{"id":2991,"date":"2021-11-02T18:56:21","date_gmt":"2021-11-02T21:56:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=2991"},"modified":"2021-11-02T19:07:50","modified_gmt":"2021-11-02T22:07:50","slug":"duas-rainhas-e-o-anacronismo-moral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/duas-rainhas-e-o-anacronismo-moral\/2021\/","title":{"rendered":"Duas rainhas e o anacronismo moral"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 8 de fevereiro de 1587, a rainha da Esc\u00f3cia, Mary Stuart, \u00e9 executada na Inglaterra ap\u00f3s 19 anos em c\u00e1rcere neste pa\u00eds, governado pela prima Elizabeth I. Apesar de ter assinado o mandado de morte, Elizabeth afirmou que a ordem foi executada sem seu conhecimento. Quem era dissimulada e quem falava a verdade?<\/p>\n\n\n\n<p>Eis um breve resumo. Mary Stuart, filha de James V da Esc\u00f3cia e Mary de Guise, era herdeira do trono brit\u00e2nico pelo lado da sua av\u00f3 paterna, Margaret Tudor (irm\u00e3 de Henry VIII) e foi coroada ao trono escoc\u00eas ainda beb\u00ea. Cresceu na Fran\u00e7a para ser a rainha consorte de Francis II, mas a morte prematura deste rei a fez retornar para a tumultuada Esc\u00f3cia. Mary era cat\u00f3lica e voltou ao seu pa\u00eds durante a ascens\u00e3o do protestantismo, mas conseguiu administrar a quest\u00e3o, sendo, inclusive, vista pelos cat\u00f3licos como a real herdeira da Inglaterra. Neste ponto, existiu um dos motivos para a rivalidade destas rainhas, pois Elizabeth I era filha de Anne Boleyn e Henry VIII e n\u00e3o foi reconhecida pela igreja cat\u00f3lica como filha leg\u00edtima e herdeira do trono ingl\u00eas. Al\u00e9m disto, diversos registros retratam a conturbada rela\u00e7\u00e3o entre as primas, que oscilava da cordialidade amig\u00e1vel a competi\u00e7\u00e3o, at\u00e9 em quest\u00f5es banais como quem era mais alta ou mais bonita.<\/p>\n\n\n\n<p>O decl\u00ednio de Mary Stuart veio ap\u00f3s seu segundo casamento, com Henry Stuart (Lorde Darnley). A sua morte mal explicada \u00e9 atribu\u00edda a Jaime Hepburn, 4\u00ba Conde de Bothwell, com quem Mary casa-se pouco tempo depois, levantando suspeitas sobre a sua participa\u00e7\u00e3o. Entre quest\u00f5es pol\u00edticas, religiosas e pessoais, em superficial apanhado, o conde \u00e9 morto, o meio-irm\u00e3o protestante de Mary assume como regente em nome de James VI, seu filho com Lorde Darnely, e a rainha busca asilo na Inglaterra com a prima. Elizabeth sabia o quanto era perigoso executar uma rainha (o mesmo dr\u00e1stico fim de sua m\u00e3e), ent\u00e3o manteve Mary em c\u00e1rcere at\u00e9 que conspira\u00e7\u00f5es contra o trono ingl\u00eas surgem como oportunidade para condenar a rainha escocesa, j\u00e1 a muito presa por crimes n\u00e3o solucionados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje n\u00e3o se sabe o quanto Mary participou de todas as especula\u00e7\u00f5es em que seu nome foi envolvido, mas a hist\u00f3ria acabou por faz\u00ea-la um m\u00e1rtir, que passou seus \u00faltimos anos fiel a sua verdade, rezando e morta por sua religi\u00e3o. O conflito entre as duas rainhas foi tema de filmes e livros, incluindo o famoso Alexandre Dumas, que mostrou como a escocesa foi um exemplo de retid\u00e3o moral.