{"id":2427,"date":"2020-09-21T10:52:11","date_gmt":"2020-09-21T13:52:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=2427"},"modified":"2020-09-21T11:15:58","modified_gmt":"2020-09-21T14:15:58","slug":"dostoievskis-the-brothers-karamazov-and-the-objective-morality","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/dostoievskis-the-brothers-karamazov-and-the-objective-morality\/2020\/","title":{"rendered":"Os Irm\u00e3os Karamazov de Fiodor Dostoi\u00e9vski e a moralidade objetiva"},"content":{"rendered":"\n<p>Em seu romance <em>Os Irm\u00e3os Karamazov<\/em>, escrito em 1879, Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski nos conta a hist\u00f3ria de tr\u00eas irm\u00e3os (que posteriormente se descobrem quatro), filhos do mesmo pai, mas de casamentos diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai, Fiodor Karamazov, personagem de car\u00e1ter bastante question\u00e1vel, mesmo j\u00e1 relativamente bem estabelecido, passa a vida ascendendo econ\u00f4mica e socialmente atrav\u00e9s dos dotes recebidos por seus v\u00e1rios casamentos, os quais tamb\u00e9m aplicava em uma rede de bares, sustentando assim seus costumes de <em>bon vivant<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>De seu segundo casamento, nascem o segundo e o terceiro filhos, Ivan e Aliocha. O segundo tem um car\u00e1ter extremamente d\u00f3cil e vive dentro de um mosteiro, onde deseja permanecer pelo resto da vida, mas \u00e9 ordenado por seu superior a peregrinar pela R\u00fassia e espalhar seus ensinamentos. Por conta de sua docilidade, Aliocha \u00e9 o \u00fanico membro da fam\u00edlia que possui boa rela\u00e7\u00e3o com todos os outros membros e, dada essa condi\u00e7\u00e3o, assume o posto de moderador das discuss\u00f5es familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dada ocasi\u00e3o, j\u00e1 com Aliocha fora do mosteiro, a fam\u00edlia convoca uma reuni\u00e3o, motivada principalmente por conta de Dimitri, filho primog\u00eanito de Fiodor, militar de carreira respeit\u00e1vel e com costumes que lembram muito o pai. Dimitri, para continuar sustentando os h\u00e1bitos de <em>bon vivant <\/em>herdados de seu progenitor, quer se apossar do dinheiro dos dotes das m\u00e3es, o que acredita ser seu por direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiodor nega a exig\u00eancia do primog\u00eanito, sem espa\u00e7os para questionamento, o que cria grande revolta no filho e faz com que ele afirme, em frente a toda a fam\u00edlia, que um dia assassinaria o pr\u00f3prio pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Dias depois Fiodor realmente \u00e9 assassinado, o que acarreta na pris\u00e3o e julgamento de Dimitri. Ele nega veementemente sua culpa e, para nossa discuss\u00e3o nesse momento, realmente n\u00e3o importa quem matou o patriarca da fam\u00edlia, importa uma reflex\u00e3o de Ivan e Aliocha durante o c\u00e1rcere de Dimitri.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos sabiam que Dimitri era ateu e niilista e que se intitulava como um grande intelectual, apenas n\u00e3o reconhecido. Discutindo sobre as motiva\u00e7\u00f5es do irm\u00e3o mais velhos, Ivan chega \u00e0 conclus\u00e3o de que \u201cSe Deus n\u00e3o existe, ent\u00e3o tudo \u00e9 permitido\u201d e \u201cSe Deus n\u00e3o existe, muito dificilmente o homem optaria pelo bem ao inv\u00e9s do mal e, em sendo tudo permitido, tudo fica ao crit\u00e9rio do homem\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para Dostoi\u00e9vski, Dimitri era o fil\u00f3sofo niilista por excel\u00eancia, aquele que seria capaz de levar o problema da moral at\u00e9 suas \u00faltimas consequ\u00eancias. Essa reflex\u00e3o, que foi capaz de incomodar as certezas at\u00e9 mesmo de pensadores como Sigmund Freud e Jean Paul Sartre, n\u00e3o era uma amea\u00e7a de car\u00e1ter proselitista religioso, na