{"id":419,"date":"2018-05-08T09:59:40","date_gmt":"2018-05-08T12:59:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.admethics.com\/?p=419"},"modified":"2019-11-28T19:37:02","modified_gmt":"2019-11-28T22:37:02","slug":"black-mirror-and-death-of-ethics","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/black-mirror-and-death-of-ethics\/2018\/","title":{"rendered":"Black Mirror e a morte da \u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p>Giges era um pastor de ovelhas, um cidad\u00e3o respeit\u00e1vel moralmente, que trabalhava para o soberano da L\u00eddia. Ap\u00f3s uma grande tempestade e um tremor na terra, abriu-se uma fenda no local onde ele pastoreava o rebanho. Nesta fenda, Giges encontrou um cad\u00e1ver, que tinha um anel de ouro na m\u00e3o. Ao perceber o anel, o pastor acaba se apropriando dele. Chegando na comunidade, Giges participa de uma reuni\u00e3o com outros pastores. Giges, sentado no meio dos outros, deu, por acaso, uma volta no anel, e, ao fazer isso, tornou-se invis\u00edvel para os que estavam ao redor, os quais falavam dele como se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a m\u00e3o pelo anel. Assim que o fez, tornou-se vis\u00edvel. Tendo observado estes fatos, verificou que o anel havia lhe dado o poder de se tornar invis\u00edvel. Ao fim da hist\u00f3ria, Giges seduz a mulher do soberano, assassina-o, e dessa maneira, assume o poder sobre a sua comunidade.<\/p>\n<p>A alegoria retrata a hist\u00f3ria de um sujeito bom e virtuoso, sem hist\u00f3rico de a\u00e7\u00f5es imorais, indesejadas ou indignas. Por\u00e9m, ao encontrar um anel, que lhe deu o poder da invisibilidade, ele passou a cometer enormes atrocidades, como trai\u00e7\u00e3o, assassinato, abuso de poder.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o traz a interpreta\u00e7\u00e3o de Glauco da alegoria. Para este \u00faltimo, Giges representa a ess\u00eancia da natureza humana, que n\u00e3o \u00e9 virtuosa. Em condi\u00e7\u00f5es de invisibilidade (quando n\u00e3o ningu\u00e9m est\u00e1 vigiando) as pessoas tendem a ser anti\u00e9ticas. Nesta l\u00f3gica, justifica-se ter um sistema de repress\u00e3o forte para coibir atitudes indesejadas, pois o indiv\u00edduo, essencialmente heter\u00f4nomo e ego\u00edsta, \u00e9 condicionado pelo meio externo. Thomas Hobbes, no Leviat\u00e3, sustenta esta posi\u00e7\u00e3o ao defender que deve existir um estado forte a fim de coibir a\u00e7\u00f5es indesejadas, pois o ser humano, em um estado de natureza, tende a ser ego\u00edsta.<\/p>\n<p>Mas esta n\u00e3o \u00e9 a vis\u00e3o de Plat\u00e3o. Para o fil\u00f3sofo, a \u00e9tica implica em agir corretamente mesmo quando se \u00e9 invis\u00edvel. A \u00e9tica est\u00e1 relacionada \u00e0 consci\u00eancia, e n\u00e3o com a repress\u00e3o e a coa\u00e7\u00e3o da sociedade.\u00a0A moral seria \u00e9 um di\u00e1logo do indiv\u00edduo consigo mesmo, um di\u00e1logo intraconsciente. Mas o fato \u00e9 que quanto mais vivemos em uma sociedade repressiva, que constrange seus cidad\u00e3os a base da for\u00e7a, menos espa\u00e7o para a moral. A moral e a policia est\u00e3o em lados opostos. Uma sociedade sem moral precisa de altos n\u00edveis de repress\u00e3o. J\u00e1 uma sociedade moralmente superior, precisa de um sistema de opress\u00e3o mais moderado.<\/p>\n<p>Em um pa\u00eds de motoristas imprudentes, justifica-se a intensa fiscaliza\u00e7\u00e3o por agentes de transito, a coloca\u00e7\u00e3o de radares de velocidade e a utiliza\u00e7\u00e3o de baf\u00f4metros para coibir motoristas alcoolizados. A tentativa de resolver os problemas atrav\u00e9s da coa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma maneira muito utilizada pela sociedade atual. Mas estas a\u00e7\u00f5es nada tem a ver com a moral segundo Plat\u00e3o. Na vis\u00e3o de Plat\u00e3o, este m\u00e9todo de coa\u00e7\u00e3o possui um risco: sempre haver\u00e1 um momento em que ningu\u00e9m estar\u00e1 nos observando.<\/p>\n<p>Notar que um sujeito deixou cair uma carteira no ch\u00e3o e devolv\u00ea-la quando ningu\u00e9m est\u00e1 por perto; devolver a um caixa de supermercado o dinheiro de um troco incorreto; comprar um bilhete de trem, mesmo que n\u00e3o tenha ningu\u00e9m para lhe cobrar; comprar uma revista em uma banca de jornal, mesmo que n\u00e3o exista jornaleiro. Estas s\u00e3o quest\u00f5es que, de fato, se relacionam com a moral. Situa\u00e7\u00f5es onde somos praticamente invis\u00edveis. Se fossemos todos como Giges, nas situa\u00e7\u00f5es tratadas acima, agir\u00edamos incorretamente. Esta \u00e9 a grande li\u00e7\u00e3o que Plat\u00e3o nos ensina.