{"id":4562,"date":"2024-04-19T18:25:16","date_gmt":"2024-04-19T21:25:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=4562"},"modified":"2024-04-22T14:29:11","modified_gmt":"2024-04-22T17:29:11","slug":"crime-sacrifice-and-redemption","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/crime-sacrifice-and-redemption\/2024\/","title":{"rendered":"Crime, Sacrif\u00edcio e Reden\u00e7\u00e3o\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p>A literatura de qualidade \u00e9 grande aliada na compreens\u00e3o dos dilemas humanos, pois torna poss\u00edvel a reflex\u00e3o a respeito de temas variados, sob enfoque de personagens com diferentes caracter\u00edsticas. As obras \u201cOs Miser\u00e1veis\u201d e \u201cCrime e Castigo\u201d t\u00eam em comum a rela\u00e7\u00e3o dos protagonistas, Jean Valjean e Rask\u00f3lnikov, com o crime e com a reden\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Seria demais pretensioso buscar catalogar personagens ou esgotar a an\u00e1lise de livros t\u00e3o importantes e densos. Em obras de tal magnitude, cada personagem possui dilemas pr\u00f3prios, complexidades insan\u00e1veis, e, a cada releitura, o leitor surpreende-se com nuan\u00e7as antes n\u00e3o notadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tive contato com as referidas obras, em mais de uma oportunidade, em \u00e9pocas muito diferentes de minha vida. Deixo claro que a abordagem que pretendo realizar refere-se ao que mais me marcou e ao que est\u00e1 relacionado com minha \u00e1rea de interesse: o crime; a decis\u00e3o sobre cometer o crime e a reden\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o delito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Caso voc\u00ea, leitor, ainda n\u00e3o tenha lido os livros citados, tentarei trazer os principais elementos de compreens\u00e3o dos enredos, com cuidado para n\u00e3o o fazer perder o interesse em buscar, no futuro, a leitura do original. Caso j\u00e1 tenha lido uma ou as duas obras, ser\u00e1 a oportunidade para relembrar alguns dos personagens e comparar as percep\u00e7\u00f5es que dos livros tivemos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As duas obras s\u00e3o contempor\u00e2neas (1862 \u2013 \u201cOs Miser\u00e1veis\u201d; e 1866 \u2013 \u201cCrime e Castigo\u201d). A russa (\u201cCrime e Castigo\u201d \u2013 Dostoi\u00e9vski) tem como protagonista um jovem estudante de Direito da cidade de S\u00e3o Petersburgo \u2013 Rask\u00f3lnikov. O jovem (caracter\u00edstica pela qual o autor costuma nomin\u00e1-lo), apesar de n\u00e3o ser de fam\u00edlia rica, conta com o sacrif\u00edcio e o empenho de sua m\u00e3e e de sua irm\u00e3 para manuten\u00e7\u00e3o de seus estudos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O personagem \u00e9 amb\u00edguo, rejeita defini\u00e7\u00f5es simplistas. Se, por um lado, \u00e9 pregui\u00e7oso, pois, por diversas vezes, narra-se que ele se levanta, ap\u00f3s 10h da manh\u00e3, al\u00e9m de n\u00e3o se preocupar em trabalhar, por conta dos estudos, para aliviar as despesas que a m\u00e3e tem consigo; por outro, demonstra caridade ao n\u00e3o hesitar em ajudar no funeral de um mero conhecido, o \u00e9brio Marmelad\u00f3v. Foi a ajuda, no referido funeral, inclusive, que aproximou Rask\u00f3lnikov de S\u00f4nia (filha do defunto), personagem que tem papel fundamental na trama (como veremos adiante).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A reflex\u00e3o de Rask\u00f3lnikov sobre a justificativa para o cometimento de um crime \u00e9 um dos pontos mais interessantes do livro, se n\u00e3o o central. O jovem elabora a teoria de que os homens estariam divididos entre ordin\u00e1rios e extraordin\u00e1rios. Os primeiros deveriam cumprir regularmente todas as regras que lhes s\u00e3o impostas, j\u00e1 os extraordin\u00e1rios n\u00e3o seriam limitados por qualquer norma, pois seriam portadores de des\u00edgnios superiores, uma esp\u00e9cie de emiss\u00e1rios do bem e da virtude para a humanidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, sua teoria, basicamente, estabelece que os fins superiores conhecidos somente pelos seres classificados como extraordin\u00e1rios autorizariam a pr\u00e1tica de qualquer meio