{"id":5230,"date":"2025-11-25T19:22:50","date_gmt":"2025-11-25T22:22:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=5230"},"modified":"2025-11-25T19:25:09","modified_gmt":"2025-11-25T22:25:09","slug":"analysis-of-frankenstein-2025-from-the-perspective-of-transcendental-anthropology","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/analysis-of-frankenstein-2025-from-the-perspective-of-transcendental-anthropology\/2025\/","title":{"rendered":"An\u00e1lise de Frankenstein (2025) \u00e0 luz da Antropologia Transcendental"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Mauricio C. Serafim<\/em> | 20.11.2025<\/p>\n\n\n\n<p>O filme ilustra o conflito entre a produ\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e a dimens\u00e3o pessoal. A desgra\u00e7a da Criatura n\u00e3o reside em sua complei\u00e7\u00e3o monstruosa, mas na nega\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de manifestar plenamente seus transcendentais (coexist\u00eancia livre, conhecer pessoal, amar pessoal), fruto direto da incapacidade de seu criador em transpor o limite do pensamento objetivante.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreendermos a falha de Victor, devemos recorrer \u00e0 teoria do conhecimento de Leonardo Polo. O <em>limite mental<\/em> consiste no fato de que o nosso pensamento objetiva a realidade: paralisamos o fluxo do ser para possu\u00ed-lo como um objeto (<em>ob-jectum<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Victor Frankenstein \u00e9 o arqu\u00e9tipo do racionalismo que n\u00e3o sabe <em>abandonar o limite<\/em>. Ele atua como um ex\u00edmio t\u00e9cnico: manipula a natureza &#8211; carne, nervos, eletricidade &#8211; e domina a causalidade f\u00edsica. No entanto, ele confunde a <em>ideia<\/em> de vida com o <em>ato de viver<\/em>. Enquanto o pensamento objetiva e controla, a pessoa humana \u00e9 um ato de ser irrestrito e livre. Ao ver a Criatura despertar, Victor sofre um choque: depara-se com um <em>quem<\/em> (uma liberdade incontrol\u00e1vel) onde esperava um <em>qu\u00ea<\/em>. O seu horror \u00e9 metaf\u00edsico: fecha-se em seu limite mental, recusando-se a reconhecer que a pessoa da Criatura excede infinitamente a sua ideia projetada.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa clausura no limite mental impede Victor de exercer a <em>coexist\u00eancia<\/em>. Na abordagem de Polo, a pessoa \u00e9 constitutivamente &#8220;ser-com&#8221; (<em>cum alio<\/em>). A Criatura, embora <em>ab alio<\/em> (vinda de outro), tem negado o seu <em>cum alio<\/em> (estar com o outro). O monstro torna-se um \u00f3rf\u00e3o ontol\u00f3gico. Ele busca o olhar do pai para ser confirmado no ser, mas encontra apenas o olhar anal\u00edtico de um cientista que v\u00ea um erro. E quando percebe que nunca ter\u00e1 este olhar, suplica ao Victor que lhe fa\u00e7a uma companheira igual e ele, ou seja, sua r\u00e9plica &#8211; na linguagem de Polo &#8211; algu\u00e9m que o pudesse conhecer e coexistir. E quando este desejo \u00e9 negado, revolta-se contra seu criador afirmando: \u201cvoc\u00ea foi meu criador, mas agora serei seu mestre!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A ang\u00fastia da Criatura manifesta o conhecer pessoal (<em>intellectus ut actus<\/em>). Diferentemente do conhecimento de Victor, que busca dominar a natureza, o intelecto da Criatura busca a identidade. A pergunta que a move n\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnica (como fui feito?), mas radicalmente pessoal (quem sou eu?).<\/p>\n\n\n\n<p>Este drama \u00e9 agravado pelo fato de a Criatura n\u00e3o ter um nome. O nome pr\u00f3prio \u00e9 o reconhecimento da unicidade do <em>quem<\/em>. Simbolicamente, n\u00e3o ter nome \u00e9 n\u00e3o ter exist\u00eancia. Ele \u00e9 um inominado, um ser sem designa\u00e7\u00e3o, o que torna a sua busca por identidade um abismo: como alcan\u00e7ar a verdade sobre si mesmo, se lhe \u00e9 negado o pr\u00f3prio vocativo pelo qual se \u00e9 chamado \u00e0 exist\u00eancia? A aus\u00eancia do nome \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o m\u00e1xima da sua intimidade pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, h\u00e1 um aspecto que torna a trag\u00e9dia antropol\u00f3gica absoluta: <em>a incapacidade de morrer.