{"id":2418,"date":"2020-09-14T22:15:08","date_gmt":"2020-09-15T01:15:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=2418"},"modified":"2021-02-23T20:37:18","modified_gmt":"2021-02-23T23:37:18","slug":"virtues-to-face-procrastination-in-quarantine-temperance-and-prudence","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/virtues-to-face-procrastination-in-quarantine-temperance-and-prudence\/2020\/","title":{"rendered":"Virtudes para enfrentar a procastina\u00e7\u00e3o em quarentena: temperan\u00e7a e prud\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>\u201c<em>Eu s\u00f3 acho que ele (o drag\u00e3o) s\u00f3 queria ser notado\u201d \u2013 disse Billy (KENT, 1975).<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como lidar com a procrastina\u00e7\u00e3o que pode surgir com os desafios da quarentena? Para responder a essa pergunta, ser\u00e1 feita uma breve reflex\u00e3o sobre as virtudes em Arist\u00f3teles. Em especial, o foco do texto ser\u00e1 em duas delas: a temperan\u00e7a e a prud\u00eancia. Busca-se <strong>compreender se essas duas virtudes podem nos ajudar a lidar com o problema da procrastina\u00e7\u00e3o em tempos de pandemia<\/strong>. Para isso, primeiro ser\u00e3o feitas algumas defini\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas. Em sequ\u00eancia, ser\u00e3o apresentadas poss\u00edveis contribui\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse texto parte da hip\u00f3tese levantada em \u201c<a href=\"https:\/\/www.admethics.com\/br\/productivity-challenges-in-quarantine-the-procrastination-problem\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Desafios Da Produtividade Em Quarentena: O Problema Da Procrastina\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d (leitura recomendada). Nessa reflex\u00e3o, foi discutida a possibilidade de a quarentena estar dificultando a produtividade das pessoas, aumentando a procrastina\u00e7\u00e3o. O ato de procrastinar \u00e9 entendido aqui como <strong>atrasar intencionalmente uma atividade, mesmo sabendo do potencial negativo disso<\/strong> (STEEL; KLINGSIECK, 2015). Ou seja, \u201cdeixar para depois\u201d mesmo que isso possa gerar coisas ruins. No cen\u00e1rio da pandemia de COVID-19, a quarentena fez com que os indiv\u00edduos passassem a produzir em casa. Essa mudan\u00e7a pode gerar empecilhos para as atividades, favorecendo a procrastina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em muitas ocasi\u00f5es, esse problema acontece sutilmente, sem ser devidamente percebido. Al\u00e9m de postergarmos as atividades, tamb\u00e9m \u00e9 deixado para depois o fato de que estamos postergando. Com isso, o problema cresce e toma propor\u00e7\u00f5es gigantescas, at\u00e9 que seja imposs\u00edvel n\u00e3o o notar.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma situa\u00e7\u00e3o parecida foi mostrada pelo cartunista Jack Kent, em seu livro infantil \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Theres-No-Such-Thing-Dragon\/dp\/0375851372\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">There\u2019s No Such Thing As a Dragon<\/a>\u201d (Drag\u00f5es N\u00e3o Existem). Protagonizada por Billy Bixbee, a ilustra\u00e7\u00e3o inicia com o garoto encontrando um pequeno drag\u00e3o em seu quarto. Assustado, ele relata o acontecido para sua m\u00e3e, que responde \u2013 \u201cDrag\u00f5es n\u00e3o existem!\u201d. A partir disso, quanto mais o drag\u00e3o \u00e9 ignorado, mais ele cresce. O drag\u00e3o aumenta tanto seu tamanho que sai voando com a casa da fam\u00edlia nas costas. Ao fim do livro, Billy mostra para seus pais que <strong>o drag\u00e3o \u201cs\u00f3 queria ser notado\u201d<\/strong>, acariciando-o. Com isso, o drag\u00e3o volta ao seu pequeno tamanho original (KENT, 1975).