{"id":4383,"date":"2023-11-24T20:42:34","date_gmt":"2023-11-24T23:42:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=4383"},"modified":"2023-11-27T13:19:07","modified_gmt":"2023-11-27T16:19:07","slug":"the-issue-of-the-virtues-unity","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/the-issue-of-the-virtues-unity\/2023\/","title":{"rendered":"A quest\u00e3o da unidade das virtudes morais"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A integridade remonta \u00e0 ideia de &#8220;<em>wholeness<\/em>, <em>perfect condition<\/em>&#8221; e a palavra surgiu provavelmente em meados do s\u00e9culo XV na l\u00edngua inglesa <a>(https:\/\/www.etymonline.com\/search?q=integrity)<\/a>, podendo tamb\u00e9m significar &#8220;estar inteiro&#8221; ou &#8220;estar completo&#8221;. Em <em>Business Ethics<\/em>, integridade pode facilmente ser confundida com a ideia, de longa data, da conex\u00e3o das virtudes, que pode se expressar da seguinte forma: \u201cquem tem uma virtude moral, tem todas\u201d, afirma\u00e7\u00e3o criticada por Solomon (1992). Neste caso, ser \u00edntegro pode significar o uso simult\u00e2neo de todas as virtudes nas mais diversas situa\u00e7\u00f5es, como nas organiza\u00e7\u00f5es. Mas h\u00e1 dois problemas, que vamos explorar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro \u00e9 sabermos se \u00e9 verdadeira a afirma\u00e7\u00e3o \u201cquem tem uma virtude moral, tem todas\u201d e, segundo, como abordar o problema da conex\u00e3o das virtudes, ou seja, como \u00e9 poss\u00edvel a conex\u00e3o entre todas as virtudes, criando um plexo de virtudes orientadas de modo a formar um car\u00e1ter coerente?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para tratarmos a primeira quest\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio fazermos uma primeira distin\u00e7\u00e3o. Denominada de \u201cdoutrina forte\u201d da conex\u00e3o das virtudes morais entre si, teve adeptos ao longo da hist\u00f3ria da filosofia (Zingano, 2009). Entretanto, o pr\u00f3prio Arist\u00f3teles defendeu uma tese mais moderada, qual seja, \u201ca da conex\u00e3o das virtudes pr\u00f3prias <em>que o agente possui<\/em> por interm\u00e9dio da prud\u00eancia (<em>phronesis<\/em>), sem sustentar que quem tem uma virtude tem todas\u201d (Zingano, 2009, p. 395). Para compreend\u00ea-la, precisamos distinguir o que Arist\u00f3teles, na <em>Ethica Nicomachea,<\/em> definiu como \u2018virtude natural\u2019 e \u2018virtude pr\u00f3pria\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira \u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o adquirida ao repetirmos atos aos quais somos inclinados naturalmente como, por exemplo, ao sermos naturalmente inclinados \u00e0 bravura, ao n\u00e3o recuarmos diante de um perigo qualquer, adquirimos ao longo do tempo \u2013 ou seja, ao longo de repeti\u00e7\u00f5es de atos em um sentido \u2013 disposi\u00e7\u00f5es correspondentes \u00e0 coragem. Portanto, \u00e9 um \u201cmodo de ser natural de nossas virtudes\u201d, que inclui tanto as inclina\u00e7\u00f5es com as quais nascemos, mas tamb\u00e9m as adquiridas por assumir deveres e corre\u00e7\u00f5es. Mais precisamente, n\u00e3o nascemos com tais disposi\u00e7\u00f5es dadas por natureza, mas sim com a aptid\u00e3o natural de receb\u00ea-las (Zingano, 2009, EN II 1 1103a23-26). Quando temos apenas virtudes naturais n\u00e3o h\u00e1 uma coordena\u00e7\u00e3o que as oriente, est\u00e3o desconectadas e, portanto, \u00e9 poss\u00edvel, por exemplo, que algu\u00e9m seja corajoso, mas intemperante; que seja generoso, mas inconstante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A