para sua concre\u00e7\u00e3o, desde que esse meio, embora criminoso, objetive o fim inicialmente almejado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eis um trecho que resume a teoria:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-small-font-size\">Todas as pessoas s\u00e3o classificadas como \u201cordin\u00e1rias\u201d e \u201cextraordin\u00e1rias\u201d. As pessoas ordin\u00e1rias devem obedecer \u00e0 lei e n\u00e3o t\u00eam o direito de infringi-la, exatamente por serem ordin\u00e1rias. E as pessoas extraordin\u00e1rias t\u00eam o direito de perpetrar quaisquer crimes e de infringir a lei de toda maneira, pelo pr\u00f3prio fato de serem extraordin\u00e1rias<em> <\/em>(Dostoi\u00e9vski, 2013, p. 296).\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como ele pr\u00f3prio, Rask\u00f3lnikov, n\u00e3o tinha certeza de a que classe de pessoas pertencia, resolve p\u00f4r \u00e0 prova sua <em>extraordinariedade<\/em>. Ent\u00e3o, munido de sua teoria e da esperan\u00e7a em ser extraordin\u00e1rio, como foi um Napole\u00e3o Bonaparte, assassina uma velha agiota que habitualmente lhe emprestava dinheiro. No momento do crime, a irm\u00e3 da idosa aparece em cena, e \u00e9 assassinada pelo jovem da mesma maneira \u2013 com golpes de machado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Todo o conflito psicol\u00f3gico vivido pelo protagonista, ap\u00f3s o delito, \u00e9 traduzido por Dostoi\u00e9vski de forma primordial. O receio de n\u00e3o ser extraordin\u00e1rio para mudar os rumos da humanidade atormenta-o. O personagem v\u00ea-se prisioneiro dos pr\u00f3prios pensamentos, com medo, diante da possibilidade de ser descoberto, a qualquer momento, al\u00e9m da d\u00favida entre permanecer em sil\u00eancio ou entregar-se \u00e0s autoridades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0s suas ang\u00fastias, intensifica a rela\u00e7\u00e3o com S\u00f4nia \u2013 pobre mo\u00e7a que conhece quando ajudou gratuita e inexplicavelmente sua fam\u00edlia com as despesas do vel\u00f3rio do patriarca, o b\u00eabado Marmelad\u00f3v.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f4nia \u00e9 o tipo de mo\u00e7a que mant\u00e9m a pureza, apesar de estar na sarjeta \u2013 precisa trabalhar como prostituta para sustentar a si e a fam\u00edlia. Provoca em Rask\u00f3lnikov profundas reflex\u00f5es sobre a vida ap\u00f3s a morte e sobre a cren\u00e7a em Deus, fazendo-o refletir, de modo especial, sobre o milagre da ressurrei\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro, operado pelo pr\u00f3prio Senhor Jesus Cristo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f4nia apaixona-se por Rask\u00f3lnikov e convence-o a entregar-se \u00e0 pol\u00edcia. Ap\u00f3s seguir os conselhos da mo\u00e7a, Rask\u00f3lnikov \u00e9 preso e enviado para um campo de trabalhos for\u00e7ados na Sib\u00e9ria. S\u00f4nia acompanha-o, prov\u00ea-o de amparo material e espiritual.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O sacrif\u00edcio de S\u00f4nia toca a Rask\u00f3lnikov e salva-o. N\u00e3o se pode dizer que o jovem nunca houvera recebido amor em forma de dedica\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e integral, pois sua m\u00e3e e sua irm\u00e3 cumpriam esse papel antes de S\u00f4nia entrar em sua vida. No entanto, o Sacrif\u00edcio de S\u00f4nia foi mais efetivo, pois veio acompanhando de apelo \u00e0 regenera\u00e7\u00e3o espiritual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A inspira\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 da reden\u00e7\u00e3o de Rask\u00f3lnikov fica evidente ao final do romance. O personagem passa por uma doen\u00e7a que o leva a ser internado em um hospital, onde passou \u201ctodo final da Quaresma e a Semana Santa\u201d (Dostoi\u00e9vski, 2013, p. 585). Foi ao fim desse per\u00edodo que&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-small-font-size\">A dial\u00e9tica cedera lugar \u00e0 vida, e doravante sua consci\u00eancia teria de seguir um rumo bem diferente. Havia um Evangelho debaixo do seu travesseiro. Rask\u00f3lnikov o pegou maquinalmente. O livro pertencia a S\u00f4nia, era aquele mesmo livro no qual S\u00f4nia lera para ele a hist\u00f3ria ressurei\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro (Dostoi\u00e9vski, 2013, p. 588).