{"id":2075,"date":"2020-04-24T18:48:54","date_gmt":"2020-04-24T21:48:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=2075"},"modified":"2020-04-24T18:53:14","modified_gmt":"2020-04-24T21:53:14","slug":"netflixs-plataform-and-the-problem-of-artificial-solidarity-creation","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/netflixs-plataform-and-the-problem-of-artificial-solidarity-creation\/2020\/","title":{"rendered":"O po\u00e7o da Netflix e o problema da cria\u00e7\u00e3o artificial de solidariedade"},"content":{"rendered":"\n<p>Lan\u00e7ado no dia 20 de mar\u00e7o, o longa espanhol <em>O Po\u00e7o<\/em>, produ\u00e7\u00e3o original da Netflix vem angariando a aten\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica e p\u00fablico, seja pelo seu estilo de filmagem inc\u00f4modo e com cenas graficamente chocantes, lembrando o movimento do cinema extremo franc\u00eas, encabe\u00e7ado por Gaspar No\u00e9, especialmente por seu longa Irrevers\u00edvel, de 2002 e muito bem definido por Alexandra West no seu livro <em>Films of the New French Extrimity: Visceral Horror and National Identity<\/em>; seja pelas provoca\u00e7\u00f5es de ordem politica e social levantadas durante o enredo, que v\u00e3o desde considera\u00e7\u00f5es acerca da desigualdade social e distribui\u00e7\u00e3o dos recursos dentro de uma sociedade, passando por aforismas relativos a natureza humana e culminando em uma poss\u00edvel (a depender da interpreta\u00e7\u00e3o do espectador) discuss\u00e3o de ordem metaf\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob a dire\u00e7\u00e3o de Galter Gaztelu-Urrutia nos s\u00e3o apresentados dois personagens principais, Goreng, que a princ\u00edpio parece ser o her\u00f3i da est\u00f3ria e o pr\u00f3prio Po\u00e7o, que tem o nome oficial de Centro Vertical de Auto-Gest\u00e3o. Este \u00e9 uma esp\u00e9cie de pris\u00e3o volunt\u00e1ria, onde os detentos se encarceram voluntariamente durante um per\u00edodo que eles mesmos determinaram. Alguns buscam parar de fumar, controlar a ansiedade, ou mesmo terminar um livro, todos tem o direito de levar um objeto e Goreng escolhe uma c\u00f3pia de Dom Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A din\u00e2mica do Po\u00e7o parece bem simples: ao se internar na unidade cada detento informa seu prato favorito, uma vez l\u00e1 dentro ele acorda em um andar aleat\u00f3rio onde permanecer\u00e1 por um m\u00eas. Cada andar \u00e9 um cub\u00edculo simples, com poucos m\u00f3veis, compartilhado por dois detentos e com um v\u00e3o aberto no meio, por onde passa uma plataforma, de cima para baixo, como um elevador.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta plataforma cont\u00e9m um banquete, onde teoricamente deve haver o prato favorito de cada detento, ela come\u00e7a a descer primeiro andar e deve seguir at\u00e9 o \u00faltimo. A plataforma para durante alguns instantes em cada andar, onde os detentos t\u00eam o direito de comer tudo que conseguirem durante o tempo determinado. Logicamente apenas um prato n\u00e3o \u00e9 o suficiente para satisfazer um adulto durante 24 horas e os que acordaram nos andares mais elevados s\u00e3o beneficiados, pois podem se alimentar de sua refei\u00e7\u00e3o e de quantas outras conseguirem, sendo que os azarados que acordaram em um andar baixo provavelmente n\u00e3o ter\u00e3o acesso a alimento algum e provavelmente perecer\u00e3o de fome.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro companheiro de cela de Goreng, Trimagassi, detento j\u00e1 experiente, tenta explicar-lhe essa l\u00f3gica de funcionamento do Po\u00e7o, ao afirmar que ali existem tr\u00eas tipos de pessoas, as <em>de cima<\/em>, as <em>de baixo<\/em> e as que <em>caem<\/em>. Em um primeiro momento Goreng tenta resistir a din\u00e2mica apresentada e se alimenta apenas daquilo que lhe \u00e9 estritamente necess\u00e1rio. Tal atitude altru\u00edsta cai por terra quando Goreng acorda na cela 171 e se depara com o m\u00ednimo de comida por um m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui parece haver uma cr\u00edtica muito simples e rasteira ao sistema capitalista de produ\u00e7\u00e3o, repete-se a combalida fal\u00e1cia de que \u201cse todos consumissem apenas o necess\u00e1rio, haveria o suficiente para que ningu\u00e9m passasse por nenhuma necessidade\u201d, ignorando por completo o fen\u00f4meno da escassez.