virtude natural se torna uma virtude pr\u00f3pria (ou virtude propriamente dita) \u201cquando algu\u00e9m n\u00e3o somente faz o que deve fazer [ter uma raz\u00e3o], mas o faz tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o de boas raz\u00f5es\u201d (Zingano, 2009, p. 402). Essa \u201capreens\u00e3o de raz\u00f5es\u201d \u00e9 justamente a <em>phronesis<\/em>, que como virtude intelectual da raz\u00e3o pr\u00e1tica, opera a apreens\u00e3o de raz\u00f5es no interior das virtudes morais, de modo a aperfei\u00e7oa-las. Tem-se ent\u00e3o que a <em>phronesis<\/em> \u00e9 a \u201cvirtude intelectual que aperfei\u00e7oa a virtude moral, fazendo-a passar de virtude natural para a virtude pr\u00f3pria (Zingano, 2009, p. 404. Ver tamb\u00e9m EN VI 13 1144b15-17 e <em>Ethica Eudemia<\/em> III 7 1234a29-30).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que s\u00e3o \u201cas boas raz\u00f5es\u201d? Ou, em outras palavras, o que \u201cconv\u00e9m fazer de acordo com a reta raz\u00e3o?\u201d As boas raz\u00f5es do prudente s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es consideradas para as decis\u00f5es e a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o boas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida inteira do agente, n\u00e3o apenas em um determinado instante, consideradas tamb\u00e9m em suas m\u00faltiplas atividades, bem como o ambiente pol\u00edtico e social (Zingano, 2009).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, na \u00e9tica aristot\u00e9lica tem-se dois modos distintos de sermos moralmente virtuosos, e a <em>phronesis<\/em> assume o papel central para essa distin\u00e7\u00e3o. As virtudes morais pr\u00f3prias possuem em comum a <em>phronesis<\/em> como a virtude intelectual que opera no interior de tais virtudes, aperfei\u00e7oando-as, tornando-as perfeitas. E isso \u00e9 relevante para a quest\u00e3o das conex\u00f5es das virtudes morais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como visto anteriormente, as virtudes naturais s\u00e3o desconectadas entre si, enquanto as virtudes pr\u00f3prias possuem a <em>phronesis<\/em> como elemento em comum, ou seja, \u00e9 o elemento de conex\u00e3o entre as virtudes. Por\u00e9m, n\u00e3o necessariamente todas as virtudes est\u00e3o presentes (\u201cdoutrina forte\u201d), mas apenas o que o agente possui, intermediada pela <em>phronesis<\/em>, ou seja, para Arist\u00f3teles a <em>phronesis<\/em> sup\u00f5e a posse pr\u00e9via de uma ou mais virtudes morais \u2013 at\u00e9 mesmo de um bom n\u00famero de virtudes \u2013, mas n\u00e3o de <em>todas<\/em> elas, necessariamente. Pode-se chamar isso de \u201cconex\u00e3o moderada das virtudes\u201d (Zingano, 2009).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltando-nos \u00e0 cr\u00edtica de Solomon (1992) do que ele denomina de \u201cilus\u00e3o\u201d da unidade (conex\u00e3o) das virtudes, podemos adotar a distin\u00e7\u00e3o anterior para resolver o problema que ele descreve e que ser\u00e1 \u00fatil para <em>compreendermos a integridade<\/em>. Em poucas palavras, ele afirma que \u201c&#8230; salvo numa organiza\u00e7\u00e3o ou sociedade perfeitas, n\u00e3o h\u00e1 qualquer unidade garantida das virtudes, nem h\u00e1 como estabelecer uma distin\u00e7\u00e3o f\u00e1cil entre virtude ou moral e os deveres do cargo ou da posi\u00e7\u00e3o que se ocupa.\u201d (Solomon, 2006, p. 272). Basta perceber os conflitos de deveres e os choques de lealdades proporcionados pela complexidade organizacional e pelos diversos pap\u00e9is que o indiv\u00edduo precisa exercer nela, que [&#8230;] n\u00e3o h\u00e1 como negar a desuni\u00e3o das virtudes (Solomon, 2006, p. 273).