{"id":2858,"date":"2021-03-18T21:31:21","date_gmt":"2021-03-19T00:31:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=2858"},"modified":"2021-03-18T21:50:29","modified_gmt":"2021-03-19T00:50:29","slug":"returning-to-aristotle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/returning-to-aristotle\/2021\/","title":{"rendered":"Retornando \u00e0 Arist\u00f3teles"},"content":{"rendered":"\n<p>Nesse artigo, convido o leitor a retornar \u00e0 filosofia cl\u00e1ssica de Arist\u00f3teles. Proponho discutir aqui as concep\u00e7\u00f5es de <strong>alma, felicidade, virtudes e pol\u00edtica<\/strong>. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 explic\u00e1-las resumidamente, para facilitar o entendimento. Como refer\u00eancia te\u00f3rica, utilizou-se o livro de Reale e Antiseri (2003), sobre a \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Hist%C3%B3ria-Filosofia-Pag%C3%A3-Antiga\/dp\/8534919704\/ref=sr_1_2?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;dchild=1&amp;keywords=hist%C3%B3ria+da+filosofia+giovanni+reale&amp;qid=1615991567&amp;sr=8-2\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Hist\u00f3ria da Filosofia<\/a>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Arist\u00f3teles, no mundo em que vivemos, existem seres animados e inanimados. A alma \u00e9 a caracter\u00edstica principal dos animados, diferenciando-os dos inanimados. Em sua viv\u00eancia, esses seres possuem mat\u00e9ria e forma \u2013 duas concep\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas. A mat\u00e9ria \u00e9 a pot\u00eancia para a vida, enquanto a forma \u00e9 o ato. O corpo material humano tem pot\u00eancia para a vida, mas n\u00e3o \u00e9 vida, porque sua vida est\u00e1, em ato, na alma.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa concep\u00e7\u00e3o, Arist\u00f3teles prop\u00f5e a divis\u00e3o da alma em tr\u00eas partes. Elas s\u00e3o formas de lidar com os tr\u00eas tipos de fen\u00f4menos b\u00e1sicos da vida: a) de car\u00e1ter vegetativo, como reprodu\u00e7\u00e3o e nutri\u00e7\u00e3o; b) de car\u00e1ter sensitivo, como sensa\u00e7\u00e3o e movimento; e c) de car\u00e1ter intelectivo, como o conhecimento e a delibera\u00e7\u00e3o. Para regular essas fun\u00e7\u00f5es, respectivamente, a alma se divide em: a) alma vegetativa; b) alma sensitiva; e c) alma intelectiva. Os diferentes seres vivos possuem diferentes combina\u00e7\u00f5es de alma. As plantas possuem somente a alma vegetativa; os animais possuem vegetativa e sensitiva; e o ser humano possui as tr\u00eas \u2013 vegetativa, sensitiva e intelectiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong>alma vegetativa<\/strong> \u00e9 elementar para a vida, regula as atividades biol\u00f3gicas b\u00e1sicas como a nutri\u00e7\u00e3o e a reprodu\u00e7\u00e3o. Na nutri\u00e7\u00e3o, o ser assimila algo diferente dele, a\u00e7\u00e3o mediada pelo calor, possibilitada pela alma. Tamb\u00e9m guiada pela alma vegetativa, os seres realizam a reprodu\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o principal objetivo biol\u00f3gico da vida. Ambas as fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o essenciais para todos os seres vivos animados.<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong>alma sensitiva<\/strong> regula tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es dos seres vivos: as sensa\u00e7\u00f5es, os apetites e o movimento. Para a fun\u00e7\u00e3o da <strong>sensa\u00e7\u00e3o<\/strong>, os corpos vivos possuem a capacidade de sentir (pot\u00eancia). Os sentidos assimilam a forma do objeto sens\u00edvel, assim, transformando pot\u00eancia em ato. Por consequ\u00eancia da sensa\u00e7\u00e3o, os seres adquirem mem\u00f3rias e as acumulam, formando sua experi\u00eancia. Alguns seres podem obter sensa\u00e7\u00f5es de prazer e dor, e ao experiment\u00e1-las, t\u00eam o <strong>apetite<\/strong> ou o desejo de buscar o prazer. O <strong>movimento<\/strong> dos seres acontece a partir dos seus desejos, motor dessa opera\u00e7\u00e3o. Os seres se movimentam pelo objeto desejado, captado pelas sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Na <strong>alma intelectiva<\/strong> s\u00e3o