{"id":2947,"date":"2021-07-19T19:21:26","date_gmt":"2021-07-19T22:21:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=2947"},"modified":"2021-07-19T19:30:41","modified_gmt":"2021-07-19T22:30:41","slug":"nobodys-fault-but-mine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/nobodys-fault-but-mine\/2021\/","title":{"rendered":"Nobody\u2019s fault but mine?"},"content":{"rendered":"\n<p>Esta breve reflex\u00e3o lida com o tema da culpa, um sentimento que nos assalta quando sabemos que fizemos algo errado \u2013 ou mesmo quando suspeitamos que cometemos esse erro. Na \u00c9tica, a culpa aparece relativamente pouco nas obras dos fil\u00f3sofos morais (para os interessados, sugere-se o cap\u00edtulo de Chappell no livro de Cokelet e Maley, 2019). A decis\u00e3o de tratar deste assunto surgiu de um desconforto com a no\u00e7\u00e3o de culpa coletiva que parece se difundir atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Culpa coletiva? Desde Marx, difunde-se a ideia de que as pessoas s\u00e3o meros bonecos moldados pela classe social em que nasceram \u2013 seus pensamentos, seus valores, suas vis\u00f5es de mundo, tudo \u00e9 determinado pelo fato de algu\u00e9m ter nascido burgu\u00eas ou prolet\u00e1rio. Como e por que o pr\u00f3prio Marx, nascido na burguesia, conseguiu transcender os limites impostos pela sua pr\u00f3pria classe, nunca foi explicado. Mas a ideia adentrou o imagin\u00e1rio, e foi al\u00e9m: para muitos, ra\u00e7a e g\u00eanero s\u00e3o suficientes para definir todo um grupo de pessoas, e se voc\u00ea pertence a uma determinada combina\u00e7\u00e3o de ambos, voc\u00ea se torna imediatamente culpado por tudo de ruim que ela tiver realizado no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Hannah Arendt, em <em>Responsibility and Judgment <\/em>(2003), afirmava que ser alem\u00e3 a tornava herdeira de tudo o que seus antepassados tinham feito; ela n\u00e3o podia ser culpada pelos seus erros \u2013 e. g., o nazismo \u2013 mas nem por isso deixava de carregar uma responsabilidade, que pode ser deduzida como a de jamais permitir que ocorressem novamente. Em meu ponto de vista, Arendt estava certa ao afirmar que ela n\u00e3o poderia assumir a culpa pelos atos de outras pessoas, especialmente pessoas com quem ela n\u00e3o conviveu. Em termos de responsabilidade, n\u00e3o se pode desprezar sua proposi\u00e7\u00e3o: conhecendo os erros cometidos no passado, n\u00f3s, seres humanos, devemos evitar comet\u00ea-los no presente e no futuro. Mas, se ocorrerem, somos culpados? Fizemos alguma coisa para que os erros se repitam, ou deixamos de fazer algo que os evite?<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que seja importante distinguir entre a culpa por fazer algo errado e a culpa por deixar de fazer algo certo. A distin\u00e7\u00e3o parece simples: se, por exemplo, como resultado de meus atos, uma pessoa morre, sou culpado pelo ato (por exemplo, avancei o sinal vermelho e bato em outro carro, causando a morte de seu ocupante); por outro lado, se presenciei um acidente, e n\u00e3o presto socorro \u00e0s v\u00edtimas, se uma delas vier a falecer sou culpado por omiss\u00e3o. N\u00e3o matei ningu\u00e9m, mas n\u00e3o fiz nada para evitar a morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, h\u00e1 um fator complicador. O ato deriva da vontade da pessoa? O ato foi conscientemente desempenhado por algu\u00e9m que estava ciente das consequ\u00eancias? Este aspecto \u00e9 importante, porque, por exemplo, se a pessoa for levada a julgamento pelo acidente de carro, sua pena ser\u00e1 diferente se for provado que estava embriagada. A culpa est\u00e1 associada \u00e0 consci\u00eancia, exige que a pessoa seja capaz de julgar o contexto, a a\u00e7\u00e3o em si, suas op\u00e7\u00f5es. Portanto, a culpa por uma a\u00e7\u00e3o errada deve derivar de uma a\u00e7\u00e3o praticada conscientemente por uma pessoa \u2013 ou da omiss\u00e3o de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Permitam-me refor\u00e7ar: <strong>por uma pessoa<\/strong>. A a\u00e7\u00e3o radica no indiv\u00edduo; \u201ca\u00e7\u00e3o coletiva\u201d \u00e9 o somat\u00f3rio de a\u00e7\u00f5es individuais, mesmo quando o que uma pessoa faz ou deixa de fazer \u00e9 influenciado pelo grupo a que pertence. A culpa pelos meus erros n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m, \u00e9 minha; a culpa das pessoas semelhantes a mim, sejam elas quem forem, \u00e9 delas, n\u00e3o minha, e s\u00f3 posso compartilh\u00e1-la se eu tinha meios para impedir a a\u00e7\u00e3o errada, mas conscientemente optei por n\u00e3o fazer nada.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>ARENDT, Hannah. <strong>Responsibility and judgment<\/strong>. New York: Schocken Books, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p>COKELET, Bradford; MALEY, Corey J. <strong>The moral psychology of guilt<\/strong>. London: Rowman &amp; Littlefield, 2019.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta breve reflex\u00e3o lida com o tema da culpa, um sentimento que nos assalta quando sabemos que fizemos algo errado \u2013 ou mesmo quando suspeitamos que cometemos esse erro. 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