<\/p>\n<p>Parece que a sociedade moderna n\u00e3o comprou a concep\u00e7\u00e3o de moral de Plat\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, parece que a vis\u00e3o de Glauco e de Hobbes \u00e9 endossada, pois \u00e9 poss\u00edvel perceber um aumento consider\u00e1vel dos meios de repress\u00e3o por parte da sociedade, principalmente atrav\u00e9s da tecnologia.<\/p>\n<p>A cada passo que damos o GPS do nosso celular identifica nossa localiza\u00e7\u00e3o. Todo conte\u00fado acessado pela internet \u00e9 registrado em algum servidor, bem como cada mensagem de texto ou de voz. Empresas, bancos, escolas, condom\u00ednios j\u00e1 possuem sistemas de monitoramento, e em alguns casos, at\u00e9 em nossas pr\u00f3prias resid\u00eancias. A partir do sistema de monitoramento chin\u00eas, em poucos minutos, \u00e9 poss\u00edvel encontrar, a partir da tecnologia de reconhecimento facial, qualquer cidad\u00e3o que transite pelas ruas. Estas tecnologias est\u00e3o sendo cada vez mais usados, porque, de fato, tendem a evitar que as pessoas cometam crimes. Por exemplo, a corrup\u00e7\u00e3o no Brasil, parece diminuir significativamente, principalmente pelo aumento nos mecanismos de fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dado que o medo da puni\u00e7\u00e3o tem o poder de coibir os cidad\u00e3os, ser\u00e1 que no futuro a humanidade ir\u00e1 exigir um chip no c\u00e9rebro para o monitoramento das pessoas?<\/p>\n<p>A s\u00e9rie do <em>NetFlix<\/em> chamada <em>Black Mirror<\/em>, nos epis\u00f3dios <em>Arkangel, National anthem e The entire history of you<\/em>, retrata um futuro poss\u00edvel para a sociedade, caso a tecnologia de monitoramento continue avan\u00e7ando a passos largos. No \u00faltimo epis\u00f3dio citado, os seres humanos carregam um implante atr\u00e1s da orelha, algo que chamam de\u00a0<em>grain<\/em>. Ali fica armazenada a mem\u00f3ria. Todos t\u00eam por h\u00e1bito relembrar os acontecimentos. Fazem isso manipulando um aparelhinho sintonizado com o gr\u00e3o. As imagens guardadas s\u00e3o projetadas em telas instaladas nas casas, nas ruas, nos carros.<\/p>\n<p>Estas imagens podem ser utilizadas pela imigra\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds para investigar o hist\u00f3rico de um passageiro, para checar a mem\u00f3ria de um suspeito de cometer um crime, para enviar v\u00eddeos para pais que desejam monitorar seus filhos, ou at\u00e9 mesmo para descobrir uma eventual trai\u00e7\u00e3o em um relacionamento amoroso. Para Plat\u00e3o, isto seria o fim da moral, pelo menos se a entendermos como um di\u00e1logo intraconsciente do indiv\u00edduo consigo mesmo.<\/p>\n<p>Mas vale lembrar que pessoas n\u00e3o podem ser vigiadas pela sociedade a todo o momento. Sempre haver\u00e1 um instante onde as pessoas poder\u00e3o cometer alguma transgress\u00e3o com poucas chances de ser reprimidas. \u00c9 neste momento que o sujeito movido pelo ego\u00edsmo e pelo egocentrismo infringe a lei. Ou seja, quando o ego\u00edsmo do sujeito for maior do que o medo imposto pela sociedade, ele tender\u00e1 a agir de modo a satisfazer seus desejos, independente dos meios para isto. Neste caso, onde o poder de coa\u00e7\u00e3o das autoridades \u00e9 nulo, como coibir o cidad\u00e3o? A resposta pode estar na educa\u00e7\u00e3o, que pode fazer com que o indiv\u00edduo transcenda a heteronomia e aja de acordo com princ\u00edpios internos. Aja corretamente, mesmo que seja invis\u00edvel.<\/p>\n<p><em>As vis\u00f5es e opini\u00f5es expressadas nos artigos s\u00e3o as dos autores e n\u00e3o refletem necessariamente a Pol\u00edtica oficial ou posi\u00e7\u00e3o do grupo AdmEthics<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Giges era um pastor de ovelhas, um cidad\u00e3o respeit\u00e1vel moralmente, que trabalhava para o soberano da L\u00eddia. Ap\u00f3s uma grande tempestade e um tremor na terra, abriu-se uma fenda no local onde ele pastoreava o rebanho. 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