{"id":4872,"date":"2024-09-27T09:06:49","date_gmt":"2024-09-27T12:06:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=4872"},"modified":"2024-11-20T16:36:12","modified_gmt":"2024-11-20T19:36:12","slug":"the-complex-relationship-between-ethics-and-economics-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/the-complex-relationship-between-ethics-and-economics-2\/2024\/","title":{"rendered":"A Rela\u00e7\u00e3o Complexa entre \u00c9tica e Economia"},"content":{"rendered":"\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na d\u00e9cada de 80, o autor norte-americano Kenneth Lux publicou um livro de t\u00edtulo t\u00e3o instigante quanto errado: \u201cO Erro de Adam Smith: Como um Fil\u00f3sofo Moral Inventou a Economia e P\u00f4s Fim \u00e0 Moralidade\u201d (<em>Adam Smith\u2019s Mistake: How A Moral Philosopher Invented Economics and Ended Morality<\/em>). O erro de Kenneth Lux era duplo, pois nem Adam Smith inventou a Economia como ci\u00eancia aut\u00f4noma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Filosofia, nem ele p\u00f4s fim \u00e0 moralidade: o que ele sugeriu \u00e9 que agir conforme o interesse pessoal poderia ser uma forma de produzir o bem para a sociedade. H\u00e1 que se admitir, entretanto, que usar Smith foi um tiro no alvo, pois durante d\u00e9cadas se discutiu como poderia ter sido a mesma pessoa a escrever \u201cTeoria dos Sentimentos Morais\u201d e \u201cInvestiga\u00e7\u00e3o sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Na\u00e7\u00f5es\u201d; bastava ter lido com aten\u00e7\u00e3o o primeiro livro para se perceber que n\u00e3o havia paradoxo em rela\u00e7\u00e3o ao segundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Smith pode n\u00e3o ter inventado a ci\u00eancia econ\u00f4mica, mas foi o grande respons\u00e1vel pela sua populariza\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XVIII. E a mensagem de seu livro girava em torno de um problema simultaneamente econ\u00f4mico, social, pol\u00edtico e moral: como pode uma na\u00e7\u00e3o gerar riqueza? Ao longo de quase 250 anos (sem desprezar o fato de que o mesmo problema preocupou a maioria dos autores anteriores a Adam Smith), m\u00faltiplas respostas foram dadas a essa pergunta, enfatizando diferentes elementos como respons\u00e1veis pela gera\u00e7\u00e3o de riquezas, respostas estas que conquistaram adeptos ao mesmo tempo que produziram cr\u00edticos. Produzir um sum\u00e1rio dessas contribui\u00e7\u00f5es \u00e9 quase imposs\u00edvel, por isso deseja-se enfatizar dois aspectos neste pequeno texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em primeiro lugar, entende-se por riqueza a mesma concep\u00e7\u00e3o adotada na Escola Austr\u00edaca de Economia, qual seja, o conjunto das coisas que s\u00e3o \u00fateis \u00e0s pessoas no sentido de satisfazerem suas necessidades. Ou seja, riquezas n\u00e3o s\u00e3o algo objetivo, e sim uma caracter\u00edstica que as pessoas conferem \u00e0s coisas. O segundo aspecto que se deve esclarecer \u00e9 que desenvolvimento \u00e9 um fen\u00f4meno qualitativo e quantitativo, enquanto o crescimento das riquezas \u00e9 puramente quantitativo. O desenvolvimento envolve crescimento das riquezas, mas sobretudo se caracteriza por uma diferen\u00e7a qualitativa: as necessidades b\u00e1sicas da vida foram supridas para a maioria das pessoas na sociedade, e bens e servi\u00e7os que contribuem para ampliar o bem-estar est\u00e3o sendo disponibilizados para parcelas maiores da popula\u00e7\u00e3o. Ademais, as pessoas percebem melhorias em seu bem-estar, ou seja, vivem melhor, percebem qualidade de vida superior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se o desenvolvimento \u00e9 um fen\u00f4meno qualitativo em vez de puramente quantitativo, valores humanos precisam ser incorporados na sua an\u00e1lise e defini\u00e7\u00e3o, e isso significa que a intersec\u00e7\u00e3o entre a economia e a \u00e9tica se materializa, entre outros dom\u00ednios da ci\u00eancia econ\u00f4mica, nos estudos do desenvolvimento. E essa conex\u00e3o tem sido apontada por um n\u00famero significativo de cientistas sociais, n\u00e3o somente economistas. Sem pretens\u00e3o de esgotar essa discuss\u00e3o, deseja-se apontar alguns autores que desenvolveram