<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa breve hist\u00f3ria, Billy nos mostra que problemas aumentam sua propor\u00e7\u00e3o quando n\u00e3o os notamos, para evitarmos de lidar com eles. O mesmo acontece com a procrastina\u00e7\u00e3o, que pode se tornar um grande drag\u00e3o um dia antes da entrega de um trabalho, por exemplo. Para lidar com esse processo, poss\u00edveis aliadas s\u00e3o as virtudes, definidas como tra\u00e7os de car\u00e1ter admir\u00e1veis, adquiridos por experi\u00eancia (ARIST\u00d3TELES, 2014). <strong>Elas s\u00e3o h\u00e1bitos que facilitam as boas decis\u00f5es e as boas formas de agir no mundo<\/strong>. Cada virtude \u00e9 utilizada para tipos espec\u00edficos de a\u00e7\u00e3o. Para o enfrentamento da procrastina\u00e7\u00e3o, prop\u00f5e-se a utilidade da temperan\u00e7a e da prud\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A a\u00e7\u00e3o virtuosa se encontra no equil\u00edbrio entre dois v\u00edcios \u2013 o excesso e a falta de algo (mediania). No caso da temperan\u00e7a \u00e9 a pr\u00e1tica do equil\u00edbrio entre o excesso e a falta de prazeres. Portanto, est\u00e1 entre a licenciosidade \u2013 se permitir ter uma vida voltada para aproveitar prazeres e desejos carnais \u2013 e a rigidez \u2013 proibir todos os prazeres de modo r\u00edgido e intransigente (LANCTOT; IRWIN, 2010). A temperan\u00e7a est\u00e1 na parte mais b\u00e1sica da alma \u2013 se refere ao indiv\u00edduo em posse de si mesmo. Essa virtude est\u00e1 conectada diretamente com o processo de autorregula\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio para lidar com a procrastina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo que o procrastinador deixa para depois \u00e9 o sacrif\u00edcio necess\u00e1rio para completar a atividade. Ou seja, troca-se o futuro pelo presente. Nessa atitude, h\u00e1 uma falha na autorregula\u00e7\u00e3o (SCHOUWENBURG, 2004). O h\u00e1bito equilibrado e regulado \u00e9 o oposto disso, encontrando-se na pr\u00e1tica da temperan\u00e7a. <strong>O indiv\u00edduo temperante consegue restringir seus prazeres para atingir objetivos, sabendo que existem momentos certos para as coisas<\/strong>. Ele troca o presente pelo futuro de forma admir\u00e1vel. Em tempos de quarentena, o espa\u00e7o produtivo muitas vezes est\u00e1 restrito ao seu pr\u00f3prio domic\u00edlio. Nesse ambiente, novas tenta\u00e7\u00f5es e prazeres se manifestam de maneiras diferentes. A temperan\u00e7a \u00e9 a virtude que ir\u00e1 ajudar a conter esses est\u00edmulos e romper o ciclo procrastinador que atrapalha a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma etapa muito importante que acontece antes e durante o h\u00e1bito da temperan\u00e7a. Nessa etapa, \u00e9 feita a distin\u00e7\u00e3o entre o momento certo e o errado para aproveitar os prazeres. Tamb\u00e9m \u00e9 feita a decis\u00e3o entre quais prazeres s\u00e3o bons e quais s\u00e3o ruins. Realizar essa delibera\u00e7\u00e3o do modo certo faz parte da virtude da prud\u00eancia. Definida tamb\u00e9m como sabedoria pr\u00e1tica, <strong>a prud\u00eancia utiliza-se do intelecto para deliberar e realizar boas decis\u00f5es<\/strong>. Ela decide qual a melhor inten\u00e7\u00e3o, para que possamos ajustar nossa motiva\u00e7\u00e3o e realizar a a\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. A prud\u00eancia nos ajuda a escolher os meios adequados para atingir os nossos fins. \u00c9, portanto, a matriz que guia as outras virtudes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lidar com a procrastina\u00e7\u00e3o \u00e9 importante que haja prud\u00eancia. Isso porque para decidir quais prazeres s\u00e3o bons, e qual o melhor momento para eles, \u00e9 necess\u00e1rio ser prudente. A pessoa que consegue evitar a procrastina\u00e7\u00e3o parte de um conjunto de boas decis\u00f5es. Por exemplo, escolher qual a atividade produtiva adequada para o momento, decidir quais prazeres devem ser evitados para que ela possa ser feita