{"id":5306,"date":"2026-05-12T09:40:32","date_gmt":"2026-05-12T12:40:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=5306"},"modified":"2026-05-12T09:45:17","modified_gmt":"2026-05-12T12:45:17","slug":"why-putting-experts-in-a-room-isnt-enough-to-solve-complex-problems","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/why-putting-experts-in-a-room-isnt-enough-to-solve-complex-problems\/2026\/","title":{"rendered":"Por que juntar especialistas em uma sala n\u00e3o basta para resolver problemas complexos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Nicolas Rufino dos Santos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um quadro epist\u00eamico \u00e9 a vis\u00e3o de mundo que expressa os valores e as intencionalidades do pesquisador, ainda que de forma impl\u00edcita. \u00c9 por meio dessa dimens\u00e3o de an\u00e1lise que \u00e9 poss\u00edvel extrair as ra\u00edzes ideol\u00f3gicas das teorias cient\u00edficas. Os recortes selecionados e as interpreta\u00e7\u00f5es deles extra\u00eddas revelam o quadro epist\u00eamico (GARC\u00cdA, 1994).<\/p>\n\n\n\n<p>Para exemplificar a import\u00e2ncia do quadro epist\u00eamico, utilizemos de um exemplo apresentado por Garc\u00eda (1994). Imagine dois planos de pesquisa sobre uma mesma tem\u00e1tica. Um projeto elaborado para responder \u00e0 pergunta \u201c<strong>como podemos proceder para aumentar a produtividade de alimentos b\u00e1sicos, com o objetivo de alcan\u00e7ar a autossufici\u00eancia alimentar?<\/strong>\u201d ser\u00e1 epistemologicamente distinto de um projeto voltado a questionar \u201c<strong>Por que a desnutri\u00e7\u00e3o est\u00e1 aumentando entre os pa\u00edses pobres?<\/strong>&#8220;. Mesmo que os dois projetos levantem problemas relacionados \u00e0 produtividade e \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, eles partem de perspectivas normativas e sociais diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por essa raz\u00e3o que Garc\u00eda (1994) argumenta que n\u00e3o existem fen\u00f4menos observ\u00e1veis totalmente neutros. Os dados coletados pela experi\u00eancia do pesquisador v\u00e3o se tornando intelig\u00edveis ao longo do processo de pesquisa. <strong>N\u00e3o h\u00e1 observa\u00e7\u00e3o sem interpreta\u00e7\u00e3o. Todo e qualquer dado emp\u00edrico \u00e9 coletado por algu\u00e9m que j\u00e1 carrega consigo uma forma de ver o mundo, e \u00e9 essa lente que torna o dado reconhec\u00edvel. O quadro epist\u00eamico condiciona o que o pesquisador v\u00ea, o que ele pergunta e o que ele interpreta.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas infelizmente o sistema de educa\u00e7\u00e3o e de produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica atual caracteriza-se pela fragmenta\u00e7\u00e3o dos problemas reais e, consequentemente, pela perda de contato com esses problemas. Um exemplo desse fen\u00f4meno \u00e9 o da medicina tradicional, na qual, ao isolar o estudo dos \u00f3rg\u00e3os espec\u00edficos, corre-se o risco de perder a vis\u00e3o do funcionamento do organismo como um todo. Para superar este problema n\u00e3o \u00e9 preciso necessariamente absorver mais conte\u00fado, mas pensar diferentemente sobre o fazer cient\u00edfico (GARC\u00cdA, 1994).<\/p>\n\n\n\n<p>Quando estudamos a Teoria de Sistemas, por exemplo, notamos que a delimita\u00e7\u00e3o de um sistema n\u00e3o \u00e9 um dado da natureza, mas uma constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica orientada pelas indaga\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo que a investiga. Mesmo assim, as rela\u00e7\u00f5es entre seus elementos imp\u00f5em exig\u00eancias metodol\u00f3gicas para estud\u00e1-la. A \u201cregra\u201d a ser seguida \u00e9: um sistema complexo n\u00e3o \u00e9 caracterizado somente por ser \u201ccomplicado\u201d ou por reunir partes heterog\u00eaneas, mas por exigir referenciais epist\u00eamicos, conceituais e metodol\u00f3gicos compartilhados. Isso porque as suas caracter\u00edsticas determinantes s\u00e3o a interdefinibilidade e a depend\u00eancia das fun\u00e7\u00f5es entre os seus elementos (GARC\u00cdA, 1994).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 com base nessa premissa que Garc\u00eda (1994) nos alerta para uma armadilha metodol\u00f3gica da ci\u00eancia moderna: a ilus\u00e3o das equipes multidisciplinares. \u00c9 comum crer que basta reunir em uma mesma sala especialistas de diferentes \u00e1reas para resolver um problema complexo. A quest\u00e3o \u00e9 a seguinte: a mera justaposi\u00e7\u00e3o de profissionais n\u00e3o produz interdisciplinaridade. Grupos criados assim produzem um amontoado de relat\u00f3rios isolados, espec\u00edficos e publicados por uma mesma capa. N\u00e3o h\u00e1 uma s\u00edntese integradora.<\/p>\n\n\n\n<p>A interdisciplinaridade acontece no ponto de partida, na constru\u00e7\u00e3o conjunta do quadro epist\u00eamico, e n\u00e3o no cruzamento de dados da etapa final de um projeto. Ela n\u00e3o est\u00e1 nas fronteiras das disciplinas acad\u00eamicas, mas nos processos do sistema a ser estudado e no quadro epist\u00eamico que orienta a formula\u00e7\u00e3o inicial dos problemas (GARC\u00cdA, 1994).