{"id":4491,"date":"2024-02-15T20:52:40","date_gmt":"2024-02-15T23:52:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=4491"},"modified":"2024-02-16T16:48:27","modified_gmt":"2024-02-16T19:48:27","slug":"what-is-artificial-intelligence-part-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/what-is-artificial-intelligence-part-2\/2024\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 Intelig\u00eancia Artificial? (Parte 2)"},"content":{"rendered":"\n<p>Em novembro de 2022, iniciei esta s\u00e9rie de posts sobre o que \u00e9 intelig\u00eancia artificial (IA). Na <a href=\"https:\/\/www.admethics.com\/br\/what-is-artificial-intelligence-part-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">primeira parte<\/a>, propus que os leitores identificassem a IA a sua volta, ou que viessem \u00e0 sua cabe\u00e7a. Argumentei que a dificuldade em entender esta tecnologia pode vir da falta de consenso do que ela \u00e9. Se decifrar a intelig\u00eancia vem de uma longa discuss\u00e3o que perpassa diversas \u00e1reas, a sua \u201cvers\u00e3o artificial\u201d atrapalha ainda mais tarefa. Neste \u00ednterim, sugeri come\u00e7ar por um resgate \u00e0 hist\u00f3ria e expus brevemente a concep\u00e7\u00e3o do termo, mas alertei que seu prov\u00e1vel in\u00edcio \u00e9 anterior e que m\u00e1quinas pensantes j\u00e1 povoam o imagin\u00e1rio a muito tempo. Assim, nesta segunda parte, tamb\u00e9m falarei de hist\u00f3ria, mas de outro tipo, as hist\u00f3rias criadas pela nossa imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A muito tempo que se imagina m\u00e1quinas que pensam ou ganham vida. Na antiguidade, a Il\u00edada de Homero fala sobre cadeiras automotoras chamadas \u201ctrip\u00e9s\u201d e \u201catendentes\u201d dourados constru\u00eddos por Hefesto, o deus ferreiro coxo, para ajud\u00e1-lo a se locomover. No antigo mito grego, Ov\u00eddio reconta em suas Metamorfoses que Pigmaliano esculpiu uma est\u00e1tua de marfim de uma bela donzela; a partir dela, V\u00eanus d\u00e1 vida a Galatea&nbsp;(Nilsson, 2009).<\/p>\n\n\n\n<p>Arist\u00f3teles tamb\u00e9m idealizou a automa\u00e7\u00e3o em \u201cA Pol\u00edtica\u201d, falando que, com ela, cada ferramenta poderia executar sua tarefa por vontade pr\u00f3pria ou percebendo a necessidade, fazendo desnecess\u00e1rio os servos dos mestres artes\u00e3os e os senhores de escravos. Muitos s\u00e9culos depois, Leonardo da Vinci esbo\u00e7ou um rob\u00f4 humanoide em forma de cavaleiro medieval&nbsp;(Nilsson, 2009). Gottfried Wilhelm Leibniz e Blaise Pascal projetaram m\u00e1quinas que mecanizavam a aritm\u00e9tica, que at\u00e9 ent\u00e3o era dom\u00ednio de homens instru\u00eddos chamados de \u201ccalculadores\u201d; mesmo assim, ambos nunca afirmaram que eram dispositivos capazes de pensar (Buchanan, 2005).<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando para os aut\u00f4matos fict\u00edcios, a boneca mec\u00e2nica em tamanho natural, Olympia, canta e dan\u00e7a no Ato I de Les Contes d\u2019Hoffmann (Os Contos de Hoffmann), de Jacques Offenbach (1819-1880). Karel \u010capek, um autor e dramaturgo tcheco, publicou uma obra intitulada R.U.R. (Rob\u00f4s Universais de Rossum) em 1920, na qual ele introduziu a palavra &#8220;rob\u00f4&#8221;, que em tcheco denota &#8220;trabalho for\u00e7ado&#8221; ou &#8220;trabalho penoso&#8221;&nbsp;(Nilsson, 2009).