&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ao fim da obra, em suas \u00faltimas linhas, o autor deixa em aberto o futuro do personagem, j\u00e1 regenerado e redimido:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-small-font-size\">Mas a\u00ed come\u00e7a outra hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria da gradual renova\u00e7\u00e3o de um homem, a de sua gradual convers\u00e3o, de sua lenta passagem de um mundo para o outro, a hist\u00f3ria de como ele conhecer\u00e1 uma nova realidade, antes completamente ignota. Isso poderia constituir o tema de outra narra\u00e7\u00e3o, mas o nosso relato presente est\u00e1 terminado (Dostoi\u00e9vski, 2013, p. 589).&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Inexplorado, portanto, ficou o futuro do criminoso redimido pelo sacrif\u00edcio alheio. Quantas maravilhas poderia realizar? Replicaria o sacrif\u00edcio em benef\u00edcios de outros? Viveria eternamente devotado \u00e0 S\u00f4nia? \u00c0 M\u00e3e? \u00c0 irm\u00e3? Todas essas possibilidades o autor deixou \u00e0 livre imagina\u00e7\u00e3o do leitor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Poder-se-ia dizer que Victor Hugo, n\u00e3o houvesse escrito seu romance alguns anos antes, partira exatamente do final aberto de \u201cCrime e Castigo\u201d para descrever a for\u00e7a redentora do sacrif\u00edcio e de seu potencial inspirador na reden\u00e7\u00e3o de quem se devotou ao crime.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Jean Valjean, protagonista da obra francesa, \u00e9 um miser\u00e1vel, preso, por furtar p\u00e3o, para saciar a fome de sua sobrinha, e, por esse motivo, condenado a trabalhos for\u00e7ados nas gal\u00e9s. Sua pena \u00e9 estendida diversas vezes por tentativas de fuga. Ap\u00f3s 19 anos de cumprimento de pena, obt\u00e9m liberdade condicional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fora do campo de trabalho for\u00e7ado, sua vida n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. A ficha de identifica\u00e7\u00e3o pessoal que o remete \u00e0 liberdade condicional fecha-lhe as portas para qualquer rela\u00e7\u00e3o l\u00edcita que tente travar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A vida de Jean Valjean, entretanto, ganha novo significado ao encontrar um Bispo cat\u00f3lico que aceitou receb\u00ea-lo em sua casa, partilhando com ele sua refei\u00e7\u00e3o e seus aposentos. A caridade praticada, entretanto, n\u00e3o foi suficiente para a reden\u00e7\u00e3o imediata do protagonista, que, aproveitando-se da situa\u00e7\u00e3o de hospitalidade, saiu,&nbsp; no meio da noite, subtraindo alguns objetos de valor do bispo (c\u00e1lices e casti\u00e7ais).&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o furto, ao ser surpreendido, em sua fuga sorrateira, agrediu a v\u00edtima (o Bispo), que havia acabado de acordar. Perseguido pela pol\u00edcia, foi trazido \u00e0 presen\u00e7a do Bispo para a devolu\u00e7\u00e3o dos bens.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi, ent\u00e3o, que ocorreu o fato que marca a hist\u00f3ria da trama, que s\u00f3 vai ser inteiramente explicada em suas p\u00e1ginas finais. O Bispo, ao receber o criminoso, afirmou aos policiais que havia doado os bens e que Jean houvera esquecido outros, os quais foram entregues de prontid\u00e3o ao criminoso nos bra\u00e7os da pol\u00edcia. Jean, obviamente, n\u00e3o compreendeu a atitude da v\u00edtima.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao despedir-se do h\u00f3spede que lhe traiu a confian\u00e7a, o Bispo proferiu as seguintes palavras: \u201cJean Valjean, meu irm\u00e3o, lembre-se de que j\u00e1 n\u00e3o pertence ao mal, mas sim ao bem. \u00c9 sua alma que acabo de comprar; furto-a aos maus pensamentos e ao esp\u00edrito de perdi\u00e7\u00e3o para entreg\u00e1-la a Deus\u201d (Hugo, 2014, p. 145). Jean, que n\u00e3o era religioso, a partir de ent\u00e3o, passa a refletir sobre o destino de sua alma e sobre o seu comportamento. Talvez tenha sido a primeira vez em sua vida que tenha refletido sobre valores morais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De