{"id":2488,"date":"2020-10-26T16:35:27","date_gmt":"2020-10-26T19:35:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=2488"},"modified":"2021-02-23T20:40:31","modified_gmt":"2021-02-23T23:40:31","slug":"honor-a-forgotten-virtue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/honor-a-forgotten-virtue\/2020\/","title":{"rendered":"Honra: uma virtude esquecida?"},"content":{"rendered":"\n<p>Arist\u00f3teles, em seus dois livros sobre a \u00e9tica e seu tratado sobre a pol\u00edtica, trata menos sobre a honra do que sobre outras virtudes; Mesquita (2014) aponta que, embora o fil\u00f3sofo grego reconhe\u00e7a a import\u00e2ncia social da honra e da vergonha, estes n\u00e3o s\u00e3o temas de sua predile\u00e7\u00e3o. O quadro das virtudes apresentado na <strong>\u00c9tica a Eudemo<\/strong>, Livro II, n\u00e3o a coloca; na <strong>\u00c9tica a Nic\u00f4maco<\/strong>, a honra \u00e9 vista como algo que os seres humanos buscam em suas vidas, mas n\u00e3o corresponde \u00e0 verdadeira felicidade, e tanto nela quanto na <strong>Pol\u00edtica <\/strong>v\u00ea-se que o homem pol\u00edtico deseja ser reconhecido, e esse reconhecimento envolve ser honrado pelos cidad\u00e3os da <em>polis<\/em>. Um sinal de que a honra n\u00e3o seria t\u00e3o importante para Arist\u00f3teles quanto outras virtudes reside no fato de que ele define um ato honroso como aquele que n\u00e3o traz vergonha ao agente (MESQUITA, 2014) \u2013 a defini\u00e7\u00e3o se d\u00e1 por uma simples contraposi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Como observa Ramos (2019), os fil\u00f3sofos latinos (sobretudo C\u00edcero) deram algum destaque para a quest\u00e3o, que seria recolocada por S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, na <strong>Suma Teol\u00f3gica<\/strong>, em que as honras devidas aos seres humanos n\u00e3o devem ser confundidas com aquela que se deve a Deus, e as colocou em rela\u00e7\u00e3o com a justi\u00e7a. Entretanto, posteriormentea honra parece ter sido um tema para romancistas e escritores populares, mas n\u00e3o uma preocupa\u00e7\u00e3o significativa para a filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, mais recentemente, a honra parece ter se tornado um tema relevante de estudo filos\u00f3fico. Stewart (1994) aponta a publica\u00e7\u00e3o em 1965 de um livro editado pelo antrop\u00f3logo J. G. Peristany, <strong>Honor and Shame: The Values of Mediterranean Society<\/strong>, como o in\u00edcio de uma \u201conda\u201d de estudos sobre a honra, sobretudo na hist\u00f3ria e na antropologia. Hannah Arendt (1991) lembrou o conceito em seu livro <strong>A Condi\u00e7\u00e3o Humana<\/strong>, em que critica a identifica\u00e7\u00e3o entre as esferas social e pol\u00edtica e lamenta que a honra e o reconhecimento dignos do homem pol\u00edtico tenham perdido espa\u00e7o para a riqueza (AGUIAR, 2004).Mais recentemente, em 2010, o fil\u00f3sofo Kwame Anthony Appiah publicou seu livro <strong>The Honor Code: How Moral Revolutions Happen<\/strong>, traduzido para o portugu\u00eas em 2012. \u00c9 para este livro que se dedica aten\u00e7\u00e3o neste breve ensaio.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Appiah-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Appiah-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2497\" width=\"130\" height=\"178\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Appiah, nascido na Inglaterra em 1954 e filho de pais ganeses, doutorou-se em Filosofia em Cambridge, e atualmente vive nos Estados Unidos, aonde lecionou em v\u00e1rias universidades famosas, como Cornell, Duke, Yale, Harvard e Princeton (APPIAH, 2020). Atualmente exerce o cargo de <em>Professor of Philosophy and Law<\/em> na New York University. Publicou diversos livros de filosofia, bem como algumas novelas, e seus estudos envolvem a quest\u00e3o da identidade, do cosmopolitismo e da \u00e9tica. No livro que dedicou ao estudo da honra, Appiah (2012) deseja reivindicar um papel central para a honra na reflex\u00e3o sobre o que seria a boa vida, pois ela cria conex\u00f5es entre as vidas das pessoas, ajuda-nos a viver melhor nossas pr\u00f3prias vidas e a tratar as outras pessoas como devemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com esse objetivo em mente, Appiah (2012) reivindica \u00e0 honra um papel central nas revolu\u00e7\u00f5es morais, e estuda tr\u00eas casos do passado (o fim dos duelos, a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o na Gr\u00e3-Bretanha e o fim do costume chin\u00eas de enfaixar os p\u00e9s das mulheres) e um contempor\u00e2neo (os assassinatos de mulheres em nome da honra da fam\u00edlia no Paquist\u00e3o) para demonstrar que, embora os argumentos morais que condenavam essas pr\u00e1ticas fossem j\u00e1 bem conhecidos, o que realmente produziu uma mudan\u00e7a (uma revolu\u00e7\u00e3o moral, nas palavras de Appiah) foi o apelo \u00e0 honra individual, coletiva ou nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Eticamente falando, para Appiah (2012) a honra se relaciona com o respeito, tanto por si mesmo quanto pelas outras pessoas, e dessa forma se mostra como um bem humano fundamental, essencial para que se atinja a <em>Eudaimonia<\/em> buscada por Arist\u00f3teles. Para Appiah, ter honra significa ter direito a respeito; o direito a respeito, por sua vez, \u00e9 conferido por um c\u00f3digo de normas compartilhadas, \u201cum c\u00f3digo de honra [que] diz como pessoas de certas identidades podem ganhar direito a respeito, como podem perde-lo e, ainda, como o fato de ter e perder a honra muda a maneira como elas devem ser tratadas.