<\/p>\n\n\n\n<p>Na literatura de fic\u00e7\u00e3o cientifica, a escritora Mary W. Shelley e seu companheiro, o poeta Percy Shelley, acompanhados do escritor Lord Byron e o m\u00e9dico John Polidori, hospedaram-se na Villa Diodati em Cologny, Su\u00ed\u00e7a, durante o ver\u00e3o de 1816. Acredita-se que, de uma aposta sobre quem escreveria a hist\u00f3ria mais assustadora, Mary escreveu os primeiros rascunhos do Frankenstein e Polidori escreveu a primeira hist\u00f3ria moderna sobre vampiros, inspirando at\u00e9 mesmo o Dr\u00e1cula de Bram Stoker (Gordon, 2020). O &#8220;Frankenstein&#8221;, de Mary Shelley, trata-se da hist\u00f3ria de Victor Frankenstein, um cientista que cria uma criatura por meio de experimentos cient\u00edficos, apenas para enfrentar as terr\u00edveis consequ\u00eancias de sua busca pela cria\u00e7\u00e3o da vida.\u00a0Por coincid\u00eancia (ou n\u00e3o), a filha de Lord Byron, Ada Lovelace \u00e9 chamada de a primeira programadora do mundo\u00a0(Nilsson, 2009), o que pode ser mais uma evid\u00eancia de como o pensamento mecanicista dominou a vis\u00e3o dos pensadores da \u00e9poca, tanto na literatura como na ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Cansado das hist\u00f3rias de fic\u00e7\u00e3o em que os rob\u00f4s eram destrutivos, Isaac Asimov escreveu diversas hist\u00f3rias sobre rob\u00f4s, os quais tinham embutidos em seus c\u00e9rebros positr\u00f4nicos as \u201cTr\u00eas Leis da Rob\u00f3tica\u201d&nbsp;(Nilsson, 2009)&nbsp;(o prof. Marcello Zappellini fala sobre elas neste post<a href=\"https:\/\/www.admethics.com\/br\/the-three-or-four-laws-of-robotics\/\"> aqui<\/a>). Por\u00e9m, Shelley e Asimov n\u00e3o foram os \u00fanicos. J\u00falio Verne \u00e9 outro grande conhecido da literatura cl\u00e1ssica, mas tamb\u00e9m h\u00e1 L. Frank Baum, escritor de \u201cO m\u00e1gico de Oz\u201d, com suas descri\u00e7\u00f5es de diversos rob\u00f4s e o homem mec\u00e2nico Tiktok de 1907 (Buchanan, 2005). Tiktok, hoje, \u00e9 o nome de uma rede social, mas a descri\u00e7\u00e3o que autor atribuiu ao rob\u00f4 Tiktok remete muito ao que hoje identificamos como um homem mec\u00e2nico: \u201cextra responsivo, criador de pensamentos e de fala perfeita&#8230; Pensa, fala, age e faz tudo, menos viver\u201d (Buchanan, 2005, p.54).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, desde o tr\u00edpode de Hefesto na Il\u00edada de Homero ao mito grego, do Frankenstein de Mary W. Shelley e as tr\u00eas leis de Isaac Asimov (Buchanan, 2005; Nilsson, 2009), a fic\u00e7\u00e3o tem servido como um dispositivo liter\u00e1rio que estimula a reflex\u00e3o sobre a ess\u00eancia da humanidade. Em alguns casos, essa influ\u00eancia manifestou-se apenas por meio de met\u00e1foras, como o &#8220;homem mec\u00e2nico&#8221; de Ren\u00e9 Descartes; mas em outros, o pensamento mecanizado instigou fil\u00f3sofos como Leibniz a contemplar uma l\u00f3gica para criar dispositivos pensantes (Buchanan, 2005).