verdade ele afirma que na aus\u00eancia de uma fonte objetiva para a moral, a pr\u00f3pria moral n\u00e3o pode ser objetiva e deve, por contraste, ser relativa, dessa forma conceitos como \u201ccerto e errado\u201d, \u201cv\u00edcio e virtude\u201d, \u201co bem e o mal\u201d n\u00e3o poderiam existir. Dostoi\u00e9vski n\u00e3o diz que a cren\u00e7a na exist\u00eancia de Deus far\u00e1 com que as pessoas sejam boas, apenas que far\u00e1 com que as pessoas acreditam nesses conceitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa reflex\u00e3o de Dostoi\u00e9vski nasce de sua cruzada pessoal contra os niilistas russos, ancestrais dos bolcheviques e t\u00e3o duramente criticados por Friederich Nietzsche, quando este propunha seu niilismo alegre. Estes niilistas efetivamente defendiam a inexist\u00eancia de uma moral objetiva e que tudo lhes seria l\u00edcito para cumprir seu grande objetivo de reformar a sociedade russa. Eles provavelmente chancelariam, sem peso na consci\u00eancia, as 5 milh\u00f5es de mortes causadas pela revolu\u00e7\u00e3o russa, afinal por que matar seria errado, sem a moralidade objetiva, matar \u00e9 errado apenas pra quem acredita, seja pelo motivo que for, que matar \u00e9 errado e toda a moralidade n\u00e3o passa de uma opini\u00e3o. \u201cAssassinato \u00e9 errado\u201d para essa corrente, era equivalente a \u201cEu n\u00e3o gosto de assassinato\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande pergunta de Dostoi\u00e9vski era at\u00e9 que ponto uma sociedade niilista, que n\u00e3o acredita em Deus e portanto n\u00e3o acredita em moral objetiva, n\u00e3o pode simplesmente decidir um dia que todos os tabus ser\u00e3o suprimidos, decidir que o melhor para ela seja eliminar todos aqueles que s\u00e3o considerados \u201cdesnecess\u00e1rios\u201d, que s\u00e3o \u201cestorvos\u201d, como era o pai de Dimitri.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem duas formas de interpretar a afirma\u00e7\u00e3o de Ivan, mas ambas concluem que a \u00e9tica exige Deus. A primeira diz que sem Deus, n\u00e3o existe motivo algum para que o homem seja \u00e9tico, porque suas a\u00e7\u00f5es morais s\u00e3o motivadas pelo medo do castigo divino ou pela vontade ego\u00edsta de ser recompensado. J\u00e1 a segunda, mais sofisticada, diz que Deus \u00e9 a fonte da obriga\u00e7\u00e3o \u00e9tica e \u00fanica raz\u00e3o pela qual n\u00f3s devemos seguir obriga\u00e7\u00f5es \u00e9ticas \u00e9 porque algu\u00e9m, maior do que n\u00f3s, o legislador divino, nos disse que devemos.<\/p>\n\n\n\n<p>A reflex\u00e3o de Dostoi\u00e9vski n\u00e3o \u00e9 uma unanimidade, os utilitaristas dizem que devemos ser \u00e9ticos para alcan\u00e7armos a felicidade, enquanto os kantianos dizem que devemos ser \u00e9ticos porque \u00e9 isso que pede a raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ent\u00e3o, caso discordemos de Dostoi\u00e9vski, algumas quest\u00f5es precisam ser feitas:<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa felicidade ou a raz\u00e3o s\u00e3o suficientes para nos obrigar a ser \u00e9ticos?<\/p>\n\n\n\n<p>Caso sejam, na aus\u00eancia de um legislador divino, incapaz de errar, quem pode definir o que \u00e9 \u201cfelicidade\u201d ou \u201cracional\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Caso n\u00e3o sejam suficientes, e a moralidade tenha que derivar de algo maior do que n\u00f3s, mas que n\u00e3o \u00e9 Deus, o que \u00e9 esse algo? O Estado, uma ideologia, uma religi\u00e3o civil?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu romance Os Irm\u00e3os Karamazov, escrito em 1879, Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski nos conta a hist\u00f3ria de tr\u00eas irm\u00e3os (que posteriormente se descobrem quatro), filhos do mesmo pai, mas de casamentos diferentes. 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