<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo: um prefeito contratou tr\u00eas especialistas para implementar um sistema de Intelig\u00eancia Artificial para organizar a fila de espera de cirurgias em um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico de sa\u00fade: um engenheiro, um advogado e um m\u00e9dico. \u00c9 comum que o engenheiro crie um algoritmo focado em efici\u00eancia e rapidez; o advogado escreva um parecer dizendo que a prefeitura est\u00e1 cumprindo a LGPD e o m\u00e9dico escreva um relat\u00f3rio sobre as doen\u00e7as mais comuns da cidade. O resultado final disso n\u00e3o passa de uma s\u00e9rie de relat\u00f3rios isolados com um mesmo grampo.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdadeira interdisciplinaridade acontece quando eles sentam juntos em uma sala para <strong>construir o problema<\/strong>, debatendo inten\u00e7\u00f5es e os valores do projeto para chegarem a um acordo, como: \u201cO problema n\u00e3o \u00e9 somente fazer a fila andar mais r\u00e1pido, mas garantir que a IA promova equidade e acesso justo \u00e0 sa\u00fade para os mais vulner\u00e1veis\u201d. A partir desse ponto de vista o engenheiro vai trabalhar junto com o m\u00e9dico para criar um c\u00f3digo que atenda a crit\u00e9rios de vulnerabilidade social e de gravidade m\u00e9dica. O advogado, em vez de aplicar a LGPD isoladamente, vai conversar com o engenheiro para garantir que o algoritmo n\u00e3o viole princ\u00edpios constitucionais da n\u00e3o-discrimina\u00e7\u00e3o. O m\u00e9dico n\u00e3o vai somente listar as doen\u00e7as mais comuns da cidade, mas dialogar com o engenheiro para definir quais s\u00e3o os crit\u00e9rios cl\u00ednicos que devem ser traduzidos em vari\u00e1veis do algoritmo. E o prefeito \u00e9 quem define qual problema a equipe est\u00e1 autorizada a resolver.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto de vista compartilhado \u00e9 o que transforma os especialistas isolados em uma verdadeira equipe, e o quadro epist\u00eamico \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade do projeto, e n\u00e3o uma etapa final. Uma equipe orientada pela efici\u00eancia vai resolver apenas isso, independentemente de quantas disciplinas ela re\u00fana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>GARC\u00cdA, Rolando et al. <strong>Interdisciplinariedad y sistemas complejos<\/strong>. Ciencias sociales y formaci\u00f3n ambiental, p. 85-124, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>GARC\u00cdA, Rolando. Conceptos B\u00e1sicos para el Estudio de Sistemas Complejos. In: LEFF, E. (Coord.). <strong>Los Problemas del Conocimiento y la Perspectiva Ambiental del Desarrollo<\/strong>. M\u00e9xico: Siglo XXI, 1986.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nicolas Rufino dos Santos Um quadro epist\u00eamico \u00e9 a vis\u00e3o de mundo que expressa os valores e as intencionalidades do pesquisador, ainda que de forma impl\u00edcita. \u00c9 por meio dessa dimens\u00e3o de an\u00e1lise que \u00e9 poss\u00edvel extrair as ra\u00edzes ideol\u00f3gicas das teorias cient\u00edficas. Os recortes selecionados e as interpreta\u00e7\u00f5es deles extra\u00eddas revelam o quadro epist\u00eamico [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":5307,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[606,607],"class_list":["post-5306","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-articles","tag-quadro-epistemico","tag-teoria-do-conhecimento"],"translation":{"provider":"WPGlobus","version":"3.0.2","language":"br","enabled_languages":["en","br"],"languages":{"en":{"title":true,"content":true,"excerpt":false},"br":{"title":true,"content":true,"excerpt":false}}},"blog_post_layout_featured_media_urls":{"thumbnail":["https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/www-e1778589845550-150x150.png",150,150,true],"full":["https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/www-e1778589845550.png",585,307,false]},"categories_names":{"3":{"name":"Articles","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/category\/articles\/"}},"tags_names":{"606":{"name":"Quadro Epist\u00eamico","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/tag\/quadro-epistemico\/"},"607":{"name":"Teoria do Conhecimento","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/tag\/teoria-do-conhecimento\/"}},"comments_number":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5306","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5306"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5306\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5310,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5306\/revisions\/5310"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5307"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5306"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5306"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5306"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}