{"id":2230,"date":"2020-07-24T11:28:07","date_gmt":"2020-07-24T14:28:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=2230"},"modified":"2020-07-24T11:28:08","modified_gmt":"2020-07-24T14:28:08","slug":"the-utility-of-staying-at-home","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/the-utility-of-staying-at-home\/2020\/","title":{"rendered":"A utilidade de ficar em casa"},"content":{"rendered":"\n<p>Ao longo de boa parte do ano de 2020, temos ficado em casa, mesmo que n\u00e3o o desejemos. A pandemia que atingiu o mundo mostrou a incapacidade do governo no combate a problemas graves de sa\u00fade p\u00fablica, e o comportamento individual tornou-se a principal forma de evitar que a situa\u00e7\u00e3o piore. Em se tratando de comportamentos individuais, ent\u00e3o, quest\u00f5es \u00e9ticas podem ser discutidas, e meu prop\u00f3sito \u00e9 refletir brevemente sobre uma justificativa para ficar em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal justificativa \u00e9 bem simples: optamos por ficar em casa porque nos \u00e9 \u00fatil faz\u00ea-lo. Mas \u201c\u00fatil\u201d, aqui, refere-se \u00e0 corrente de filosofia moral que Jeremy Bentham criou no s\u00e9culo XVIII, John Stuart Mill aperfei\u00e7oou no XIX, e uma parte significativa dos pensadores do XX amaldi\u00e7oou: o utilitarismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como filosofia moral, o utilitarismo oferece uma explica\u00e7\u00e3o bastante simples para nossas decis\u00f5es \u00e9ticas: somos seres submetidos ao prazer e \u00e0 dor, afirmou Bentham; vivemos buscando aumentar o prazer e reduzir a dor em nossos atos, e qualquer a\u00e7\u00e3o que aumente o prazer ou diminua a dor \u00e9 boa e moralmente admiss\u00edvel. Como disse o pr\u00f3prio Bentham, no m\u00ednimo essa a\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 m\u00e1. Posto dessa maneira, o utilitarismo poderia justificar fazer o mal a outra pessoa apenas porque o agente \u00e9 um degenerado que se sente feliz ao maltratar um inocente: se o prazer daquela pessoa viesse de torturar outra, isso seria uma boa a\u00e7\u00e3o, certo?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o. Bentham deixou bem claro que o prazer da parte em quest\u00e3o \u00e9 o crit\u00e9rio para julgar moralmente sua a\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o significa que uma pessoa possa fazer tudo o que desejar, pois o utilitarismo \u00e9 uma filosofia social. \u00c9 preciso considerar n\u00e3o apenas a utilidade de um ato para si, mas tamb\u00e9m seu impacto sobre as outras pessoas, e Bentham afirma que a sociedade como um todo \u00e9 que deve ter seu prazer maximizado. Se nosso torturador se sente feliz machucando outra pessoa, e esta sente dores horr\u00edveis, o ganho de utilidade de um \u00e9 compensado pela perda e pela dor da outra pessoa, e a sociedade n\u00e3o maximiza o prazer. Assim, a f\u00f3rmula de Bentham pode ser resumida em \u201cmaior prazer para o maior n\u00famero de pessoas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante observar que o utilitarismo \u00e9 a \u00fanica das grandes correntes da filosofia moral que n\u00e3o focaliza na a\u00e7\u00e3o individual, mas nos resultados dessa a\u00e7\u00e3o para os outros. A \u00e9tica das virtudes de Arist\u00f3teles destaca o agente individual, o ser humano virtuoso porque prudente, porque encontra o \u201cjusto meio\u201d entre o excesso e a escassez, e a \u00e9tica deontol\u00f3gica de Kant sup\u00f5e um princ\u00edpio moral geral que \u00e9 do interesse do indiv\u00edduo seguir. Mas o utilitarismo, se entendido a partir de Bentham, leva-nos a agir pensando nos resultados para o bem de todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, \u00e9 verdade que o utilitarismo possui m\u00faltiplas falhas; Stuart Mill, por exemplo, criticou Bentham porque este n\u00e3o distinguia entre prazeres, e afirmava que n\u00e3o se pode comparar o prazer de comer quando se tem fome com o de discutir sobre filosofia com amigos bem informados. Mas h\u00e1 um problema na linha de racioc\u00ednio de Stuart Mill: ele considera a utilidade do indiv\u00edduo, n\u00e3o da sociedade; dito de outra maneira, uma pessoa que abrisse m\u00e3o de uma discuss\u00e3o filos\u00f3fica para se dedicar a distribuir alimentos para os famintos age conforme Bentham sugeriu, mas n\u00e3o como Stuart Mill recomendaria. \u00c9 claro que n\u00e3o se pode comparar \u201ccomer\u201d com \u201cdar de comer\u201d, mas o alimento n\u00e3o pode ser simplesmente um prazer menor, como Stuart Mill parece crer.<\/p>\n\n\n\n<p>O ser humano virtuoso ficaria em casa nesses tempos de pandemia? Talvez, mas se a virtude que mais lhe importar for a coragem, talvez ele prefira sair de casa e se expor (e expor os outros) ao cont\u00e1gio; o kantiano possivelmente ficaria em casa, mas porque veria nessa escolha uma regra geral. J\u00e1 o utilitarista benthamita ficaria em casa porque isso traria maior benef\u00edcio \u00e0 maioria.<\/p>\n\n\n\n<p>O utilitarismo n\u00e3o \u00e9 capaz de dar conta de todos os problemas morais que nos atingem, mas isso n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o para desconsider\u00e1-lo, pois cada teoria moral possui suas falhas e seus pontos fracos. Tamb\u00e9m n\u00e3o responde a todas as nossas d\u00favidas, mas somente a f\u00e9 \u00e9 capaz disso, n\u00e3o a filosofia \u2013 e a f\u00e9 s\u00f3 o faz para quem a tem. Mas em algumas situa\u00e7\u00f5es, o utilitarismo d\u00e1 conta de justificar um ato como bom, mesmo quando o agente sabe que, para seu maior prazer individual, o melhor seria sair de casa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo de boa parte do ano de 2020, temos ficado em casa, mesmo que n\u00e3o o desejemos. 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