posse dos valiosos bens recebidos do bispo, muda-se de cidade e de nome e passa a explorar rent\u00e1vel atividade econ\u00f4mica. Por meio da criatividade e de trabalho duro, trouxe riqueza \u00e0 pequena cidade em que passou a residir, garantindo emprego e sal\u00e1rio a muitas pessoas e tornando-se um administrador eficiente e poderoso. Foi assim que se elevou ao posto de prefeito da localidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da riqueza obtida, Jean nunca se esqueceu do d\u00e9bito que possu\u00eda com Deus e do epis\u00f3dio do Bispo que \u201ccomprou\u201d sua alma. Demonstra tal sentimento de gratid\u00e3o o h\u00e1bito que mantinha na distribui\u00e7\u00e3o de esmolas e no trato cordial e digno para com todos os seus funcion\u00e1rios e os mun\u00edcipes por ele administrados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eis que surge na hist\u00f3ria a jovem Fantine. M\u00e3e solteira, sustentava a filha com o sal\u00e1rio que recebia da empresa de Jean Valjean. A filha era cuidada por um casal de aproveitadores, em uma vila vizinha (Os Th\u00e9nardier), que cobravam caro pela estada da pobre crian\u00e7a, apesar de trat\u00e1-la como servi\u00e7al e exigir trabalhos n\u00e3o condizentes com sua idade e complei\u00e7\u00e3o f\u00edsica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Ap\u00f3s sofrer ass\u00e9dio, por um dos encarregados do agora prefeito Jean Valjean (que passara a utilizar o nome de Sr Madeleine), Fantine foi injustamente demitida. A injusti\u00e7a n\u00e3o p\u00f4de ser evitada (posto que n\u00e3o diretamente presenciada) pelo personagem principal, que encontrou Fantine, posteriormente e ao acaso, em um antro de prostitui\u00e7\u00e3o e na mis\u00e9ria, al\u00e9m de doente. Prostitu\u00eda-se para manter a filha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s resgatar Fantine daquela localidade, colocou-a em um local digno para recupera\u00e7\u00e3o de sua sa\u00fade, mas Fantine j\u00e1 estava pr\u00f3xima da morte. Foi quando a mo\u00e7a relatou-lhe a forma como chegou \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o, como deu-se a demiss\u00e3o injusta, falando-lhe acerca de sua pequena filha, Cosette, que precisava de seus cuidados e aux\u00edlio financeiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Madeleine (Jean) promete \u00e0 Fantine trazer-lhe sua filha, mas nesse momento descobre que outra pessoa havia sido presa como sendo Jean Valjean (que formalmente estava foragido). Sofre com a possibilidade de permitir que uma injusti\u00e7a ocorra, ent\u00e3o, vai at\u00e9 o tribunal e livra o pretenso Jean Valjean, assumindo sua real identidade. Sem contestar a puni\u00e7\u00e3o a que estaria sujeito, mas colocando-se como respons\u00e1vel pela vida da jovem Cosette, Jean foge, antes de ser preso, e vai \u00e0 procura da filha de Fantine.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Jean n\u00e3o permite que a injusti\u00e7a da condena\u00e7\u00e3o de quem se passa por ele se consuma, mas tamb\u00e9m n\u00e3o foge \u00e0 responsabilidade de restaurar a injusti\u00e7a cometida contra Fantine e sua filha Cosette.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o esfor\u00e7o de Jean n\u00e3o foi suficiente para que Cosette reencontrasse a m\u00e3e, que morre. A partir de ent\u00e3o, Jean oferece-se inteiramente como respons\u00e1vel pela vida e pelos cuidados da pequena crian\u00e7a. Replica o sacrif\u00edcio que recebeu do Bispo em favor de Cosette.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Escondendo-se da pol\u00edcia, que est\u00e1 em seu encal\u00e7o, desde que fugiu do tribunal, refugia-se em um convento, local em que trabalha como ajudante de servi\u00e7os gerais em troca da educa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a. \u00c9 nesse local que Cosette passa sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao crescer, Cosette aproxima-se de Marius, jovem ligado a movimentos revolucion\u00e1rios na Fran\u00e7a, e por ele se apaixona. Enamorados, os jovens trocam promessas de amor eterno. Marius, ao participar de um motim com um grupo de amigos, envolve-se em uma batalha, \u00e9 cercado, com seus companheiros, em uma barricada, e contido por for\u00e7as oficiais. Envia, ent\u00e3o, uma carta de amor a Cosette, que \u00e9 recebida por seu pai, Jean.