an\u00e1lises interessantes que refletem essa rela\u00e7\u00e3o, mesmo quando ela n\u00e3o \u00e9 apontada diretamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por exemplo, pode-se citar o economista caribenho W. Arthur Lewis (1915-90), laureado com o Nobel em 1979, para quem as na\u00e7\u00f5es pobres se caracterizam por economias baseadas na agricultura e por uma oferta quase infinita de trabalhadores pouco preparados. Assim, para Lewis, o desenvolvimento econ\u00f4mico deve come\u00e7ar com ind\u00fastrias mais simples, que beneficiem produtos agr\u00edcolas e empreguem grande n\u00famero de trabalhadores, enquanto se faz amplo investimento em educa\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, o que, em sua vis\u00e3o, elevaria a renda per capita e prepararia as pessoas para empreendimentos mais intensivos em capital e tecnologia. A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9tica de Lewis era clara: n\u00e3o h\u00e1 desenvolvimento econ\u00f4mico se uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se beneficiar dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Num ponto de vista completamente diferente, o austr\u00edaco Friedrich Hayek (1899-1992), que recebeu o Nobel em 1974, advogava que o desenvolvimento econ\u00f4mico demandava o m\u00ednimo poss\u00edvel de Estado e o m\u00e1ximo de liberdade individual de empreender. Sua preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9tica residia em defender o interesse pessoal como um promotor de bem-estar social, entendendo que este \u00faltimo conceito seria a agrega\u00e7\u00e3o dos bens individuais, e em procurar demonstrar que os valores morais de uma sociedade de mercado s\u00e3o a base para uma \u00e9tica que promove o desenvolvimento econ\u00f4mico, valores esses totalmente incompat\u00edveis com os que vigoram em uma sociedade planejada centralmente. E sem uma \u00e9tica, uma sociedade n\u00e3o se desenvolve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por fim, destaca-se o indiano Amartya Sen (1933), outro economista premiado com o Nobel (1998), para quem problemas econ\u00f4micos como a pobreza s\u00f3 fazem sentidos se estudados por meio de uma an\u00e1lise que incorpore a \u00e9tica. Para Sen, o desenvolvimento envolve obrigatoriamente o florescimento humano, na medida em que incorpore as capacidades das pessoas. \u00c9 preciso ampliar a educa\u00e7\u00e3o das pessoas, promovendo o desenvolvimento de suas capacidades e preparando-as para exercer a liberdade em suas vidas. A felicidade, observa Sen, exige que as pessoas possam aplicar seu potencial em seus projetos, satisfazendo suas necessidades b\u00e1sicas e progressivamente buscando bens mais elevados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embora distintas, as abordagens de Sen e Hayek s\u00e3o compat\u00edveis com uma \u00e9tica que privilegia as responsabilidades individuais, como a \u00e9tica das virtudes. Em ambos os casos, a \u00e9tica \u00e9 essencial para que a a\u00e7\u00e3o humana produza os resultados desej\u00e1veis em termos de felicidade e bem-estar. Em Lewis, por outro lado, a \u00e9tica parece ser mais consequencialista, na medida em que os esfor\u00e7os de desenvolvimento devem produzir um resultado no estilo do maior bem poss\u00edvel para o maior n\u00famero (ainda que, em alguns trechos de sua obra, seja poss\u00edvel encontrar alus\u00f5es \u00e0s a\u00e7\u00f5es individuais). Num ponto os tr\u00eas autores concordam: o desenvolvimento humano est\u00e1 associado \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da felicidade numa sociedade. Como a \u00e9tica \u00e9 a reflex\u00e3o sobre o que \u00e9 viver bem, n\u00e3o \u00e9 exagero afirmar que esses autores concordariam que, sem valores morais, o desenvolvimento \u00e9 vazio de significado.<\/p>\n\n\n<p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na d\u00e9cada de 80, o autor norte-americano Kenneth Lux publicou um livro de t\u00edtulo t\u00e3o instigante quanto errado: \u201cO Erro de Adam Smith: Como um Fil\u00f3sofo Moral Inventou a Economia e P\u00f4s Fim \u00e0 Moralidade\u201d (Adam Smith\u2019s Mistake: How A Moral Philosopher Invented Economics and Ended Morality). 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