{"id":5023,"date":"2024-12-13T15:05:40","date_gmt":"2024-12-13T18:05:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=5023"},"modified":"2024-12-19T08:35:17","modified_gmt":"2024-12-19T11:35:17","slug":"aristotles-virtue-ethics-and-kants-moral-duty-in-dialogue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/aristotles-virtue-ethics-and-kants-moral-duty-in-dialogue\/2024\/","title":{"rendered":"\u00a0A \u00c9tica das Virtudes de Arist\u00f3teles e o Dever Moral de Kant em Di\u00e1logo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>Texto escrito com colabora\u00e7\u00e3o de <strong>Renata Biana da Silva<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00e9tica \u00e9 um dos campos mais antigos da filosofia, envolvendo quest\u00f5es sobre o que \u00e9 moralmente certo ou errado, como devemos viver e o que constitui uma vida boa. Ao longo da hist\u00f3ria, diferentes sistemas \u00e9ticos surgiram para tentar responder a essas quest\u00f5es, sendo Arist\u00f3teles e Immanuel Kant dois grandes representantes dessa tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. A princ\u00edpio, suas \u00e9ticas parecem divergentes: a \u00e9tica de Arist\u00f3teles, teleol\u00f3gica, est\u00e1 focada na busca da eudaimonia (felicidade) atrav\u00e9s do desenvolvimento das virtudes; enquanto a \u00e9tica de Kant, deontol\u00f3gica, baseia-se no cumprimento do dever moral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, este ensaio prop\u00f5e que, apesar das diferen\u00e7as \u00f3bvias, a \u00e9tica kantiana pode ser compreendida como uma reformula\u00e7\u00e3o ou retomada de princ\u00edpios aristot\u00e9licos fundamentais. Atrav\u00e9s de uma an\u00e1lise comparativa de temas como o papel da raz\u00e3o, o conceito de fim \u00faltimo, a rela\u00e7\u00e3o entre virtude e dever, e a conex\u00e3o entre felicidade e moralidade, \u00e9 poss\u00edvel concluir que a \u00e9tica de Kant, em seu cerne, preserva e desenvolve aspectos centrais da \u00e9tica de Arist\u00f3teles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>I. A \u00c9tica Aristot\u00e9lica: Virtude e Eudaimonia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Arist\u00f3teles, em sua \u00c9tica a Nic\u00f4maco, prop\u00f5e que todas as a\u00e7\u00f5es humanas visam a algum bem. Ele come\u00e7a com a famosa afirma\u00e7\u00e3o de que \u201ctodo of\u00edcio e toda investiga\u00e7\u00e3o, bem como toda a\u00e7\u00e3o e escolha, parecem tender a algum bem\u201d (Arist\u00f3teles, 1998). O bem supremo, aquele que todos buscam por si mesmo, \u00e9 a eudaimonia, frequentemente traduzida como \u201cfelicidade\u201d ou \u201cflorescimento humano\u201d. A eudaimonia, para Arist\u00f3teles, \u00e9 o fim \u00faltimo da vida humana, e a maneira de alcan\u00e7\u00e1-la \u00e9 por meio da pr\u00e1tica das virtudes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As virtudes, para Arist\u00f3teles, s\u00e3o disposi\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter que nos permitem agir de acordo com a raz\u00e3o. Ele descreve as virtudes como um \u201cmeio-termo\u201d entre dois extremos: o da defici\u00eancia e o do excesso. Por exemplo, a coragem \u00e9 a virtude que se encontra entre a covardia (defici\u00eancia) e a temeridade (excesso). Essa ideia de virtude como um equil\u00edbrio ou modera\u00e7\u00e3o \u00e9 central para a \u00e9tica aristot\u00e9lica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro aspecto importante da \u00e9tica aristot\u00e9lica \u00e9 o papel da raz\u00e3o. Arist\u00f3teles argumenta que o ser humano \u00e9, por natureza, um ser racional, e que a vida boa para o homem \u00e9 aquela vivida de acordo com a raz\u00e3o. Ele afirma que \u201ca fun\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do homem consiste em uma atividade da alma que esteja de acordo com a raz\u00e3o\u201d (Arist\u00f3teles, 1998). Portanto, <strong>a virtude \u00e9 a excel\u00eancia da raz\u00e3o<\/strong>, e a vida virtuosa \u00e9 aquela em que a <strong>raz\u00e3o governa as a\u00e7\u00f5es e paix\u00f5es do indiv\u00edduo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa