{"id":637,"date":"2018-07-13T20:05:36","date_gmt":"2018-07-13T23:05:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.admethics.com\/?p=637"},"modified":"2021-02-23T21:17:09","modified_gmt":"2021-02-24T00:17:09","slug":"the-virtue-in-daoism","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/the-virtue-in-daoism\/2018\/","title":{"rendered":"A Virtude no Taoismo"},"content":{"rendered":"<p>O Taoismo \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e religiosa da China antiga, da qual sua obra mais conhecida \u00e9 o <em>Tao Te King<\/em>, provavelmente escrito por Lao-Tzu entre 350-250 a.C. A lenda diz que um guarda de fronteira pediu a Lao-Tzu que compartilhasse sua sabedoria com ele, ent\u00e3o Lao-Tzu escreveu seus ensinamentos que comp\u00f5em o <em>Tao Te King<\/em>. Por\u00e9m o manuscrito talvez seja uma cole\u00e7\u00e3o de prov\u00e9rbios de v\u00e1rios autores e Lao-Tzu (o \u201cAntigo Mestre\u201d) n\u00e3o era um personagem hist\u00f3rico real (LaFargue, 1995, p. 14).<\/p>\n<p>Lao-Tzu usa a palavra Tao para se referir a uma realidade \u00faltima que produz todas as coisas. Para entender isso, temos que considerar que a linguagem \u00e9 usada para representar as coisas e para se comunicar com os outros, por\u00e9m a linguagem pode bloquear o entendimento da realidade, de acordo com Cheng (2004, p. 145): \u201cexiste uma realidade pressuposta mais ampla, que sempre ir\u00e1 al\u00e9m da refer\u00eancia e uso de qualquer l\u00edngua espec\u00edfica\u201d. Quando Lao-Tzu usa a palavra Tao, ele est\u00e1 tentando se referir a uma realidade que est\u00e1 al\u00e9m do mundo usual dos fen\u00f4menos. Ele escreveu que o Tao do qual se pode falar n\u00e3o \u00e9 o Tao constante (geralmente traduzido como \u201cO Caminho\u201d) que pressup\u00f5em qualquer tipo de linguagem, portanto a palavra Tao \u00e9 usada como uma met\u00e1fora (Cheng, 2004, p. 146).<\/p>\n<p>A natureza do Tao \u00e9 da onde todas as a\u00e7\u00f5es v\u00eam e s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es do espont\u00e2neo, natural e sem esfor\u00e7o (\u201c<em>the effortless<\/em>\u201d) (Cheng, 2004, p. 153). Portanto, uma a\u00e7\u00e3o virtuosa est\u00e1 em harmonia com o Tao e tem as suas caracter\u00edsticas: o car\u00e1ter natural, espont\u00e2nea e sem esfor\u00e7o. Para Lao-Tzu, uma pessoa com a virtude superior \u00e9 aquele que n\u00e3o tem a inten\u00e7\u00e3o de ser virtuoso, mas apenas entende e segue a natureza do Tao. Um conceito central no Taoismo \u00e9 Wuwei (n\u00e3o-a\u00e7\u00e3o), que n\u00e3o \u00e9 efetuar nenhuma a\u00e7\u00e3o, mas sim restaurar a natureza do Tao e o deixar operar. A virtude (Te) est\u00e1 enraizada na natureza do Tao. Lao-Tzu compara uma pessoa virtuosa como a \u00e1gua, que nutre v\u00e1rias coisas e ocupa lugares desprezados por outras pessoas, assim como a pessoa virtuosa para Lao-Tzu que se p\u00f5em abaixo dos outros. Para chegar a esse estado mental em harmonia como o Tao, descrito por Lao-Tzu, deve-se diminuir seus desejos por coisas exteriores e diminuir o conhecimento irrelevante que preocupa a mente.<\/p>\n<p>Para outro fil\u00f3sofo Taoista, Chuang Tzu, o agente que atua de forma virtuosa deve tamb\u00e9m fazer ela de uma forma tranquila, sem esfor\u00e7o, natural e alegre (Huang, 2010, p. 1050). Em suas hist\u00f3rias, ele descreve artes\u00e3os que aprenderam a serem habilidosos em seus trabalhos, seguindo o fluxo do Tao, como a hist\u00f3rias do fabricante de rodas que n\u00e3o podia fazer uma roda nem muito devagar nem muito r\u00e1pido, apenas na velocidade certa; ou a hist\u00f3ria de um cozinheiro que destrinchava um boi com sua intui\u00e7\u00e3o, seguindo sua estrutura natural.