal\u00eancia devido a fraudes cont\u00e1beis, a Enron faturou 101 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. 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