<\/p>\n\n\n\n<p>Avan\u00e7ando um pouco no enredo, Trimagassi n\u00e3o \u00e9 mais parte do Po\u00e7o e Goreng acorda em um andar privilegiado com sua nova companheira Imoguiri. Ex-funcion\u00e1ria da administra\u00e7\u00e3o da unidade, ela sempre come o m\u00ednimo que precisa e prepara dois pratos para os detentos imediatamente abaixo, tamb\u00e9m com quantidade \u00ednfima de comida.<\/p>\n\n\n\n<p>Imoguiri pede incansavelmente que seus companheiros da cela inferior repitam o processo, acreditando que dessa forma conseguiria prover o m\u00ednimo necess\u00e1rio at\u00e9 a \u00faltima cela. Sem sucesso, ela \u00e9 ridicularizada todas as vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Goreng mostra-se curioso com a atitude da companheira, que o revela que o Po\u00e7o nada mais \u00e9 do que um experimento social que tenta criar artificialmente o que ela chama de \u201csolidariedade espont\u00e2nea\u201d (o que por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 uma evidente contradi\u00e7\u00e3o). Este \u00e9 o ponto nos interessa para o debate acerca da gest\u00e3o p\u00fablica e da moralidade na distribui\u00e7\u00e3o de riqueza.<\/p>\n\n\n\n<p>O discurso de Imoguiri parece trazer de volta o Goreng idealista do come\u00e7o da est\u00f3ria, mas diferente de sua simp\u00e1tica companheira, ele se mostra extremamente agressivo e autorit\u00e1rio, amea\u00e7ando destruir toda a refei\u00e7\u00e3o se os detentos da cela de baixo n\u00e3o colaborarem com o seu plano pretensamente humanit\u00e1rio. Essa nova faceta apresentada por Goreng parece dominar o personagem, agora fascinado por sua pr\u00f3pria utopia, e transformar sua personalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em mais um avan\u00e7o de roteiro, Goreng agora se junta a um novo companheiro, Baharat, de novo em um n\u00edvel privilegiado e objetiva colocar seu plano em pr\u00e1tica. Eles descem junto com a plataforma e tentam obrigar que o n\u00edvel inferior contribua e comam apenas o necess\u00e1rio. Os detentos mais fr\u00e1geis colaboram mediante coer\u00e7\u00e3o verbal e amea\u00e7as f\u00edsicas, mas quando a dupla se depara com advers\u00e1rios fisicamente superiores, ambos decidem que \u00e9 hora de se armar com barras de ferro e partir para vias de fato, quando n\u00e3o assassinato, de todos aqueles que n\u00e3o estivessem de acordo, em uma grotesca sequencia gr\u00e1fica que se apresenta ao espectador.<\/p>\n\n\n\n<p>Goreng tinha uma ideia nobre, mas sua paix\u00e3o ideol\u00f3gica o cegou e, na tentativa falida de implementar suas ideias, eliminou seu senso de realidade (como ideologia geralmente o fazem) o levando a executar com crueldade boa parte daqueles que outrora desejou proteger. Para tornar o desfecho mais cruel (ao melhor estilo de Gaspar No\u00e9), conforme a plataforma vai descendo ele descobre que mesmo que todos aderissem a seu plano, ainda assim faltaria comida, uma vez que ele havia calculado suprimento suficiente para 300 andares, mas descobre que o Po\u00e7o contava com 333. A implac\u00e1vel realidade da escassez demonstrou-se mais real que o sonho de Goreng.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma clara, apesar de bastante s\u00fatil, alus\u00e3o aos desastres socialistas do s\u00e9culo XX, O Po\u00e7o nos lembra da incapacidade de gerar artificialmente a solidariedade espont\u00e2nea e da carnificina que sempre foi gerada quando Estados tentaram criar \u201ccaridade for\u00e7ada\u201d, sempre sobre o pretexto da transforma\u00e7\u00e3o do mundo em um lugar melhor, da antecipa\u00e7\u00e3o do para\u00edso na terra.<\/p>\n\n\n\n<p>A solidariedade e a caridade s\u00e3o virtudes moral e teologal, respectivamente, caracterizadas pelo amor ao pr\u00f3ximo, o desapego de si mesmo e o senso de comunidade (<em>koinonia<\/em>) e nesta condi\u00e7\u00e3o devem ser desenvolvidas de forma livre, uma vez que virtude alguma pode ser cultivada mediante coer\u00e7\u00e3o e assim n\u00e3o podem ser artificalizadas ou for\u00e7adas a existir pela viol\u00eancia ou amea\u00e7a da mesma por uma entidade dominante ou algum individuo autorit\u00e1rio, como o que se converteu Goreng.