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, podemos interpretar das hist\u00f3rias de Chuang Tzu, que algu\u00e9m poderia estar em harmonia com o Tao enquanto mata a outro, se ele est\u00e1 realizando esta a\u00e7\u00e3o de uma forma sem esfor\u00e7o e alegre? Para Huang, a resposta \u00e9 n\u00e3o: \u201cNa minha vis\u00e3o, essas est\u00f3rias sobre pessoas habilidosas (knack stories) nos contam como fazer as coisas bem, se n\u00f3s sabemos o que devemos fazer, mas elas n\u00e3o nos contam quais coisas dever\u00edamos fazer\u201d. Em outra hist\u00f3ria, Chuang Tzu narra sobre um p\u00e1ssaro que foi recebido por um Pr\u00edncipe com vinho, m\u00fasica e carne de boi. Atordoado, o p\u00e1ssaro morreu. O Pr\u00edncipe matou o p\u00e1ssaro porque ele estava \u201ctratando o p\u00e1ssaro como ele gostaria de ser tratado e n\u00e3o como o p\u00e1ssaro gostaria de ser tratado\u201d (Chuang Tzu, apud Huang, 2004, p. 1056). Em outra hist\u00f3ria, Chuang Tzu afirmou: \u201cSe um ser humano dorme em lugar \u00famido, a pessoa vai ter dor nos seus lombos e alguma paralisia. Isso \u00e9 verdade para enguias? Se um ser humano vive em uma \u00e1rvore, a pessoa ficar\u00e1 assustada e tremer\u00e1. Isso \u00e9 verdade para macacos? Qual dos tr\u00eas \u00e9 o lugar certo para viver?\u201d. Para Huang (2004, p. 1061), a \u00e9tica contida nessas hist\u00f3rias \u00e9 uma \u00e9tica da diferen\u00e7a, sugerindo que se deve respeitar a disposi\u00e7\u00e3o natural dos outros, n\u00e3o impondo valores e portanto medindo a adequa\u00e7\u00e3o moral de uma a\u00e7\u00e3o pelo ponto de vista do agente passivo, n\u00e3o do agente ativo (Huang, 2010, p. 1067).<\/p>\n<p>O Taoismo \u00e9 uma filosofia muito rica e profunda, que pode dar ao Ocidente uma boa contribui\u00e7\u00e3o nos estudos sobre virtude dentre outros campos de estudo. A maneira po\u00e9tica, enigm\u00e1tica e, \u00e0s vezes, paradoxal de se escrever sobre o Tao e sua Virtude o torna complexo e interessante. Ainda ressalta-se que \u00e9 uma filosofia mut\u00e1vel, ou seja, nunca vai esgotar suas poss\u00edveis atualiza\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h4><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h4>\n<p>HUANG, Yong. Respecting different ways of life: A Daoist ethics of virtue in the Zhuangzi. <strong>The Journal of Asian Studies<\/strong>, v. 69, n. 4, p. 1049-1069, 2010.<\/p>\n<p>CHENG, Chung\u2010ying. Dimensions of the Dao and Onto\u2010Ethics in Light of the DDJ. <strong>Journal of Chinese Philosophy<\/strong>, v. 31, n. 2, p. 143-182, 2004.<\/p>\n<p>CHUANG-TZU; MERTON, Thomas. <strong>A via de Chuang Tzu<\/strong>. 7.ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1994.<\/p>\n<p>LAO-TZU; WILHELM, Richard. <strong>Tao-Te King<\/strong>: o livro do sentido e da vida . 9. ed. S\u00e3o Paulo: Pensamento, 2001.<\/p>\n<p>LaFarge, Michael. Introdu\u00e7\u00e3o. IN: TSAI, Chih Chung. <strong>Tao em quadrinhos<\/strong>. 3. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.<\/p>\n<p><em>As vis\u00f5es e opini\u00f5es expressadas nos artigos s\u00e3o as dos autores e n\u00e3o refletem necessariamente a Pol\u00edtica oficial ou posi\u00e7\u00e3o do grupo AdmEthics<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Taoismo \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e religiosa da China antiga, da qual sua obra mais conhecida \u00e9 o Tao Te King, provavelmente escrito por Lao-Tzu entre 350-250 a.C. 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