forma, Arist\u00f3teles v\u00ea a moralidade como parte integrante do que significa ser humano e viver bem. A felicidade (eudaimonia) \u00e9 alcan\u00e7ada atrav\u00e9s da pr\u00e1tica cont\u00ednua das virtudes, e essas virtudes, por sua vez, s\u00e3o determinadas pela raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>II. A \u00c9tica Kantiana: Dever e Imperativo Categ\u00f3rico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Immanuel Kant, a seu turno, desenvolve uma \u00e9tica que \u00e9 frequentemente descrita como deontol\u00f3gica \u2013 baseada no cumprimento do dever moral. Para Kant, o valor moral de uma a\u00e7\u00e3o n\u00e3o reside em seus resultados, mas na inten\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s dela. Ele afirma que a \u00fanica coisa que \u00e9 incondicionalmente boa \u00e9 a \u201cboa vontade\u201d, definida como a <strong>disposi\u00e7\u00e3o de agir de acordo com o dever moral<\/strong>. A famosa frase de Kant em sua Fundamenta\u00e7\u00e3o da Metaf\u00edsica dos Costumes expressa isso claramente: \u201cNada h\u00e1, em parte alguma do mundo, nem fora dele, que possa ser considerado como bom sem limita\u00e7\u00e3o, exceto uma boa vontade\u201d (Kant, 2003, p.16).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O princ\u00edpio fundamental da \u00e9tica kantiana \u00e9 o imperativo categ\u00f3rico, que ele formula de v\u00e1rias maneiras. A formula\u00e7\u00e3o mais conhecida \u00e9: \u201cAge apenas segundo uma m\u00e1xima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal\u201d (Kant, 2003, p. 30). O imperativo categ\u00f3rico pode ser entendido como uma lei moral universal que se aplica a todos os seres racionais, independentemente de suas inclina\u00e7\u00f5es ou desejos pessoais. Para Kant, <strong>agir moralmente \u00e9 agir de acordo com o dever, e o dever \u00e9 determinado pela raz\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como Arist\u00f3teles, Kant confere um papel central \u00e0 raz\u00e3o em sua teoria \u00e9tica. Para Kant, a raz\u00e3o transcende um mero meio para alcan\u00e7ar a felicidade, tornando-se a fonte das obriga\u00e7\u00f5es morais. A a\u00e7\u00e3o moral, para Kant, deve ser guiada pela raz\u00e3o pura, que nos revela o que devemos fazer, independentemente das consequ\u00eancias. Kant rejeita qualquer forma de \u00e9tica consequencialista, insistindo que o <strong>dever moral \u00e9 absoluto e incondicional.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>III. O Papel da Raz\u00e3o: Converg\u00eancias e Diferen\u00e7as<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao comparar os dois sistemas \u00e9ticos, um ponto de conex\u00e3o importante \u00e9 o papel da raz\u00e3o. Tanto para Arist\u00f3teles quanto para Kant, a raz\u00e3o \u00e9 a faculdade central que orienta a a\u00e7\u00e3o moral. Em Arist\u00f3teles, a raz\u00e3o pr\u00e1tica nos ajuda a discernir o \u201cjusto meio\u201d em cada situa\u00e7\u00e3o e a agir de acordo com as virtudes. Para Kant, a raz\u00e3o pr\u00e1tica nos permite formular e seguir o imperativo categ\u00f3rico, garantindo que nossas a\u00e7\u00f5es sejam moralmente corretas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora as concep\u00e7\u00f5es de raz\u00e3o pare\u00e7am diferentes \u2013 em Arist\u00f3teles, mais orientada para a particularidade e o contexto, enquanto em Kant, orientada para a universalidade e a formalidade \u2013 ambos os fil\u00f3sofos concordam que a moralidade est\u00e1 profundamente conectada \u00e0 capacidade racional humana. <strong>A a\u00e7\u00e3o moral, para ambos, \u00e9 aquela que est\u00e1 em conformidade com a raz\u00e3o.