{"id":2898,"date":"2021-05-14T22:21:18","date_gmt":"2021-05-15T01:21:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=2898"},"modified":"2021-05-17T20:02:55","modified_gmt":"2021-05-17T23:02:55","slug":"prima-facie-duties-a-deontology-in-context","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/prima-facie-duties-a-deontology-in-context\/2021\/","title":{"rendered":"Prima Facie Duties: Uma deontologia em contexto?"},"content":{"rendered":"\n<p>Sir William David Ross (1877 \u2013 1941), mais conhecido como W. D. Ross, foi um fil\u00f3sofo escoc\u00eas ligado \u00e0 Universidade de Oxford, onde lecionou Filosofia Moral por diversos anos, tendo se destacado nessa \u00e1rea pela publica\u00e7\u00e3o de um livro, <em>The Right and The Good<\/em>, em 1930, bem como por ter traduzido e organizado uma edi\u00e7\u00e3o das obras completas de Arist\u00f3teles em doze volumes, em parceria com John Alexander Smith.<\/p>\n\n\n\n<p><em>The Right and The Good<\/em> \u00e9, junto com <em>Principia Ethica <\/em>(publicado em 1903), de George Edward (G. E.) Moore (1873 \u2013 1958), um dos mais importantes livros de filosofia moral escritos em l\u00edngua inglesa no s\u00e9culo XX, e se caracteriza por uma abordagem deontol\u00f3gica e pluralista do intuicionismo moral, distinguindo-se dessa forma do tratamento mais consequencialista de Moore. Um sinal da relev\u00e2ncia de ambos os livros \u00e9 dado pelo fato de ainda estarem dispon\u00edveis \u00e0 venda \u2013 no caso do livro de Ross, a <em>Oxford University Press <\/em>mant\u00e9m os direitos autorais da edi\u00e7\u00e3o, ao passo que o de Moore j\u00e1 se encontra gratuitamente em v\u00e1rios <em>websites<\/em>. Infelizmente, o livro de Ross n\u00e3o foi traduzido para o portugu\u00eas, diferentemente do de Moore.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large\"><a href=\"https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/wdross-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"166\" height=\"220\" src=\"https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/wdross-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2907\"\/><\/a><figcaption><meta http-equiv=\"content-type\" content=\"text\/html; charset=utf-8\"> W. D. Ross<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Jonathan Dancy, em artigo escrito sobre os deveres morais <em>prima facie<\/em> publicado no <em>Companion to Ethics<\/em> organizado por Peter Singer (1993), afirma que o que se espera de uma teoria moral \u00e9 que ela apresente alguns princ\u00edpios b\u00e1sicos, sua justificativa, e uma indica\u00e7\u00e3o de como derivar outros princ\u00edpios daqueles b\u00e1sicos, e oferece o utilitarismo como um exemplo simples, j\u00e1 que o princ\u00edpio de maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade \u00e9 o \u00fanico b\u00e1sico. Em seguida, ele afirma que no pensamento moral de Ross n\u00e3o h\u00e1 uma teoria propriamente dita: n\u00e3o h\u00e1 a defini\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios b\u00e1sicos (n\u00e3o existe um princ\u00edpio mais b\u00e1sico do que outro), e mesmo os que Ross sugere n\u00e3o s\u00e3o coerentes entre si.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Ross, tanto o kantianismo quanto o utilitarismo s\u00e3o teorias morais monistas que n\u00e3o oferecem um guia adequado para a a\u00e7\u00e3o \u00e9tica das pessoas, e existem muitas coisas importantes para as pessoas (n\u00e3o somente o dever ou a felicidade). Assim, ele sugere a ideia de um dever \u00e0 primeira vista (<em>prima facie duty<\/em>), afirmando que muito do que as pessoas fazem deve ser devidamente colocado num contexto. Alguns exemplos desses deveres s\u00e3o: ajudar os outros, manter nossas promessas, pagar por atos passados de bondade e n\u00e3o decepcionar as pessoas que contam conosco. Entretanto, Ross n\u00e3o apresenta uma lista completa desses deveres, sugerindo apenas alguns: os deveres de fidelidade (manter promessas), repara\u00e7\u00e3o (corrigir atos errados), de gratid\u00e3o (pelos atos de bondade de outras pessoas), da justi\u00e7a, da benefic\u00eancia, de auto-melhoramento (<em>self-improvement<\/em>, por meio da educa\u00e7\u00e3o ou da pr\u00e1tica), e da n\u00e3o-malefic\u00eancia (<em>non-maleficence<\/em>, de n\u00e3o prejudicar os outros). Como se pode ver, alguns desses deveres apresentam not\u00e1vel paralelo com as virtudes aristot\u00e9licas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses deveres s\u00e3o justificados por conta de uma forte presun\u00e7\u00e3o de que devemos agir com base neles. Por exemplo, Ross afirma que s\u00f3 se pode descumprir uma promessa se houver alguma obriga\u00e7\u00e3o moral mais forte do que o dever de mant\u00ea-la. Assim, os deveres \u00e0 primeira vista s\u00e3o antes guias de conduta (<em>guidelines<\/em>) do que deveres propriamente ditos. Ou, como Dancy observa, em cada situa\u00e7\u00e3o existem aspectos que contam em favor de cumprir com seu dever e outros que funcionam como obst\u00e1culos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um aspecto interessante, mas que dificulta a tomada de decis\u00e3o, \u00e9 o de que, de acordo com Ross \u00e9 relativamente f\u00e1cil saber quais s\u00e3o os nossos deveres, mas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples definir qual seria o dever mais apropriado em uma situa\u00e7\u00e3o. Por exemplo, devemos honrar nossas promessas e devemos ajudar as outras pessoas: o que fazer quando manter a promessa beneficia uma pessoa, mas causa preju\u00edzos ou danos a outra? Para isso, somente uma epistemologia moral que nos ajude a acumular conhecimentos sobre o que fazer pode solucionar o dilema.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed reside outro paralelo com a \u00e9tica da virtude, pois somente a pr\u00e1tica habitual da virtude pode realmente nos ensinar como agir \u2013 e mesmo assim o virtuoso em determinada situa\u00e7\u00e3o pode ser muito diferente do que foi virtuoso em outra. O conhecimento sobre os bons atos \u00e9 essencial para poder pratic\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito mais poderia ser dito sobre as ideias de Ross e seus deveres \u00e0 primeira vista \u2013 inclusive algumas cr\u00edticas bastante severas. Mas este pequeno artigo tem apenas a fun\u00e7\u00e3o de chamar a aten\u00e7\u00e3o para esse autor pouco conhecido no Brasil e de apresentar uma deontologia contextualizada, em que os atos s\u00e3o praticados por deveres que precisam ser entendidos \u00e0 luz da situa\u00e7\u00e3o, como na defini\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o como virtuosa.;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sir William David Ross (1877 \u2013 1941), mais conhecido como W. D. 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