{"id":2887,"date":"2021-04-27T10:34:41","date_gmt":"2021-04-27T13:34:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=2887"},"modified":"2021-04-27T10:36:31","modified_gmt":"2021-04-27T13:36:31","slug":"moral-dilemmas-in-the-light-of-rosalind-hursthouses-virtue-ethics","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/moral-dilemmas-in-the-light-of-rosalind-hursthouses-virtue-ethics\/2021\/","title":{"rendered":"Dilemas morais \u00e0 luz da \u00c9tica das Virtudes de Rosalind Hursthouse"},"content":{"rendered":"\n<p>Ao longo da vida estamos sempre sendo testados do ponto de vista de nosso car\u00e1ter, quando fazemos escolhas, agimos ou refletimos sobre a nossa trajet\u00f3ria. Agir de forma correta, seja no meio profissional ou familiar, requer um exerc\u00edcio di\u00e1rio de h\u00e1bitos virtuosos, com vistas a alcan\u00e7ar a excel\u00eancia em quem somos e na forma que agimos para com os demais. Nesse caminho, podemos nos deparar com escolhas extremamente desafiadoras do ponto de vista moral, tais quais os dilemas morais.<\/p>\n\n\n\n<p>O tratamento de dilemas \u00e9tico\/morais pelos estudos em Administra\u00e7\u00e3o tem ganhado evid\u00eancia, especialmente com a crescente complexidade das quest\u00f5es administrativas, sociais e globais que t\u00eam afetado o contexto brasileiro. Em se tratando de algo relacionado \u00e0 conduta \u00e9tica das pessoas, torna-se relevante esclarecer quais seriam os fundamentos \u00e9tico-normativos acolhedores dos estudos sobre dilemas morais, sabendo-se da predomin\u00e2ncia da \u00e9tica normativa deontol\u00f3gica e utilitarista no campo da Administra\u00e7\u00e3o, com o crescimento da \u00e9tica das virtudes acontecendo somente nos \u00faltimos 30 anos. Essa predomin\u00e2ncia coexistiu no campo da filosofia moral, at\u00e9 as discuss\u00f5es iniciadas por Elizabeth Anscombe (1958) argumentarem sobre as limita\u00e7\u00f5es deontol\u00f3gicas e utilitaristas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre fil\u00f3sofos contempor\u00e2neos que reinterpretam a \u00e9tica das virtudes de ra\u00edzes aristot\u00e9licas, encontramos Rosalind Hursthouse, a qual discute a \u00e9tica normativa subjacente aos dilemas morais. Assim, procuro apresentar neste artigo alguns dos argumentos elencados por Hursthouse, em seu livro <em>On Virtues Ethics<\/em>, publicado em 1999, para tecer uma resposta preliminar \u00e0 seguinte pergunta: <strong>como abordar dilemas morais a partir da tradi\u00e7\u00e3o da \u00e9tica das virtudes?<\/strong> Para fazer isso, recorro \u00e0s ideias de Hursthouse (1999) sobre dilemas morais, bem como em seu entendimento sobre o papel da \u00e9tica normativa das virtudes, frente as perspectivas deontol\u00f3gicas e utilitaristas.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiramente, cabe destacar que Hursthouse (1999) n\u00e3o sugere uma necess\u00e1ria diferencia\u00e7\u00e3o entre as \u00e9ticas normativas deontol\u00f3gicas, utilitaristas e das virtudes, mas comenta que h\u00e1 elementos n\u00e3o abordados nas duas primeiras, como motiva\u00e7\u00e3o, emo\u00e7\u00f5es e car\u00e1ter, e que s\u00e3o considerados pela \u00e9tica das virtudes. Para a autora, uma \u00e9tica normativa n\u00e3o trata somente do procedimento decis\u00f3rio e deveria ser capaz de acessar nossa experi\u00eancia moral por completo. Sua abordagem \u00e9 conhecida como sendo baseada na <strong>qualifica\u00e7\u00e3o do agente<\/strong>, ou seja, \u201cuma a\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada correta e virtuosa se e somente se \u00e9 o que um <strong>agente virtuoso caracteristicamente<\/strong> faria em uma circunst\u00e2ncia compar\u00e1vel\u201d (Sison &amp; H\u00fchn, 2018, p. 167).