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Jean, ao receber a carta e vislumbrar o risco a que est\u00e1 sujeito o amor da vida da filha adotiva, parte em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 barricada para aux\u00edlio do jovem rapaz. No local, participa da batalha e, ap\u00f3s a rendi\u00e7\u00e3o do grupo rebelde, quando j\u00e1 n\u00e3o havia chance de permanecer lutando, foge com Marius, ferido, pelo sistema de esgoto da cidade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s uma longa, arriscada, desgastante e tenebrosa passagem, pelos sistemas de esgoto, Jean salva Marius e leva-o para longe da zona de conflito. Salvo, Marius n\u00e3o sabe quem foi seu benfeitor. Ap\u00f3s a recupera\u00e7\u00e3o do desgaste f\u00edsico, decorrente da batalha de que participou, reencontra Cosette. Jean isola-se e, apesar dos insistentes convites, recusa-se a participar da vida do jovem casal, ou mesmo a habitar pr\u00f3ximo a eles.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cosette e Marius casam-se. Gra\u00e7as a uma coincid\u00eancia, Marius descobre que a pessoa que o salvou \u00e9 Jean Valjean, pai de sua esposa. Ele e Cosette refletem sobre a entrega de vida de Jean Valjean em favor deles. Procuram Jean para agradec\u00ea-lo por ter se sacrificado e entregado a pr\u00f3pria vida em fun\u00e7\u00e3o da deles. Encontram-no em seu leito de morte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse encontro \u00e9, em minha opini\u00e3o, o \u00e1pice da trama. Jean tem suas boas a\u00e7\u00f5es (ou parte delas) reveladas. Recebe, como recompensa, amor, carinho e admira\u00e7\u00e3o de pessoas que lhe s\u00e3o caras, especialmente daquela que cuidou como filha por grande parte da vida.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tratado com distin\u00e7\u00e3o e extrema dignidade. Sua honra e valores s\u00e3o reconhecidos. Como resposta ao reconhecimento que de sua filha e de seu genro recebe, e j\u00e1 no leito de morte, Jean&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-small-font-size\">Caminhou com passos firmes at\u00e9 a parede, afastou Marius e o m\u00e9dico, que queriam ajud\u00e1-lo, tirou do prego o pequeno crucifixo de cobre que estava pendurado ali, voltou a sentar-se com toda a liberdade de movimentos, como se estivesse em plena sa\u00fade, e disse em voz alta, colocando o crucifixo em cima da mesa: &#8211; Aqui est\u00e1 o grande m\u00e1rtir. (Hugo, 2014, p. 1504).&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Na p\u00e1gina seguinte, a zeladora do pr\u00e9dio em que Jean se encontrava perguntou a ele se queria a presen\u00e7a de um Padre. Jean, ent\u00e3o, afirmou que j\u00e1 tinha um e mostrou-lhe o dedo, acima de sua cabe\u00e7a, onde parecia ver algu\u00e9m. O autor da obra arremata: \u201c\u00e9 prov\u00e1vel, efetivamente, que o Bispo assistisse \u00e0quela agonia\u201d.<em> <\/em>O Bispo referido \u00e9 nada menos que o cl\u00e9rigo com quem Jean Valjean tivera contato, no in\u00edcio do romance, que, como seu intercessor, veio presenciar os frutos da virtude que plantara.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Bispo e S\u00f4nia regeneraram Jean e Rask\u00f3lnikov, sacrificando-se em favor deles. Enquanto na obra russa a efic\u00e1cia redentora do sacrif\u00edcio (ou a descri\u00e7\u00e3o dela) restringiu-se ao personagem principal, na francesa ela floriu, continuou ativa e pujante durante toda a vida de Jean.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O sacrif\u00edcio de S\u00f4nia fez Rask\u00f3lnikov entender que nenhum valor tem o amor \u00e0 abstrata ideia de humanidade se n\u00e3o se \u00e9 capaz de amar ao pr\u00f3ximo, entregar-se e sacrificar-se por ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Bispo cativou Jean com a demonstra\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 uma voca\u00e7\u00e3o humana al\u00e9m das necessidades materiais. Jean compreendeu a a\u00e7\u00e3o do Bispo e viveu sacrificando-se, primeiro pelos funcion\u00e1rios e mun\u00edcipes da pequena cidade em que era prefeito, depois por Cosette, sua filha adotiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pris\u00e3o, de forma isolada, n\u00e3o foi capaz de regenerar qualquer um dos protagonistas. Apenas a\u00e7\u00f5es concretas de caridade, praticadas pelos coadjuvantes (Bispo e S\u00f4nia), puderam reorientar as vidas de Jean e de Rask\u00f3lnikov.