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Ent\u00e3o, afinal, qual delas foi dissimulada? A arte retrata uma \u201cMary, sempre mais mulher do que rainha, enquanto, pelo contr\u00e1rio, Elizabeth sempre foi mais rainha do que mulher\u201d (Tapioca Neto, 2020, p. 7). Por\u00e9m, se o imagin\u00e1rio art\u00edstico, e talvez a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, induz a uma imagem da escocesa pura e enganada e de uma inglesa estrategista e movida pela manuten\u00e7\u00e3o de seu poder, toda e qualquer tentativa de julgamento, na minha opini\u00e3o, entra no anacronismo. A pr\u00f3pria Mary traiu e teve comportamentos n\u00e3o aceit\u00e1veis hoje, mas que eram comuns a monarcas absolutos da \u00e9poca. S\u00f3 que isso n\u00e3o \u00e9 motivo para diminuir sua for\u00e7a e coragem, retratada na retid\u00e3o moral dos anos de c\u00e1rcere. Por outro lado, Elizabeth tamb\u00e9m foi um exemplo de for\u00e7a e coragem, ao provar que \u201cseu sexo n\u00e3o era incompat\u00edvel com pol\u00edtica\u201d, como se acreditava na \u00e9poca (Tapioca Neto, 2020, p. 10).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00c9 por isso que, quando analisamos fatos como estes, n\u00e3o dever\u00edamos tentar descobrir quem estava certo ou errado. Este tipo de an\u00e1lise, inevitavelmente nos leva a um anacronismo moral, pois tenta julgar com nossas lentes algo que aconteceu em outra \u00e9poca e em outro contexto. A pergunta, portanto, deveria ser qual era a verdade de cada uma e que li\u00e7\u00e3o tiramos de cada fato, ou seja, o que ficou apesar dos tempos.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso destas duas rainhas, se nos tornamos corajosos pelos atos corajosos (Arist\u00f3teles, 1999) \u00e9 ineg\u00e1vel a braveza de Mary Stuart, e isto seria uma prova para a retid\u00e3o moral atribu\u00edda a sua figura, que agiu sempre de acordo com seus princ\u00edpios e foi firme na sua verdade. Elizabeth, por outro lado, tamb\u00e9m n\u00e3o foi privada de virtudes pois, apesar das especula\u00e7\u00f5es, ela demonstrou grande temperan\u00e7a ao evitar \u201ca todo o momento criar uma inimizade ou conflito com a prima e rainha cat\u00f3lica\u201d (Silveira e Barbosa, 2013, p. 207), apesar de todas as dificuldades pol\u00edticas que enfrentou.\u00a0\u00a0Assim, o aprendizado que fica n\u00e3o \u00e9 a conclus\u00e3o entre vil\u00f5es e her\u00f3is, mas que, atrav\u00e9s dos tempos, algumas virtudes sempre estar\u00e3o ligadas \u00e0 for\u00e7a e \u00e0 coragem buscadas entre aqueles que buscam para si um comportamento moral e \u00edntegro e agem conforme o\u00a0\u00a0seu car\u00e1ter para, talvez, ficar na hist\u00f3ria como um exemplo de retid\u00e3o moral.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aristoteles. (1999).\u00a0<strong>Nicomachean ethics<\/strong>. T. Irwin (Trans.) (2nd ed.). Indianapolis, IN: Hackett Publishing Co<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mary, Queen of Scots<\/strong>. (2021). In Wikipedia. https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Mary,_Queen_of_Scots<\/p>\n\n\n\n<p>Silveira, Jos\u00e9 R. F.; Barbosa, Juliana G. (2013). A guerra dos tronos: Elisabeth e Mary Stuart. <strong>Sem Aspas<\/strong>, Araraquara, v.2, n.1,2, p.197-208.<\/p>\n\n\n\n<p>Tapioca Neto, Renato D. (2020). Pref\u00e1cio. In:\u00a0Dumas, Alexandre. <strong>Mary Stuart, a rainha da Esc\u00f3cia<\/strong>\/ tradu\u00e7\u00e3o de Cl\u00e1udia Melo Belhassof. \u2013 S\u00e3o Caetano do Sul, SP: Wish. Tradu\u00e7\u00e3o de: Mary Stuart, Celebrated Crimes (ed. 1910) 1. Edi\u00e7\u00e3o do Kindle.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 8 de fevereiro de 1587, a rainha da Esc\u00f3cia, Mary Stuart, \u00e9 executada na Inglaterra ap\u00f3s 19 anos em c\u00e1rcere neste pa\u00eds, governado pela prima Elizabeth I. 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