<\/em> Victor, em seu af\u00e3 t\u00e9cnico, venceu a barreira biol\u00f3gica da morte, conferindo \u00e0 Criatura uma resist\u00eancia indestrut\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob a \u00f3tica da abordagem de Polo, isso \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o. A vida humana \u00e9 temporalidade orientada para um fim (destino). Ao retirar a possibilidade da morte f\u00edsica, Victor n\u00e3o conferiu imortalidade gloriosa, mas aprisionou a pessoa em uma <em>dura\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua sem sentido<\/em>. A morte, para o homem ferido, pode ser um tr\u00e2nsito ou um al\u00edvio. Para a Criatura, a vida tornou-se um c\u00e1rcere indestrut\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela \u00e9 obrigada a <em>ser<\/em> indefinidamente sem que ningu\u00e9m a queira <em>com<\/em> ele. \u00c9 a radicaliza\u00e7\u00e3o da solid\u00e3o no tempo. Se a pessoa \u00e9 <em>coexist\u00eancia<\/em>, ser imortal na solid\u00e3o \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o mais dolorosa poss\u00edvel: \u00e9 um ato de ser que persiste, mas que n\u00e3o pode realizar-se, pois n\u00e3o tem com quem compartilhar a sua eternidade for\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o transcendental do <em>Amar<\/em> revela-se na estrutura dual de <em>dar<\/em> e <em>aceitar<\/em>. Vemos a inoc\u00eancia inicial da Criatura, que oferece sua presen\u00e7a como um dom. Contudo, para que o amor se realize, o dom precisa ser aceito.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociedade, mimetizando o erro de Victor, prende-se \u00e0 apar\u00eancia e recusa essa doa\u00e7\u00e3o. O amor rejeitado adoece. H\u00e1, todavia, o epis\u00f3dio do encontro com o <em>idoso s\u00e1bio.<\/em> Neste momento, o limite mental \u00e9 transposto: o cego, n\u00e3o distra\u00eddo pela imagem, percebe a presen\u00e7a pessoal e <em>aceita<\/em> a companhia. Ali, experimenta-se a coexist\u00eancia: a monstruosidade desaparece quando h\u00e1 acolhida.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, a verdadeira resolu\u00e7\u00e3o do drama antropol\u00f3gico ocorre apenas nos minutos finais. A trag\u00e9dia da Criatura &#8211; um ser sem nome, condenado a uma dura\u00e7\u00e3o intermin\u00e1vel e destitu\u00eddo de filia\u00e7\u00e3o &#8211; parecia caminhar para um desfecho de solid\u00e3o absoluta. Contudo, a obra nos reserva uma reviravolta metaf\u00edsica nos seus instantes finais. O limite mental de Victor, que durante toda a trama objetivou a Criatura, finalmente se rompe. Ao sustentar o olhar de sua obra e pedir perd\u00e3o, o cientista realiza o ato <em>de reconhecimento pessoal<\/em> que tanto faltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob essa \u00f3tica,<em> Frankenstein<\/em> (2025) \u00e9 um alerta sobre os perigos de uma ci\u00eancia que n\u00e3o abandona o limite mental. Victor criou uma natureza indestrut\u00edvel, mas foi incapaz de acolher a pessoa, pois tentou reduzir o mist\u00e9rio da liberdade \u00e0 medida de seu entendimento t\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<p>A li\u00e7\u00e3o \u00e9 que a dignidade humana n\u00e3o se sustenta na perfei\u00e7\u00e3o da biologia, mas na aceita\u00e7\u00e3o do ato de ser. A Criatura possui o conhecer e o amar pessoais, mas obscurece porque o seu criador, prisioneiro de si mesmo, recusou-se a exercer a paternidade, que nada mais \u00e9 do que a forma mais alta de coexist\u00eancia. Por\u00e9m, ato final de contri\u00e7\u00e3o e reconhecimento altera a subst\u00e2ncia de toda a narrativa. A trag\u00e9dia do monstro sem nome e sem morte encontra, naquele instante de perd\u00e3o, o seu repouso. Ao olhar nos olhos e ser olhado de volta, a coexist\u00eancia \u00e9 inaugurada. Victor deixa de ser o fabricante para tornar-se, enfim, pai.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme nos ensina que a ci\u00eancia sem sabedoria produz solid\u00e3o, mas tamb\u00e9m que a pessoa humana \u00e9 irredut\u00edvel: ela clama pelo amor at\u00e9 o fim. E quando esse amor \u00e9 concedido &#8211; mesmo que num tardio pedido de perd\u00e3o &#8211; a dignidade \u00e9 restaurada e o abismo entre o <em>eu<\/em> e o <em>tu<\/em> \u00e9, finalmente, superado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"571\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-1-571x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5234\" srcset=\"https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-1-571x1024.png 571w, https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-1-167x300.png 167w, https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-1-768x1376.png 768w, https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-1-600x1075.png 600w, https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-1.png 847w\" sizes=\"auto, (max-width: 571px) 100vw, 571px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mauricio C. 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