operadas as fun\u00e7\u00f5es racionais exclusivas ao ser humano. No ato sens\u00edvel, s\u00e3o assimiladas as formas sens\u00edveis, por\u00e9m, no ato intelectivo, s\u00e3o assimiladas as formas intelig\u00edveis. Elas existem por conta pr\u00f3pria, s\u00e3o formas puras. Para obter o <strong>conhecimento<\/strong> intelectivo, necessita-se de intelig\u00eancia. Ao captar essas formas, usando a intelig\u00eancia, o ser humano as possui como conhecimento. Arist\u00f3teles, assim, divide o intelecto em dois \u2013 o<strong> intelecto passivo<\/strong>, que \u00e9 apenas pot\u00eancia de conhecer as formas puras, e o <strong>intelecto ativo<\/strong>, que capta a forma e transforma sua imagem em um conceito possu\u00eddo. Com base no conhecimento captado, tornam-se poss\u00edveis as <strong>delibera\u00e7\u00f5es e escolhas<\/strong>. O intelecto ativo \u201cvem de fora\u201d, mas permanece \u201cna alma\u201d. Para o fil\u00f3sofo, a origem do intelecto transcende o corpo sens\u00edvel, configurando uma dimens\u00e3o espiritual. Por\u00e9m, o intelecto est\u00e1 na alma, tornando o humano capaz de utiliz\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na obra \u201cCi\u00eancias Pr\u00e1ticas\u201d, Arist\u00f3teles estuda a conduta e o fim a ser atingido pelo homem. Para analisar o homem como indiv\u00edduo, o fil\u00f3sofo estudou a \u201c\u00e9tica\u201d; considerando-o como parte da sociedade, estudou a \u201cpol\u00edtica\u201d. Todas as a\u00e7\u00f5es do ser humano tendem aos \u201cfins\u201d que s\u00e3o \u201cbens\u201d. Dessa forma, h\u00e1 um \u201cfim \u00faltimo\u201d do ser humano, que \u00e9 o \u201cbem supremo\u201d chamado de <strong>felicidade<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Arist\u00f3teles apresenta tr\u00eas defini\u00e7\u00f5es insuficientes de felicidade: a) felicidade como prazer, que seria uma vida \u201cdigna dos animais\u201d; b) felicidade como honra (ou sucesso, nos tempos atuais), que seria insuficiente por ser consequ\u00eancia do reconhecimento dos outros; c) e, por fim, felicidade como obten\u00e7\u00e3o de riquezas, que seria uma vida absurda, porque riquezas s\u00e3o meios e n\u00e3o fins.<\/p>\n\n\n\n<p>Como alternativa \u00e0s concep\u00e7\u00f5es falhas de felicidade, Arist\u00f3teles apresenta sua proposta. Para o fil\u00f3sofo, a felicidade consiste naquilo que diferencia o ser humano de outros seres vivos. Assim, n\u00e3o se encontra no simples viver (alma vegetativa) ou nas sensa\u00e7\u00f5es (alma sensitiva). O ser humano que deseja viver bem, ou seja, feliz, <strong>dever\u00e1 viver de acordo com a raz\u00e3o<\/strong> (alma intelectiva). A felicidade consiste em viver segundo os valores da alma intelectiva, que dever\u00e1 ser dominante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras almas.<\/p>\n\n\n\n<p>A alma vegetativa, por ser elementar e biol\u00f3gica, n\u00e3o participa da raz\u00e3o. A alma sensitiva, por sua vez, participa, possuindo o dever de obedecer a raz\u00e3o. Para poder dominar essa parte da alma, Arist\u00f3teles apresenta as <strong>virtudes \u00e9ticas<\/strong>, direcionadas ao comportamento pr\u00e1tico. Essas virtudes permitem que a raz\u00e3o domine os impulsos, buscando a \u201cjusta medida\u201d ou \u201cmeio-termo\u201d entre os dois extremos: o excesso e a aus\u00eancia das paix\u00f5es. As virtudes \u00e9ticas, por serem pr\u00e1ticas, s\u00e3o adquiridas com o h\u00e1bito, ou seja, com a repeti\u00e7\u00e3o de atos sucessivos. Com esses h\u00e1bitos, torna-se poss\u00edvel o dom\u00ednio do sens\u00edvel pela raz\u00e3o, aproximando o homem da felicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das virtudes pr\u00e1ticas, para Arist\u00f3teles, existem tamb\u00e9m as virtudes contemplativas, chamadas de <strong>diano\u00e9ticas<\/strong>. Essas s\u00e3o adquiridas pelas atividades da alma intelectiva, puramente reflexiva, ou seja, n\u00e3o \u00e9 pr\u00e1tica. Essas virtudes aproximam o ser humano do conhecimento das verdades imut\u00e1veis e do Bem \u00faltimo. Para aplicar esses conhecimentos \u00e0 realidade concreta, utiliza-se a <strong>sabedoria<\/strong>, que governa a moralidade, determinando