<\/p>\n\n\n\n<p>Com um estilo marcante e \u00fanico, que apenas remotamente faz lembrar filmes como Jogos Mortais, <em>Scape Room<\/em> e Expresso do Amanh\u00e3, est\u00e9tica peculiar (apesar do ambiente enegrecido de boa parte do filme facilitar o trabalho do diretor de fotografia), ambienta\u00e7\u00e3o claustrof\u00f3bica e alguns e<em>aster eggs <\/em>espalhados, como o fato de Goreng passar o filme lendo Dom Quixote e sendo ele mesmo um arauto de uma causa perdida, o filme \u00e9 um sucesso em termos de entretenimento, prendendo a aten\u00e7\u00e3o de quem assiste em um misto de curiosidade, repulsa e sentimento de revolta, onde propositadamente toda a simpatia desenvolvida pelo personagem Goreng durante duas horas de pel\u00edcula \u00e9 despeda\u00e7ada nos \u00faltimos minutos, tal qual a popularidade de certos governantes autorit\u00e1rios que, face a primeira escassez produtiva, mostram seu verdadeiro espectro fac\u00ednora. Situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o peculiar as na\u00e7\u00f5es latino-americanas colonizadas justamente por espanh\u00f3is, como os personagens do Po\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de bastante raso, convertendo-se em um verdadeiro toca-discos viciado de clich\u00eas, nas cr\u00edticas referentes a condi\u00e7\u00e3o ego\u00edsta do homem, da produ\u00e7\u00e3o e da desigualdade social e at\u00e9 mesmo um apelo foucaultiano a met\u00e1fora das \u201cpris\u00f5es\u201d , a obra \u00e9 tamb\u00e9m um sucesso em suscitar a discuss\u00e3o sobre a impossibilidade da cria\u00e7\u00e3o artificial da solidariedade e o desastre da distribui\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de bens. Apesar de ter sido recebido com adora\u00e7\u00e3o por muitos movimentos e intelectuais coletivistas por sua expl\u00edcita cr\u00edtica ao sistema produtivo capitalista, a obra cont\u00e9m uma incisiva e elegante cr\u00edtica ao socialismo, que pode passar despercebida \u00e0 primeira vista, mas que se converte no principal e mais interessante argumento defendido por Gaztelu-Urrutia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lan\u00e7ado no dia 20 de mar\u00e7o, o longa espanhol O Po\u00e7o, produ\u00e7\u00e3o original da Netflix vem angariando a aten\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica e p\u00fablico, seja pelo seu estilo de filmagem inc\u00f4modo e com cenas graficamente chocantes, lembrando o movimento do cinema extremo franc\u00eas, encabe\u00e7ado por Gaspar No\u00e9, especialmente por seu longa Irrevers\u00edvel, de 2002 e muito [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":2077,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[270,269,271,92,268,194,195],"class_list":["post-2075","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-articles","tag-coercao","tag-coercion","tag-filmes","tag-movies","tag-solidarity","tag-violence","tag-violencia"],"translation":{"provider":"WPGlobus","version":"3.0.2","language":"br","enabled_languages":["en","br"],"languages":{"en":{"title":true,"content":true,"excerpt":false},"br":{"title":true,"content":true,"excerpt":false}}},"blog_post_layout_featured_media_urls":{"thumbnail":["https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/YD3SQ6KNK5GNPIZXU7TUILLNWQ-1-150x150.jpg",150,150,true],"full":["https:\/\/www.admethics.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/YD3SQ6KNK5GNPIZXU7TUILLNWQ-1.jpg",900,399,false]},"categories_names":{"3":{"name":"Articles","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/category\/articles\/"}},"tags_names":{"270":{"name":"coer\u00e7\u00e3o","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/tag\/coercao\/"},"269":{"name":"coercion","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/tag\/coercion\/"},"271":{"name":"filmes","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/tag\/filmes\/"},"92":{"name":"movies","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/tag\/movies\/"},"268":{"name":"solidarity","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/tag\/solidarity\/"},"194":{"name":"violence","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/tag\/violence\/"},"195":{"name":"viol\u00eancia","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/tag\/violencia\/"}},"comments_number":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2075","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2075"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2075\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2092,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2075\/revisions\/2092"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2077"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}