<\/strong> Enquanto, para Arist\u00f3teles, a raz\u00e3o nos guia em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 eudaimonia \u2013 por meio da pr\u00e1tica das virtudes; para Kant, a raz\u00e3o nos guia em dire\u00e7\u00e3o ao cumprimento do dever moral atrav\u00e9s do imperativo categ\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>IV. Virtude e Dever: Uma Rela\u00e7\u00e3o Dial\u00e9tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro ponto de conex\u00e3o \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre virtude e dever. Para Arist\u00f3teles, a virtude \u00e9 uma disposi\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter que nos leva a agir de acordo com a raz\u00e3o e, assim, a alcan\u00e7ar a felicidade. A pr\u00e1tica das virtudes \u00e9 um fim em si mesmo, uma vez que leva \u00e0 eudaimonia. J\u00e1 para Kant, <strong>a virtude \u00e9 a for\u00e7a moral de uma pessoa para cumprir seu dever. <\/strong>Ele descreve a virtude como uma \u201cdetermina\u00e7\u00e3o moral\u201d que nos permite seguir a lei moral apesar das tenta\u00e7\u00f5es e dificuldades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo assim, podemos argumentar que a boa vontade kantiana desempenha uma fun\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 da virtude aristot\u00e9lica. <strong>Ambos os conceitos se referem \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de agir de acordo com a raz\u00e3o e de buscar o bem moral<\/strong>. Para Arist\u00f3teles, a virtude \u00e9 o meio pelo qual alcan\u00e7amos a felicidade, e para Kant, a boa vontade \u00e9 o que torna uma a\u00e7\u00e3o moralmente boa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, ambos os fil\u00f3sofos concordam que a a\u00e7\u00e3o moral n\u00e3o deve ser motivada por interesses ego\u00edstas ou por desejos sens\u00edveis. Arist\u00f3teles, em sua teoria da virtude, argumenta que a a\u00e7\u00e3o virtuosa \u00e9 aquela que \u00e9 realizada pelo seu pr\u00f3prio valor, e n\u00e3o por causa de recompensas externas. Kant, por sua vez, argumenta que a moralidade exige que as a\u00e7\u00f5es sejam realizadas por dever, e n\u00e3o por inclina\u00e7\u00f5es pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>V. O Fim \u00daltimo: Eudaimonia e o Sumo Bem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tanto Arist\u00f3teles quanto Kant reconhecem a exist\u00eancia de um fim \u00faltimo ou bem supremo. Para Arist\u00f3teles, o fim \u00faltimo \u00e9 a eudaimonia, que ele define como o exerc\u00edcio da raz\u00e3o em conformidade com a virtude. A eudaimonia, enquanto estado de viver bem, \u00e9 alcan\u00e7ada atrav\u00e9s da pr\u00e1tica das virtudes ao longo da vida. Esse conceito, reitera-se, \u00e9 central para a \u00e9tica aristot\u00e9lica, pois toda a\u00e7\u00e3o moral \u00e9 orientada para a realiza\u00e7\u00e3o desse bem supremo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kant tamb\u00e9m postula a exist\u00eancia de um bem supremo desenvolvendo o conceito de uma forma mais complexa. Para ele, o bem supremo \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o de virtude e de felicidade. Em sua Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pr\u00e1tica, Kant argumenta que o bem supremo s\u00f3 pode ser realizado se a virtude for recompensada com a felicidade. Mesmo dando primazia \u00e0 virtude sobre a felicidade ao afirmar que a moralidade exige que busquemos a virtude, e a felicidade deve ser vista como uma consequ\u00eancia justa, mas n\u00e3o garantida, da virtude; Kant retoma a ideia de exerc\u00edcio da raz\u00e3o em conformidade com a virtude, no alcance da felicidade, de Arist\u00f3teles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua obra, Kant reconhece que <strong>n\u00e3o h\u00e1 garantia de que a virtude conduza \u00e0 felicidade no <u>mundo emp\u00edrico<\/u><\/strong>. Por isso, ele postula a necessidade da imortalidade da alma e a exist\u00eancia de Deus para garantir que a virtude seja recompensada com a felicidade. Nesse sentido, o bem supremo kantiano pode ser visto como uma evolu\u00e7\u00e3o do conceito aristot\u00e9lico de eudaimonia, inserido em uma estrutura metaf\u00edsica distinta, em que a realiza\u00e7\u00e3o completa da felicidade n\u00e3o \u00e9 garantida nesta vida, mas em um contexto transcendental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ambos os fil\u00f3sofos concordam que a raz\u00e3o e a virtude s\u00e3o fundamentais para a vida moral, e que a moralidade est\u00e1 diretamente