<\/p>\n\n\n\n<p>A procura pela intelig\u00eancia artificial, quixotesca ou n\u00e3o, come\u00e7ou na mente de sonhadores&nbsp;(Nilsson, 2009). Nils J. Nilsson, um dos pioneiros da Intelig\u00eancia Artificial (IA), narra a hist\u00f3ria dessa disciplina em seu livro &#8220;The quest for Artificial Intelligence&#8221; (2009), destacando como a busca por essa intelig\u00eancia teve origem em sonhos. A transi\u00e7\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o para a realidade transformou a concep\u00e7\u00e3o de uma intelig\u00eancia n\u00e3o humana e inorg\u00e2nica em um campo cient\u00edfico estabelecido, conhecido como IA. O termo atraente foi proposto por John McCarthy durante a Confer\u00eancia de Dartmouth em 1956, antes mesmo do desenvolvimento efetivo da tecnologia. A explora\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia humana para replic\u00e1-la marcou esse momento entre um grupo de cientistas, assim como a cria\u00e7\u00e3o e a natureza humana inspiraram o grupo de autores durante as noites na Villa Diodati, quando Mary Shelley concebeu seu Frankenstein (Gordon, 2020).<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de o imagin\u00e1rio apresentar vers\u00f5es limitadas da intelig\u00eancia n\u00e3o humana, ele conferiu credibilidade \u00e0 vis\u00e3o mecanicista do comportamento e \u00e0 possibilidade de replica\u00e7\u00e3o (Buchanan, 2005), n\u00e3o apenas na fic\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m no desenvolvimento da tecnologia de IA desde seus prim\u00f3rdios nos anos 1950\u00a0(Nilsson, 2009). Percebe-se, assim, que os sonhos do imagin\u00e1rio e dos vision\u00e1rios se misturam em um <em>corpus<\/em> de narrativas que moldam os medos e esperan\u00e7as da tecnologia\u00a0(Hermann, 2023). No entanto, como afirma Hermann (2023), a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o pode ser uma previs\u00e3o ou avalia\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Ao tomar a IA da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica demasiado literalmente, e mesmo aplic\u00e1-la \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, pinta-se uma imagem distorcida do potencial atual da tecnologia e a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 desviada das implica\u00e7\u00f5es e riscos da IA no mundo real. Estes riscos n\u00e3o t\u00eam a ver com rob\u00f4s human\u00f3ides ou m\u00e1quinas conscientes, mas sim com a pontua\u00e7\u00e3o, os\u00a0<em>nudges<\/em>, a discrimina\u00e7\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o e a vigil\u00e2ncia de seres humanos por meio de tecnologias de IA atrav\u00e9s de governos e empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n\n\n\n<p>Bruce G. Buchanan. (2005). A (very) brief history of artificial intelligence. AI Magazine, 26(4), 1059\u20131067. https:\/\/doi.org\/10.1051\/medsci\/2020189<\/p>\n\n\n\n<p>Gordon, C. (2020). Mulheres extraordin\u00e1rias: as criadoras e a criatura. Tradu\u00e7\u00e3o de Giovanna Louise Libralon. Rio de Janeiro: DarkSide Books.<\/p>\n\n\n\n<p>Hermann, I. (2023). Artificial intelligence in fiction: between narratives and metaphors. AI and Society, 38(1), 319\u2013329. https:\/\/doi.org\/10.1007\/s00146-021-01299-6<\/p>\n\n\n\n<p>Nilsson, N. J. (2009). The Quest for Artificial Intelligence. In The Quest for Artificial Intelligence. https:\/\/doi.org\/10.1017\/cbo9780511819346<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em novembro de 2022, iniciei esta s\u00e9rie de posts sobre o que \u00e9 intelig\u00eancia artificial (IA). Na primeira parte, propus que os leitores identificassem a IA a sua volta, ou que viessem \u00e0 sua cabe\u00e7a. Argumentei que a dificuldade em entender esta tecnologia pode vir da falta de consenso do que ela \u00e9. 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