{"id":2238,"date":"2020-07-31T23:11:32","date_gmt":"2020-08-01T02:11:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=2238"},"modified":"2020-08-16T21:31:14","modified_gmt":"2020-08-17T00:31:14","slug":"prudence-in-thomas-aquinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/prudence-in-thomas-aquinas\/2020\/","title":{"rendered":"A prud\u00eancia em Tom\u00e1s de Aquino"},"content":{"rendered":"\n<p>Ao se referir \u00e0 prud\u00eancia, Tom\u00e1s de Aquino n\u00e3o remetia ao mesmo significado que hoje damos \u00e0 palavra, como um simples sin\u00f4nimo de cautela e precau\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, h\u00e1 algum resqu\u00edcio da ideia de <em>prudentia<\/em> na prud\u00eancia moderna. O prudente para Tom\u00e1s \u00e9 aquele que \u201cantev\u00ea as possibilidades que podem ocorrer na situa\u00e7\u00f5es contingentes\u201d, por\u00e9m n\u00e3o se resume somente a isso.<\/p>\n\n\n\n<p>A prud\u00eancia pertence ao campo do conhecimento, mas ela \u00e9 diferente das demais virtudes intelectuais \u2013 a sabedoria, a ci\u00eancia e o entendimento \u2013 que tratam do necess\u00e1rio. A prud\u00eancia, assim como a arte, versa sobre aquilo que \u00e9 contingente. No caso da arte, o trato se d\u00e1 com a mat\u00e9ria exterior, j\u00e1 a prud\u00eancia lida com o que pode agir, ou seja, o pr\u00f3prio agente. \u00c9 uma virtude da <em>raz\u00e3o pr\u00e1tica <\/em>e n\u00e3o da <em>raz\u00e3o especulativa. <\/em>Seu papel \u00e9 o de aplicar no agir (particular) os princ\u00edpios universais determinados pela raz\u00e3o especulativa. Ela n\u00e3o indica o fim das virtudes morais, mas sim em como se pode ocupar dos meios para atingir este fim.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o tr\u00eas os atos que a prud\u00eancia comporta: o ato de aconselhar, o ato de julgar e o ato de comandar. O primeiro \u00e9 sin\u00f4nimo de inquirir (um ato de aconselhar a si pr\u00f3prio); o segundo, o julgar, \u00e9 o ato de avaliar o que se descobriu, ato pertencente \u00e0 raz\u00e3o especulativa. O terceiro ato, o de comandar, \u00e9 onde o que foi aconselhado e julgado \u00e9 aplicado ao agir. Dos tr\u00eas atos, \u00e9 este o mais pr\u00f3ximo da raz\u00e3o pr\u00e1tica, portanto, principal ato da prud\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o fim almejado for um fim mau, fruto de mau conselho e julgamento, \u00e9 falsa a prud\u00eancia, mesmo que os meios encontrados por ela sejam os mais adequados para conseguir tal fim. Caso o fim seja bom e os meios para este fim sejam adequados, por\u00e9m o fim em quest\u00e3o \u00e9 apenas um setor fragment\u00e1rio da vida humana, n\u00e3o o fim comum \u00e0 totalidade da vida humana, \u00e9 verdadeira a prud\u00eancia, por\u00e9m imperfeita. Consequentemente, \u00e9 verdadeira e perfeita a prud\u00eancia que, relativamente ao bem da vida em sua totalidade, aconselha, julga e comanda de forma correta.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o tamb\u00e9m tr\u00eas os tipos de partes da prud\u00eancia: as<em> partes integrais, <\/em>as <em>partes subjetivas <\/em>e as<em> partes potenciais<\/em>. As partes <em>integrais<\/em> s\u00e3o aquelas necess\u00e1rias \u00e0 plenitude do ato da virtude e se dividem nas partes pertencentes \u00e0 <em>dimens\u00e3o cognoscitiva<\/em> da prud\u00eancia e em sua <em>dimens\u00e3o de comando<\/em>, onde o conhecimento \u00e9 aplicado ao agir. Fazem parte do primeiro grupo <em>a mem\u00f3ria, a raz\u00e3o, a intelig\u00eancia, a docilidade e a sagacidade<\/em>. No segundo grupo est\u00e3o presentes <em>a previd\u00eancia, a circunspec\u00e7\u00e3o e a preven\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A <em>mem\u00f3ria<\/em> \u00e9 o conhecimento em si mesmo, que se refere ao passado, a <em>intelig\u00eancia<\/em> ao presente. Para se obter tais conhecimentos \u00e9 necess\u00e1rio abertura para aprender, algo pr\u00f3prio da <em>docilidade<\/em>. Outra forma de se obter tais conhecimentos \u00e9 atravez da descoberta, que se faz pelo bem conjecturar, ou <em>eustochia, <\/em>virtude da qual a <em>sagacidade<\/em> faz parte, sendo