conectada \u00e0 ideia de um fim \u00faltimo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>VI. Felicidade e Moralidade: Uma Conex\u00e3o Complexa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rela\u00e7\u00e3o entre felicidade e moralidade \u00e9 um dos temas mais fascinantes na compara\u00e7\u00e3o entre Arist\u00f3teles e Kant. Para Arist\u00f3teles, a felicidade (eudaimonia) \u00e9 o fim supremo da vida humana e s\u00f3 pode ser atingida por meio da virtude. A pr\u00e1tica da virtude n\u00e3o \u00e9 apenas um meio para alcan\u00e7ar a felicidade; a pr\u00f3pria vida virtuosa \u00e9 a vida feliz. A felicidade, portanto, \u00e9 intrinsecamente ligada \u00e0 moralidade, e a vida moralmente virtuosa \u00e9 a vida verdadeiramente feliz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kant, por sua vez, reinterpreta essa rela\u00e7\u00e3o de maneira significativa. Em sua teoria, a felicidade n\u00e3o pode ser o fundamento da moralidade. Para ele, agir moralmente \u00e9 cumprir o dever por respeito \u00e0 lei moral, e n\u00e3o com o objetivo de alcan\u00e7ar a felicidade. Kant acredita que a busca pela felicidade, <strong>como um desejo emp\u00edrico<\/strong>, est\u00e1 sujeita \u00e0 conting\u00eancia e n\u00e3o pode servir como uma base s\u00f3lida para a moralidade. Ele afirma: \u201cA moralidade n\u00e3o \u00e9 a doutrina de como devemos nos fazer felizes, mas de como devemos <strong>nos tornar dignos da felicidade<\/strong>\u201d (Kant, 2003, p. 98).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, Kant reconhece que existe uma conex\u00e3o entre virtude e felicidade, embora seja uma conex\u00e3o indireta. Ele argumenta que, se seguirmos o dever moral, devemos esperar que a virtude seja recompensada com felicidade, <strong>mesmo que essa recompensa n\u00e3o seja garantida nesta vida<\/strong>. A ideia de que a virtude merece felicidade est\u00e1 presente na no\u00e7\u00e3o do \u201cbem supremo\u201d em Kant, em que a felicidade deve ser proporcionada \u00e0 virtude, mas essa proporcionalidade s\u00f3 pode ser garantida pela interven\u00e7\u00e3o divina. Assim, enquanto a felicidade n\u00e3o pode ser o objetivo direto da moralidade, ela ainda desempenha um papel importante na estrutura kantiana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos ver uma continuidade entre as \u00e9ticas de Arist\u00f3teles e Kant nessa quest\u00e3o, pois ambos concordam que a virtude \u00e9 essencial para a vida moral e que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre virtude e felicidade. No entanto, Kant modifica essa rela\u00e7\u00e3o, argumentando que a felicidade n\u00e3o \u00e9 um objetivo a ser buscado diretamente, mas uma recompensa justa para a virtude. Arist\u00f3teles v\u00ea a felicidade como insepar\u00e1vel da virtude e da vida moral. Para ele, ser virtuoso \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, ser feliz. Para Kant, em suma, ser virtuoso torna o indiv\u00edduo digno de felicidade, mesmo que para a realiza\u00e7\u00e3o da felicidade seja necess\u00e1rio transcender a mera experi\u00eancia emp\u00edrica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>VII. Kant como uma Retomada da \u00c9tica Aristot\u00e9lica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com base nas discuss\u00f5es anteriores, podemos concluir que a \u00e9tica kantiana pode ser vista como uma retomada dial\u00e9tica da \u00e9tica aristot\u00e9lica. Embora Kant rejeite a ideia de que a felicidade pode ser o fundamento da moralidade, ele preserva muitos dos elementos centrais da \u00e9tica de Arist\u00f3teles, como o papel da raz\u00e3o, a import\u00e2ncia da virtude e a conex\u00e3o entre moralidade e um fim \u00faltimo. Kant reformula esses conceitos para adapt\u00e1-los a seu pr\u00f3prio projeto filos\u00f3fico, focando no dever moral e na raz\u00e3o pura como os guias centrais da a\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao reorientar a \u00e9tica em torno do conceito de dever e do imperativo categ\u00f3rico, Kant oferece uma solu\u00e7\u00e3o para o problema da conting\u00eancia e