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso realmente \u00e9 um grande problema \u00e9tico. Tanto que o \u201cchoque de deveres\u201d j\u00e1 foi tratado por Arist\u00f3teles em sua obra <em>Magna Moralia<\/em> (II 3), na qual se pergunta se as virtudes podem ter conflitos entre si. Zingano (2009, p. 408) faz a seguinte interpreta\u00e7\u00e3o desta parte da obra: \u201cno tocante \u00e0s virtudes naturais, pode ocorrer um conflito de deveres; mas, assim que h\u00e1 uma escolha deliberada, isto \u00e9, uma apreens\u00e3o de raz\u00f5es [<em>phronesis<\/em>], a virtude natural se torna perfeita, e n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel haver um conflito de deveres, pois a raz\u00e3o que aperfei\u00e7oa cada uma das virtudes \u00e9 a mesma que est\u00e1 em todas.\u201d Em outras palavras: o choque de deveres se d\u00e1 somente quando h\u00e1 virtudes morais naturais (ou seja, aus\u00eancia de <em>phronesis<\/em>), ao passo que n\u00e3o h\u00e1 tal choque entre as virtudes pr\u00f3prias do sujeito devido \u00e0 unidade ou conex\u00e3o entre elas atrav\u00e9s da <em>phronesis<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse caso, talvez Solomon esteja atribuindo o problema da unidade das virtudes mirando nas virtudes naturais. De fato, as virtudes naturais s\u00e3o desconexas e o choque de deveres ocorre frequentemente. Por\u00e9m, quando tais virtudes s\u00e3o aperfei\u00e7oadas pela <em>phronesis<\/em>, tornando-as virtudes pr\u00f3prias, h\u00e1 a unidade dessas virtudes e o choque deixa de existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A repercuss\u00e3o para a integridade \u00e9 imensa e o pr\u00f3prio Solomon a responde. Quando ele considera que a integridade \u00e9 \u201cessencialmente <em>coragem moral<\/em>\u201d, complementa afirmando que a integridade \u00e9 \u201ca vontade e a disposi\u00e7\u00e3o de fazer o que se sabe que deve ser feito\u201d (Solomon, 2006, p. 274), e \u00e9 primordial que as regras e ordens nas organiza\u00e7\u00f5es sejam compat\u00edveis com as nossas virtudes. O autor \u2013 sem mencionar explicitamente \u2013 est\u00e1 falando da phronesis. O que \u201cdeve ser feito\u201d, as virtudes morais naturais d\u00e3o conta, por\u00e9m o \u201c<em>saber<\/em> o que deve ser feito\u201d e de maneira contextual \u2013 ou seja, a compatibilidade do contexto organizacional com as nossas virtudes \u2013 refere-se \u00e0 \u201capreens\u00e3o de boas raz\u00f5es\u201d, isto \u00e9, a phronesis. E \u00e9 a <em>phronesis<\/em> a protagonista da unidade das virtudes e da percep\u00e7\u00e3o de inteireza, que tantas vezes se referem \u00e0 integridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Refer\u00eancias:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Solomon, R. C. \u00c9tica e excel\u00eancia. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zingano. M. Estudos de \u00e9tica antiga [Studies of ancient ethics]. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2009.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_msocom_1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Colocar em hiperlink no site<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A integridade remonta \u00e0 ideia de &#8220;wholeness, perfect condition&#8221; e a palavra surgiu provavelmente em meados do s\u00e9culo XV na l\u00edngua inglesa (https:\/\/www.etymonline.com\/search?q=integrity), podendo tamb\u00e9m significar &#8220;estar inteiro&#8221; ou &#8220;estar completo&#8221;. 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