e reconhecer quais os momentos certos para o descanso. Todas essas decis\u00f5es, e outras, precisam da prud\u00eancia. Por causa disso, a temperan\u00e7a \u00e9 guiada pela prud\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para lidar com a procrastina\u00e7\u00e3o, a prud\u00eancia levar\u00e1 o indiv\u00edduo para um planejamento equilibrado. Ao planejar uma rotina, por exemplo, o sujeito prudente delibera sobre o excesso e a falta de prazeres. A partir da defini\u00e7\u00e3o daquilo que foi planejado, cabe a temperan\u00e7a praticar a autorregula\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para atingir os objetivos. Por\u00e9m, a cada situa\u00e7\u00e3o, mesmo que durante a realiza\u00e7\u00e3o da rotina, a prud\u00eancia pode intervir para redefinir os meios e os fins. A realiza\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o dessa rotina pode resolver em grande parte o problema da procrastina\u00e7\u00e3o (DIEFENDORFF; RICHARD; GOSSERAND, 2006). Recomenda-se, para esse processo, a leitura do livro de Steel (2012), com o t\u00edtulo \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Procrastination-Equation-Putting-Things-Getting\/dp\/0061703621\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=117CV9L492YWV&amp;dchild=1&amp;keywords=the+procrastination+equation&amp;qid=1600119397&amp;s=books&amp;sprefix=the+procrastina%2Cstripbooks%2C271&amp;sr=1-1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">The Procrastination Equation<\/a>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conclus\u00e3o, prop\u00f5e-se a utilidade das virtudes temperan\u00e7a e prud\u00eancia para lidar com a procrastina\u00e7\u00e3o em quarentena. No delicado momento atual, muitas pessoas se encontram isoladas em seus domic\u00edlios. Essa mudan\u00e7a repentina afetou o dom\u00ednio da produtividade. A procrastina\u00e7\u00e3o que se atenuou precisa ser notada e enfrentada, assim como o drag\u00e3o de Billy. Nesse processo de adapta\u00e7\u00e3o e enfrentamento, a prud\u00eancia e a temperan\u00e7a podem guiar o procrastinador para uma jornada produtiva, <strong>principalmente em tempos t\u00e3o desafiadores<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>ARIST\u00d3TELES. <strong>\u00c9tica a Nic\u00f4maco<\/strong>. 4. ed. S\u00e3o Paulo: Edipro, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>DIEFENDORFF, J. M.; RICHARD, E. M.; GOSSERAND, R. H. Examination of situational and attitudinal moderators of the hesitation and performance relation. <strong>Personnel Psychology<\/strong>, v. 59, n. 2, p. 365-393, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p>KENT, J. <strong>There\u2019s No Such Thing as a Dragon<\/strong>. Western Publishing Company, 1975.<\/p>\n\n\n\n<p>LANCTOT, J. D.; IRVING, J. A. Character and leadership: Situating servant leadership in a proposed virtues framework. <strong>International Journal of Leadership Studies<\/strong>, v. 6, n. 1, p. 28-50, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>SCHOUWENBURG, H. C. et al. <strong>Counseling the procrastinator in academic settings<\/strong>. American Psychological Association, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p>STEEL, P. <strong>The Procrastination Equation<\/strong>: How to Stop Putting Things Off and Start Getting Stuff Done. Harper Perennial. 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>STEEL, Piers; KLINGSIECK, Katrin. Procrastination. In: WRIGHT, J. D., <strong>The international encyclopedia of the social &amp; behavioral sciences<\/strong>. 2 ed. Oxford: Elsevier, 2015. p. 73-78.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu s\u00f3 acho que ele (o drag\u00e3o) s\u00f3 queria ser notado\u201d \u2013 disse Billy (KENT, 1975). Como lidar com a procrastina\u00e7\u00e3o que pode surgir com os desafios da quarentena? 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