da subjetividade das no\u00e7\u00f5es de felicidade. No entanto, ele ainda mant\u00e9m uma vis\u00e3o teleol\u00f3gica impl\u00edcita, ao propor o bem supremo como o objetivo \u00faltimo da moralidade, no qual a virtude e a felicidade s\u00e3o reconciliadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, apesar de sutis diferen\u00e7as, podemos ver Kant como algu\u00e9m que revisita e expande a \u00e9tica de Arist\u00f3teles, ajustando-a para as exig\u00eancias filos\u00f3ficas de seu tempo. Kant incorpora a \u00eanfase aristot\u00e9lica na raz\u00e3o e na virtude, mas d\u00e1 a esses conceitos uma nova orienta\u00e7\u00e3o, colocando o dever moral e a lei universal como os elementos centrais de sua \u00e9tica. Dessa forma, defende-se que a \u00e9tica kantiana n\u00e3o deve ser vista como uma rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9tica aristot\u00e9lica, mas como uma continuidade dial\u00e9tica, na qual os <strong>mesmos<\/strong> princ\u00edpios s\u00e3o reinterpretados \u00e0 luz das <strong>novas <\/strong>quest\u00f5es filos\u00f3ficas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REFER\u00caNCIAS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ARIST\u00d3TELES. \u00c9tica a Nic\u00f4maco. Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio de Castro Caeiro. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1998.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KANT, Immanuel. Fundamenta\u00e7\u00e3o da Metaf\u00edsica dos Costumes. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo Quintela. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KANT, Immanuel. Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pr\u00e1tica. Tradu\u00e7\u00e3o de Val\u00e9rio Rohden e Guido Ant\u00f4nio de Almeida. S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto escrito com colabora\u00e7\u00e3o de Renata Biana da Silva A \u00e9tica \u00e9 um dos campos mais antigos da filosofia, envolvendo quest\u00f5es sobre o que \u00e9 moralmente certo ou errado, como devemos viver e o que constitui uma vida boa. Ao longo da hist\u00f3ria, diferentes sistemas \u00e9ticos surgiram para tentar responder a essas quest\u00f5es, sendo Arist\u00f3teles [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":41,"featured_media":5025,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[152,50,527],"class_list":["post-5023","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-articles","tag-aristoteles","tag-etica","tag-kant"],"translation":{"provider":"WPGlobus","version":"3.0.2","language":"br","enabled_languages":["en","br"],"languages":{"en":{"title":true,"content":true,"excerpt":false},"br":{"title":true,"content":true,"excerpt":false}}},"blog_post_layout_featured_media_urls":{"thumbnail":["https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Captura-de-tela-2024-12-13-150421-150x150.png",150,150,true],"full":["https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Captura-de-tela-2024-12-13-150421.png",1336,872,false]},"categories_names":{"3":{"name":"Articles","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/category\/articles\/"}},"tags_names":{"152":{"name":"Arist\u00f3teles","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/tag\/aristoteles\/"},"50":{"name":"\u00e9tica","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/tag\/etica\/"},"527":{"name":"Kant","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/tag\/kant\/"}},"comments_number":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5023","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/41"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5023"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5023\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5034,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5023\/revisions\/5034"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5025"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5023"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5023"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5023"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}