\u201d (APPIAH, 2012, p. 180).<\/p>\n\n\n\n<p>Como se v\u00ea pela passagem acima, o respeito \u00e9 essencial na teoria da honra, e para Appiah (2012) existem dois tipos de respeito: a estima, uma considera\u00e7\u00e3o positiva por uma pessoa que atende bem certos crit\u00e9rios, e o reconhecimento, que deriva de uma determinada fun\u00e7\u00e3o desempenhada pela pessoa; por exemplo, respeitamos um bom cantor porque estimamos seu talento ao cantar, e reconhecemos um policial porque desempenha este papel na sociedade. Esses dois tipos de respeito, entretanto, n\u00e3o dependem da moral \u2013 o bom cantor e o policial n\u00e3o s\u00e3o necessariamente respeitados por seus valores morais. Assim, o respeito n\u00e3o \u00e9 associado diretamente \u00e0 excel\u00eancia moral.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o respeito que se conquista cumprindo exig\u00eancias morais \u00e9 um tipo de honra, e a moral em si demanda que reconhe\u00e7amos que todas as pessoas t\u00eam um direito fundamental ao respeito \u2013 um direito de dignidade (APPIAH, 2012). A honra \u00e9 tanto um atributo individual quanto coletivo, aplica-se tanto a uma pessoa quanto a um grupo, uma comunidade e mesmo e uma na\u00e7\u00e3o, e \u00e9 com base nessa caracter\u00edstica que Appiah defende que o fim dos duelos, a campanha pela aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, o fim da pr\u00e1tica de enfaixar os p\u00e9s das mulheres chinesas, s\u00e3o revolu\u00e7\u00f5es morais causadas pelo apelo \u00e0 honra dos cavalheiros, dos trabalhadores brit\u00e2nicos e do povo chin\u00eas. Modernamente, o apelo \u00e0 honra nacional do povo tem sido invocado para abolir os crimes de honra que vitimam as mulheres paquistanesas.<\/p>\n\n\n\n<p>A honra, para Appiah (2012), pode ser uma forma de transforma sentimentos morais privados em normas p\u00fablicas, e com isso unir as pessoas em busca de sistemas morais que produzam um mundo melhor: podem n\u00e3o apenas ajudar na busca pelo bem de todos, mas tamb\u00e9m pelo bem individual. Ela produz um sentimento de respeito pelas outras pessoas, o que ajuda a construir uma sociedade moralmente mais saud\u00e1vel. Seu argumento, ent\u00e3o, consiste em transformar a honra numa virtude essencial para a promo\u00e7\u00e3o da felicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Honrar os demais, tornar-se digno de honra, respeitar e ser respeitado evitar os sentimentos de vergonha nos planos individual e coletivo, s\u00e3o todos atos que podem nos ajudar a viver melhor. Talvez n\u00e3o produzam revolu\u00e7\u00f5es morais, como Appiah (2012) defendeu, mas, pelo menos, n\u00e3o tornar\u00e3o o mundo pior. E, para fechar o c\u00edrculo, pode-se lembrar Arist\u00f3teles: a verdadeira grandeza n\u00e3o consiste em receber honras e sim em merec\u00ea-las.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>AGUIAR, Odilio Alves. A quest\u00e3o social em Hannah Arendt. <strong>Trans\/Form\/A\u00e7\u00e3o<\/strong>, S\u00e3o Paulo, v. 27, n. 2, p. 7 \u2013 20, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p>APPIAH, Kwame Anthony. <strong>O c\u00f3digo de honra<\/strong>: como ocorrem as revolu\u00e7\u00f5es morais. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2012.<\/p>\n\n\n<p>______. Curriculum vitae. <strong>Kwame Anthony Appiah<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <http:\/\/appiah.net\/biography\/curriculumvitae\/>. Acesso em: 25 out. 2020.<\/p>\n\n\n<p>ARIST\u00d3TELES. <strong>\u00c9tica a Nic\u00f4maco<\/strong>. 4. Ed. S\u00e3o Paulo: Edipro, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>______. <strong>\u00c9tica a Eudemo<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Edipro, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>______. <strong>Pol\u00edtica<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Edipro, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>ARENDT, Hannah. <strong>A condi\u00e7\u00e3o humana<\/strong>. 5. Ed. Rio de Janeiro: Forense-Universit\u00e1ria, 1991.<\/p>\n\n\n\n<p>MESQUITA, Ant\u00f3nio Pedro. Honra e vergonha em Arist\u00f3teles. <strong>Ensaios Filos\u00f3ficos<\/strong>, v. X, p. 1 \u2013 18, dez. 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>RAMOS, Felipe de Azevedo. A virtude da dulia (honra) em Tom\u00e1s de Aquino. <strong>Trans\/Form\/A\u00e7\u00e3o<\/strong>, Mar\u00edlia, v. 42, edi\u00e7\u00e3o especial, p. 265 \u2013 290, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>STEWART, Frank Henderson. <strong>Honor<\/strong>. Chicago: Chicago University Press, 1994.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arist\u00f3teles, em seus dois livros sobre a \u00e9tica e seu tratado sobre a pol\u00edtica, trata menos sobre a honra do que sobre outras virtudes; Mesquita (2014) aponta que, embora o fil\u00f3sofo grego reconhe\u00e7a a import\u00e2ncia social da honra e da vergonha, estes n\u00e3o s\u00e3o temas de sua predile\u00e7\u00e3o. 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