a sagacidade o conjecturar de forma r\u00e1pida e f\u00e1cil sobre a descoberta do meio. A partir de coisas conhecidas o agente passa a julgar ou conhecer outras coisas, algo caracter\u00edstico da raz\u00e3o. A raz\u00e3o da prud\u00eancia tem origem em dois tipos de intelig\u00eancia, uma voltada para o conhecimento dos princ\u00edpios universais \u2013 tanto te\u00f3ricos, quanto pr\u00e1ticos, como o princ\u00edpio de n\u00e3o fazer mal a ningu\u00e9m \u2013 e outra intelig\u00eancia que versa sobre o singular e contingente, que no silogismo da prud\u00eancia \u00e9 quem fornece a premissa menor para a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que a raz\u00e3o possa comandar a a\u00e7\u00e3o de forma correta, \u00e9 necess\u00e1rio que esta ordene algo apropriado ao fim, fun\u00e7\u00e3o apropriada pela <em>previd\u00eancia, <\/em>parte principal da prud\u00eancia, j\u00e1 que todos os outros requisitos para a exist\u00eancia da prud\u00eancia s\u00e3o essenciais exatamente para que algo se dirija de forma reta a um fim<em>; <\/em>deve-se tamb\u00e9m considerar as circunst\u00e2ncias da situa\u00e7\u00e3o, algo pr\u00f3prio da <em>circunspec\u00e7\u00e3o; <\/em>e os obst\u00e1culos devem ser evitados, fun\u00e7\u00e3o assumida pela <em>preven\u00e7\u00e3o, <\/em>que deve procurar os bens e evitar os males<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>As partes <em>subjetivas<\/em> da prud\u00eancia s\u00e3o as suas diversas esp\u00e9cies, que se vistas em sentido pr\u00f3prio, s\u00e3o a prud\u00eancia pela qual uma pessoa dirige a si mesma e a prud\u00eancia pela qual algu\u00e9m dirige a outros \u2013 podendo haver v\u00e1rios tipos de prud\u00eancia, como a <em>prud\u00eancia militar<\/em>, a <em>prud\u00eancia de reinar, <\/em>a <em>prud\u00eancia dom\u00e9stica, <\/em>a <em>prud\u00eancia pol\u00edtica. <\/em>Em sentido amplo, incluindo a ci\u00eancia especulativa, existem tr\u00eas modos da prud\u00eancia raciocinar: a partir de premissas necess\u00e1rias, obtidas atrav\u00e9s da demonstra\u00e7\u00e3o; a partir de premissas prov\u00e1veis; e partindo de conjecturas, que induzem a uma certa suspeita.<\/p>\n\n\n\n<p>As partes anexas a uma virtude s\u00e3o chamadas de partes <em>potenciais. <\/em>No caso da prud\u00eancia, s\u00e3o anexas a ela a <em>eubulia, <\/em>que versa sobre o ju\u00edzo em relativo as coisas que acontecem de forma ordin\u00e1ria e a <em>gnome<\/em>, relativa ao ju\u00edzo sobre as situa\u00e7\u00f5es em que por vezes \u00e9 necess\u00e1rio se distanciar das leis comuns, e julgar segundo princ\u00edpios superiores a elas, j\u00e1 que \u00e9 mau o ato de cumprir uma lei injusta.<\/p>\n\n\n\n<p>Em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s partes da prud\u00eancia est\u00e3o a <em>precipita\u00e7\u00e3o<\/em> que se d\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o ao ato do conselho e cont\u00e9m a falta de docilidade, mem\u00f3ria ou raz\u00e3o; a <em>inconsider\u00e7\u00e3o <\/em>que acontece relativa ao ato do ju\u00edzo, que cont\u00e9m a falta de preven\u00e7\u00e3o e de circunspec\u00e7\u00e3o; a <em>neglig\u00eancia<\/em> &#8211; a abdica\u00e7\u00e3o do ato de escolher, onde a raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 recorrida a comandar o que (e como) deveria comandar \u2013 e a <em>inconst\u00e2ncia<\/em> que cont\u00e9m a imprevis\u00e3o, a intelig\u00eancia e sagacidade defeituosas, onde h\u00e1 uma falha da raz\u00e3o em comandar o que foi deliberado e julgado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>AQUINO, Tom\u00e1s de. A prud\u00eancia: a virtude da decis\u00e3o certa.&nbsp;<strong>Tradu\u00e7\u00e3o de Jean Lauand. Martins Fontes, S\u00e3o Paulo<\/strong>, 2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao se referir \u00e0 prud\u00eancia, Tom\u00e1s de Aquino n\u00e3o remetia ao mesmo significado que hoje damos \u00e0 palavra, como um simples sin\u00f4nimo de cautela e precau\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, h\u00e1 algum resqu\u00edcio da ideia de prudentia na prud\u00eancia moderna. 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