os meios para realizar os atos. De maneira alternativa, quando o fim \u00e9 somente contemplativo, utiliza-se a <strong>sapi\u00eancia<\/strong>, que leva o ser humano a entrar em contato com o divino, resultando na m\u00e1xima felicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao considerar o ser humano como parte da sociedade, Arist\u00f3teles o define como um \u201c<strong>animal pol\u00edtico<\/strong>\u201d. O homem pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 apenas racional, mas tamb\u00e9m possui direitos pol\u00edticos. Assim, Arist\u00f3teles limita a dimens\u00e3o pol\u00edtica do homem \u00e0queles que gozam dos privil\u00e9gios pol\u00edticos. Para ser cidad\u00e3o \u00e9 preciso participar da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, o que exclui camadas da sociedade como colonos, oper\u00e1rios e escravos. Ressalta-se que os escravos eram considerados como instrumentos para a produ\u00e7\u00e3o de bens, condicionados \u00e0 essa fun\u00e7\u00e3o por natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>O fil\u00f3sofo Arist\u00f3teles apresenta <strong>diferentes formas de constitui\u00e7\u00e3o do Estado<\/strong> \u2013 estrutura que dita a ordem da Cidade, estabelecendo seu funcionamento. Essa estrutura seria determinada por <strong>quem governa<\/strong>, dividindo-se em tr\u00eas op\u00e7\u00f5es: 1) por um s\u00f3; 2) por poucos; e 3) pela maioria. Al\u00e9m disso, depende da <strong>inten\u00e7\u00e3o<\/strong> do governante, dividindo-se em duas possibilidades de governar: a) para o bem comum; b) para o interesse pr\u00f3prio. Assim, apresenta-se as seguintes formas de Estado: 1) Monarquia (por um s\u00f3, para o bem comum); 2) Aristocracia (por poucos, para o bem comum); 3) Rep\u00fablica (ou <em>polit\u00e9ia<\/em>\u00b8 pela maioria, para o bem comum); 4) Tirania (por um, para o interesse pr\u00f3prio); 5) Oligarquia (por poucos, para o interesse pr\u00f3prio); e, por fim 6) Demagogia (pela maioria, para o interesse pr\u00f3prio). Dentre essas possibilidades de Estado, Arist\u00f3teles considerava como melhor as duas primeiras. Por\u00e9m, considerando a vida concreta, acreditava ser melhor a Rep\u00fablica, dada a natureza do homem.<\/p>\n\n\n\n<p>A finalidade do Estado, para Arist\u00f3teles, \u00e9 aumentar as virtudes. Na mesma medida em que s\u00e3o avaliadas as virtudes do ser humano, tamb\u00e9m ser\u00e3o avaliadas as virtudes do Estado. Assim, a <strong>Cidade perfeita e feliz<\/strong> \u00e9 a Cidade virtuosa. Nesse sentido, o fil\u00f3sofo faz uma s\u00e9rie de <strong>recomenda\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas<\/strong>, para que a Cidade alcance a \u201cjusta medida\u201d: a) popula\u00e7\u00e3o equilibrada; b) territ\u00f3rios suficientes; c) cidad\u00e3o dever\u00e1 ter caracter\u00edsticas gregas, que s\u00e3o o interm\u00e9dio entre n\u00f3rdicos e orientais; d) cidad\u00e3os devem ser guerreiros quando jovens e sacerdotes quando velhos, para aproveitar a for\u00e7a jovem e a sabedoria idosa; e) educar o cidad\u00e3o singular para aumentar suas virtudes. Al\u00e9m da pr\u00e1tica, Arist\u00f3teles argumenta que o <strong>ideal supremo do Estado<\/strong> \u00e9 viver em paz e fazer as coisas belas. As a\u00e7\u00f5es da cidade dever\u00e3o ser feitas com a finalidade de estabelecer a paz e a liberdade. Com isso, possibilita-se a realiza\u00e7\u00e3o de coisas belas, ou seja, a contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Reale, G., &amp; ANTISERI, D. (2003). Hist\u00f3ria da filosofia: filosofia pag\u00e3 antiga.&nbsp;<em>S\u00e3o Paulo: Paulus<\/em>,&nbsp;<em>1<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesse artigo, convido o leitor a retornar \u00e0 filosofia cl\u00e1ssica de Arist\u00f3teles. Proponho discutir aqui as concep\u00e7\u00f5es de alma, felicidade, virtudes e pol\u00edtica. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 explic\u00e1-las resumidamente, para facilitar o entendimento. Como refer\u00eancia te\u00f3rica, utilizou-se o livro de Reale e Antiseri (2003), sobre a \u201cHist\u00f3ria da Filosofia\u201d. 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