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, uma distin\u00e7\u00e3o not\u00e1vel na considera\u00e7\u00e3o de dilemas morais \u00e9 que Hursthouse (1999) destaca a import\u00e2ncia da pergunta que se faz, para analisar um dilema moral. \u201cDilemas morais s\u00e3o geralmente definidos em termos deontol\u00f3gicos, como criados por princ\u00edpios ou regras conflitantes, as quais geram requerimentos conflitantes em uma dada situa\u00e7\u00e3o\u201d (Hursthouse, 1999, p. 43).<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de um dilema moral resol\u00favel (aquele em que \u00e9 poss\u00edvel definir qual seria a escolha entre <em>x<\/em> e <em>y<\/em>), as abordagens centradas na a\u00e7\u00e3o, tal qual a deontologia e o utilitarismo, costumam fazer a seguinte pergunta: \u201cqual \u00e9 o ato correto nesse caso, <em>x<\/em> ou <em>y<\/em>?\u201d. Hursthouse (1999) atenta para alguns problemas dessas abordagens. Primeiro, que geralmente, ao menos em seu campo, n\u00e3o se menciona o res\u00edduo ou resqu\u00edcio moral vivenciado pelos agentes: remorso, arrependimento e culpa por ter optado por uma ou outra op\u00e7\u00e3o. Segundo, alega que a escolha for\u00e7ada entre dois cursos de a\u00e7\u00e3o ou entre duas pessoas \u00e9 sinal de fal\u00e1cia ou falso dilema. Isto porque, segundo a autora, os agentes, no momento que deliberam, ponderam sobre v\u00e1rios fatores em jogo, podendo chegar a uma op\u00e7\u00e3o diferente, como nenhum, nem outro.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e9tica das virtudes, por sua vez, \u00e9 centrada no agente e nos aspectos constituintes da natureza humana, e por isso Hursthouse (1999) sugere se fazer a seguinte pergunta:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>\u201cO que um agente virtuoso, caracteristicamente, faria nessas circunst\u00e2ncias?\u201d Essa pergunta abre a possibilidade de algu\u00e9m considerar mais do que dois caminhos de a\u00e7\u00e3o, e se consideramos outros pressupostos da \u00e9tica das virtudes, pode-se esperar que o agente considere quem ele vai se tornar ao tomar determinada decis\u00e3o, como isso se encaixa em sua trajet\u00f3ria de vida tomada como um todo, como essa decis\u00e3o e posterior a\u00e7\u00e3o ser\u00e1 realizada e impactar\u00e1 demais pessoas, al\u00e9m de ponderar outras quest\u00f5es contextuais envolvidas.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Considerando as perspectivas da \u00e9tica normativa, Hursthouse (1999) descreve que geralmente a literatura de base deontol\u00f3gica e utilitarista busca oferecer um procedimento de decis\u00e3o que serviria como um guia para a a\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o \u00e9 algo almejado pela abordagem da \u00e9tica das virtudes. Esta prefere reconhecer a necessidade da sabedoria moral ou <em>phronesis<\/em>, especialmente para a resolu\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es dif\u00edceis.<\/p>\n\n\n\n<p>Hursthouse (1999) reconhece as cr\u00edticas recebidas pela abordagem da \u00e9tica das virtudes, uma delas alegadas pelos utilitaristas, segundo os quais a \u00e9tica das virtudes \u00e9 inadequada para prover um guia para a a\u00e7\u00e3o. A resposta de Hursthouse (1999) envolve considerar as virtudes (e v\u00edcios) como guias de a\u00e7\u00e3o \u2013 <em>v-rules<\/em> \u2013 tais como, \u201cfa\u00e7a o que \u00e9 honesto\u201d; \u201cn\u00e3o fa\u00e7a o que \u00e9 desonesto\u201d, juntamente com o julgamento realizado pela virtude da <em>phronesis<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Hursthouse (1999) destaca outra diferen\u00e7a entre as \u00e9ticas normativas. Na