{"id":4617,"date":"2024-05-16T17:33:01","date_gmt":"2024-05-16T20:33:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=4617"},"modified":"2024-05-16T18:27:27","modified_gmt":"2024-05-16T21:27:27","slug":"once-again-virtue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/once-again-virtue\/2024\/","title":{"rendered":"Mais uma vez, a virtude"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse pequeno texto busca-se trazer ao conhecimento um aspecto definido pelo fil\u00f3sofo escoc\u00eas Alasdair MacIntyre em sua \u00e9tica: como agentes morais, n\u00f3s, seres humanos, somos animais racionais e dependentes. No livro Dependent Rational Animals, publicado em 1999, MacIntyre procura sustentar seu ponto de vista de que as virtudes s\u00e3o essenciais para a vida humana, e para isso prop\u00f5e que os seres humanos s\u00e3o criaturas vulner\u00e1veis e dependentes, que devem sua exist\u00eancia, sobreviv\u00eancia e desenvolvimento (flourishing) aos outros. Para provar essa proposi\u00e7\u00e3o, MacIntyre tra\u00e7a paralelos entre os seres humanos e os animais de grande intelig\u00eancia, como os golfinhos e os chimpanz\u00e9s, defende que seja reconhecido como moralmente importante a vulnerabilidade humana e a depend\u00eancia que cada um tem dos outros, e a necessidade de uma concep\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais e do bem comum que sustente virtudes de independ\u00eancia racional (virtues of rational independence) e de reconhecida depend\u00eancia (virtues of acknowledged dependence).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De particular interesse, aqui, \u00e9 a ideia de que o desenvolvimento (flourishing) demanda as outras pessoas. Essa no\u00e7\u00e3o \u00e9 associada pelo autor ao bem (good), que \u00e9 descrito no livro em tr\u00eas n\u00edveis: primeiro, existem coisas que podem ser vistas como meios para um fim (habilidades, oportunidades, capacidades que permitem que algu\u00e9m alcance um bem); em segundo lugar, o bem como um fim em si, definido como algo interno a certas pr\u00e1ticas que algu\u00e9m pode engajar-se socialmente. Por fim, o bem atribu\u00eddo aos julgamentos de como um indiv\u00edduo ou comunidade podem ordenar os bens de suas vidas \u2013 o bem que se associa ao florescimento humano em si. Esses julgamentos devem ser articulados racionalmente, e por serem pr\u00e1ticos, permitem que a pessoa se torne um \u201cracional pr\u00e1tico\u201d (practical reasoner).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa pessoa, esse practical reasoner, \u00e9 algu\u00e9m que j\u00e1 superou a depend\u00eancia associada \u00e0 crian\u00e7a em uma rela\u00e7\u00e3o familiar ou de guarda (child-parent\/child-guardian relationships), e \u00e9 capaz de avaliar e modificar seus ju\u00edzos diante da raz\u00e3o, o que lhe permite escolher razoavelmente entre alternativas. A pessoa deve ter a capacidade de compreender o que \u00e9 o bem, o que \u00e9 preciso para atingi-lo, mas tamb\u00e9m precisa de um senso de independ\u00eancia, algo que na inf\u00e2ncia \u00e9 praticamente imposs\u00edvel. Al\u00e9m disso, a pessoa deve ser capaz de deixar de lado seus desejos imediatos e buscar fins de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dito isso, a capacidade de buscar o bem pareceria estar subscrita apenas ao indiv\u00edduo, o que conflitaria com o pensamento de um fil\u00f3sofo t\u00e3o interessado na comunidade e nas suas tradi\u00e7\u00f5es como MacIntyre. Mas esse conflito n\u00e3o existe; MacIntyre deixa claro que o racional pr\u00e1tico independente (independente practical reasoner) \u00e9 algu\u00e9m que reconhece sua depend\u00eancia dos demais. E isso, para MacIntyre, demanda as virtudes morais e intelectuais. \u00c0 medida em que a crian\u00e7a cresce, mais e mais relacionamentos sociais s\u00e3o estabelecidos, e esses relacionamentos s\u00e3o essenciais para que o racioc\u00ednio pr\u00e1tico seja poss\u00edvel, e esses relacionamentos demandam a virtude.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro de uma comunidade, cada pessoa se engaja em relacionamentos em que tanto d\u00e3o algo a outras pessoas quanto recebem delas em particular ou de outras. Esse dar (giving) \u00e9 n\u00e3o-calculado: o agente virtuoso n\u00e3o est\u00e1 preocupado em reciprocidade ou em assimetria, o que ele d\u00e1 aos outros \u00e9 algo que sua raz\u00e3o lhe indicou que deveria ser dado. Em outras palavras, n\u00e3o \u00e9 uma troca de mercado que envolve um valor equivalente. O bem individual exige um racioc\u00ednio pr\u00e1tico, o bem comum, um racioc\u00ednio pol\u00edtico: de \u201cquais bens desempenham alguma coisa em minha vida\u201d se passa para a ideia de \u201cque papel esses bens podem desempenhar na vida da comunidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito mais poderia ser dito aqui, mas os limites de espa\u00e7o impedem maior tratamento da complexa formula\u00e7\u00e3o de MacIntyre em Dependent Rational Animals. Como conclus\u00e3o, gostaria de destacar o fato de que o indiv\u00edduo \u00e9 quem exerce a virtude, mas tal exerc\u00edcio s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel em relacionamento com outros indiv\u00edduos. O bem individual exige considerar tamb\u00e9m o bem que pode ser produzido com a a\u00e7\u00e3o para uma comunidade, e somente aqueles que conseguem raciocinar de maneira independente, isto \u00e9, conforme uma reflex\u00e3o sobre o bem individual consciente da depend\u00eancia que cada um tem dos demais seres humanos, podem ao mesmo tempo atingir esse bem para si e o bem para sua comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MacIntyre nunca escondeu seu desprezo para com o liberalismo pol\u00edtico cl\u00e1ssico, a quem acusa de corroer os valores da comunidade e substitu\u00ed-los pelos dos indiv\u00edduos. Mas, em Dependent Rational Animals a comunidade humana \u00e9 vista como um ajuntamento de seres humanos independentes, ainda que reconhe\u00e7am sua depend\u00eancia uns dos outros. Isso n\u00e3o o torna um liberal, mas ao menos reduz seu vi\u00e9s contra o individualismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesse pequeno texto busca-se trazer ao conhecimento um aspecto definido pelo fil\u00f3sofo escoc\u00eas Alasdair MacIntyre em sua \u00e9tica: como agentes morais, n\u00f3s, seres humanos, somos animais racionais e dependentes. 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