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel concluir dos romances, ainda, que os atos de caridade, representados por verdadeiros sacrif\u00edcios, n\u00e3o est\u00e3o desconectados do Verdadeiro Sacrif\u00edcio, que redirecionou o curso da humanidade. A refer\u00eancia expressa, em ambas as obras, \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o do Sacrif\u00edcio redentor de Cristo, diferencia o sacrif\u00edcio simples (como aquele praticado por Rask\u00f3lnikov ao ajudar com as despesas do vel\u00f3rio do pai de S\u00f4nia) do sacrif\u00edcio que redime.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Verdadeiro Sacrif\u00edcio, ent\u00e3o, n\u00e3o pode estar afastado do Verdadeiro M\u00e1rtir, como dito expressamente por Jean Valjean, ao fim de sua vida, assim como \u201co ramo n\u00e3o pode dar fruto por si mesmo, se n\u00e3o permanecer na videira\u201d (Jo 15,4). O fruto da reden\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser colhido se o sacrif\u00edcio que o propicia ligar-se diretamente ao Sacrif\u00edcio Redentor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>REFER\u00caNCIAS&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>JO\u00c3O. <em>In<\/em>: <strong>B\u00edblia Sagrada<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil. 3. ed. Bras\u00edlia: Edi\u00e7\u00f5es CNBB, 2019.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>DOSTOI\u00c9VSKI, Fi\u00f3dor. <strong>Crime e Castigo. <\/strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Oleg Almeida. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 2013.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>HUGO, Victor. <strong>Os Miser\u00e1veis. <\/strong>Tradu\u00e7\u00e3o e notas: Regina C\u00e9lia de Oliveira. Edi\u00e7\u00e3o Especial. S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 2014.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A literatura de qualidade \u00e9 grande aliada na compreens\u00e3o dos dilemas humanos, pois torna poss\u00edvel a reflex\u00e3o a respeito de temas variados, sob enfoque de personagens com diferentes caracter\u00edsticas. As obras \u201cOs Miser\u00e1veis\u201d e \u201cCrime e Castigo\u201d t\u00eam em comum a rela\u00e7\u00e3o dos protagonistas, Jean Valjean e Rask\u00f3lnikov, com o crime e com a reden\u00e7\u00e3o.&nbsp; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":27,"featured_media":4563,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-4562","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-articles"],"translation":{"provider":"WPGlobus","version":"3.0.2","language":"br","enabled_languages":["en","br"],"languages":{"en":{"title":true,"content":true,"excerpt":false},"br":{"title":true,"content":true,"excerpt":false}}},"blog_post_layout_featured_media_urls":{"thumbnail":["https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Imagem-sacrificio-e1713562157777-up-1713807124.jpg",150,80,true],"full":["https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Imagem-sacrificio-e1713562157777.jpg",448,238,false]},"categories_names":{"3":{"name":"Articles","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/category\/articles\/"}},"tags_names":[],"comments_number":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4562","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/27"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4562"}],"version-history":[{"count":22,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4562\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4598,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4562\/revisions\/4598"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4563"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4562"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4562"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4562"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}