filosofia moral moderna tem se adotado o pressuposto da unicidade da a\u00e7\u00e3o correta \u2013 <em><strong>right reason<\/strong><\/em> -, dando a entender que apenas um curso de a\u00e7\u00e3o \u00e9 o mais acertado em determinada circunst\u00e2ncia. Segundo a perspectiva de Hursthouse (1999), o foco da \u00e9tica das virtudes est\u00e1 em se agimos bem \u2013 <em>good action<\/em> ou <em>eupraxia<\/em> \u2013 o modo como agimos em data circunst\u00e2ncia, ou seja, corajosamente, responsavelmente, honestamente, sabiamente. Al\u00e9m disso, n\u00e3o necessariamente duas pessoas distintas v\u00e3o fazer a mesma escolha diante de um mesmo dilema moral, a depender da experi\u00eancia de vida, cren\u00e7as e valores de cada um. \u00c0s vezes algu\u00e9m pode estar vivenciando um dilema moral irresol\u00favel, ou ainda tr\u00e1gico, para o qual nenhuma das decis\u00f5es \u00e9 cab\u00edvel. O foco na a\u00e7\u00e3o boa ou <em>eupraxia<\/em> \u00e9 uma ideia alinhada com o entendimento de Hursthouse (1999) de agente virtuoso: aquele que age caracteristicamente de forma virtuosa, com base em tra\u00e7os do seu car\u00e1ter, dirigindo-se para o alcance da <em>eudaimonia<\/em>, ou florescimento humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, Hursthouse (1999) re\u00fane considera\u00e7\u00f5es que nos permitem vislumbrar um modo de abordar dilemas morais \u00e0 luz da \u00e9tica das virtudes, academicamente e na pr\u00e1tica. Conforme seu pensamento, o cultivo das virtudes e o distanciamento dos v\u00edcios podem oferecer princ\u00edpios ou guias para a\u00e7\u00e3o, especialmente quando um agente virtuoso enfrenta situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis ou dilemas e precisa chegar a uma boa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<style>.wp-block-kadence-advancedheading.kt-adv-heading_023e51-36, .wp-block-kadence-advancedheading.kt-adv-heading_023e51-36[data-kb-block=\"kb-adv-heading_023e51-36\"]{font-style:normal;}.wp-block-kadence-advancedheading.kt-adv-heading_023e51-36 mark.kt-highlight, .wp-block-kadence-advancedheading.kt-adv-heading_023e51-36[data-kb-block=\"kb-adv-heading_023e51-36\"] mark.kt-highlight{font-style:normal;color:#f76a0c;-webkit-box-decoration-break:clone;box-decoration-break:clone;padding-top:0px;padding-right:0px;padding-bottom:0px;padding-left:0px;}.wp-block-kadence-advancedheading.kt-adv-heading_023e51-36 img.kb-inline-image, .wp-block-kadence-advancedheading.kt-adv-heading_023e51-36[data-kb-block=\"kb-adv-heading_023e51-36\"] img.kb-inline-image{width:150px;vertical-align:baseline;}<\/style>\n<h4 class=\"kt-adv-heading_023e51-36 wp-block-kadence-advancedheading\" data-kb-block=\"kb-adv-heading_023e51-36\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Anscombe, G. E. M. (1958). Modern moral philosophy. <strong>Philosophy, 33<\/strong>(124), 1\u201316. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1017\/S0031819100037943\">https:\/\/doi.org\/10.1017\/S0031819100037943<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Hursthouse, R. (1999). <strong>On Virtue Ethics<\/strong>. New York: Oxford University Press Inc.<\/p>\n\n\n\n<p>Sison, A. J. G., &amp; H\u00fchn, N. (2018). Practical Wisdom in corporate governance. In A. J. G. Sison, I. Ferrero, &amp; G. Guiti\u00e1n (Eds.), <strong>Business ethics: A virtue ethics and common good approach<\/strong> (pp. 165\u2013186). New York, NY: Routledge.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo da vida estamos sempre sendo testados do ponto de vista de nosso car\u00e1ter, quando fazemos escolhas, agimos ou refletimos sobre a nossa trajet\u00f3ria. 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