{"id":1864,"date":"2019-12-04T16:51:56","date_gmt":"2019-12-04T19:51:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.admethics.com\/?p=1864"},"modified":"2021-02-23T20:19:41","modified_gmt":"2021-02-23T23:19:41","slug":"virtues-for-the-protection-of-life","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/virtues-for-the-protection-of-life\/2019\/","title":{"rendered":"Virtudes para a prote\u00e7\u00e3o da Vida"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que virtudes precisamos para proteger a vida de algu\u00e9m? No momento em que entendemos que cada pessoa possui um valor em si mesmo, acabamos por rejeitar a\u00e7\u00f5es que humilhem, maltratem ou incorram contra a vida de algu\u00e9m. A pr\u00f3pria pessoa, alvo dessas a\u00e7\u00f5es, poder\u00e1 reclamar nessa situa\u00e7\u00e3o, buscar por seus direitos. Mas e quando esse algu\u00e9m n\u00e3o tem capacidade por si mesmo para se defender ou depende de outros para proteger a sua vida?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos falando aqui da vida de beb\u00eas e gestantes durante a gesta\u00e7\u00e3o, para os quais, segundo distintas correntes jur\u00eddicas e filos\u00f3ficas, se reconhece o princ\u00edpio da dignidade da pessoa humana (Ribeiro; Pinheiro, 2017; Sarlet, 2010). Podemos assumir que os pais, a fam\u00edlia, a comunidade e o Estado desempenham diferentes papeis para prote\u00e7\u00e3o da vida da m\u00e3e e do nascituro. Por outro lado, muitos pa\u00edses t\u00eam optado por descriminalizar o aborto em alguma medida (Studlar; Buns, 2015), adotando pol\u00edticas p\u00fablicas e direcionando recursos p\u00fablicos para custear tal procedimento. Muitas vezes o Estado assume pr\u00e1ticas contradit\u00f3rias, que se op\u00f5em, o que neste caso recai sobre a quest\u00e3o do aborto <em>vs<\/em>. prote\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com isso, a contribui\u00e7\u00e3o de cada pessoa se torna ainda mais importante para a constru\u00e7\u00e3o do bem comum. Pensemos um momento sobre a seguinte quest\u00e3o: como posso agir para proteger a vida de beb\u00eas e gestantes? Argumentamos que a resposta substantiva \u00e0 essa quest\u00e3o demanda honestidade consigo pr\u00f3prio para entender a natureza humana em sua forma integral e multidimensional (Ramos, 1989), o que por sua vez n\u00e3o \u00e9 o mesmo que um conhecimento acad\u00eamico ou cient\u00edfico da quest\u00e3o, mas sim, a capacidade de reconhecer a pessoalidade do beb\u00ea em forma\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 \u00e9 algu\u00e9m mesmo antes de nascer (Spaemann, 2015). Nesse sentido, estamos falando de um conhecimento no\u00e9tico \u2013 <em>nous<\/em> \u2013 capaz de apreender um princ\u00edpio de a\u00e7\u00e3o, o qual vem seguido de uma sabedoria pr\u00e1tica \u2013 <em>phronesis<\/em> \u2013 capaz de realizar tal princ\u00edpio de acordo com a realidade da vida de cada um (Berti, 2002). Tal princ\u00edpio \u00e9 algo que temos a condi\u00e7\u00e3o de apreender por meio do afeto ou la\u00e7o emocional com o beb\u00ea no ventre materno ou ao assumirmos a responsabilidade pela vida em forma\u00e7\u00e3o de um novo membro da comunidade. Com isso, queremos trazer para reflex\u00e3o a capacidade do cidad\u00e3o comum em reconhecer naturalmente o princ\u00edpio da dignidade e a vida como um bem humano b\u00e1sico (Finnis, 2011) por meio da racionalidade no\u00e9tica e da sabedoria pr\u00e1tica (Arist\u00f3teles, 2009; Berti, 2002), sem ter a necessidade de um conhecimento jur\u00eddico ou filos\u00f3fico sobre o tema. Para a\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, ainda s\u00e3o necess\u00e1rias virtudes morais: autodom\u00ednio para evitar os excessos, fortaleza para perseverar em momentos de dificuldade e justi\u00e7a para manter as rela\u00e7\u00f5es interpessoais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 a perspectiva que vislumbramos como possibilidades objetivas para as gestantes. H\u00e1 ainda outras tr\u00eas perspectivas em que podemos discutir virtudes para a prote\u00e7\u00e3o da vida: na condi\u00e7\u00e3o de pai, no papel da fam\u00edlia e da comunidade e, finalmente, no papel de atores da esfera p\u00fabica, entre eles o Estado. Discutiremos brevemente, nos pr\u00f3ximos par\u00e1grafos, uma vis\u00e3o preliminar na perspectiva da gestante, seguida de uma discuss\u00e3o do papel da comunidade, procurando imaginar quais virtudes morais s\u00e3o necess\u00e1rias para defender a vida durante a gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7amos pela gestante. Ao saber que est\u00e1 gr\u00e1vida, uma gestante pode decidir por dar continuidade a gesta\u00e7\u00e3o, mesmo que n\u00e3o tenha sido uma gravidez planejada, mesmo que enfrente dificuldades financeiras, de trabalho, ou que n\u00e3o tenha um relacionamento est\u00e1vel com o pai da crian\u00e7a. Ou seja, independente das dificuldades, ela pode optar por ter o beb\u00ea. Mas o que a impele a fazer isso? Podemos sugerir previamente que, al\u00e9m de coragem, as gestantes expressam fortaleza diante de adversidades, ao assumir a responsabilidade de ter um filho. Ao longo da gravidez precisam tamb\u00e9m cuidar da sua sa\u00fade e alimenta\u00e7\u00e3o, para que o beb\u00ea tamb\u00e9m se desenvolva apropriadamente. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certa vez ouvimos de uma gestante atendida por organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil que atuam em comunidades carentes: \u201c\u00e9 assumir a responsabilidade, \u00e9 uma vida que est\u00e1 ali\u201d. Vemos nessa frase a express\u00e3o simples de uma cidad\u00e3, que reconhece seu papel frente \u00e0 essa vida em forma\u00e7\u00e3o, ao assumir para si a responsabilidade de proteg\u00ea-la, mesmo em condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas desfavor\u00e1veis de sua fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, uma dessas condi\u00e7\u00f5es isoladamente poderia ser alegada pela gestante para n\u00e3o seguir com a gravidez, como justificativa para cometer um aborto. Mas \u00e9 uma vida que est\u00e1 se formando no \u00fatero materno, n\u00e3o \u00e9? A gestante reconhece a vida em forma\u00e7\u00e3o em seu ventre como algu\u00e9m? E a dignidade do beb\u00ea em forma\u00e7\u00e3o? Al\u00e9m disso, a gestante de fato pode enfrentar uma condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica dif\u00edcil, pode estar dependendo de outras pessoas para ter o filho, pode necessitar uma ajuda significativa do Estado. Ela sabe como buscar ou conseguir o apoio necess\u00e1rio para poder criar seus filhos? Nossa experi\u00eancia acompanhando organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil que ajudam gestantes nos permite observar que nem todas as gestantes expressam essa preocupa\u00e7\u00e3o pela vida em forma\u00e7\u00e3o. Podemos citar alguns elementos que contribuem para tal comportamento: dificuldades de toda ordem, econ\u00f4micas, sociais, vulnerabilidade social, viol\u00eancia; envolvimento com drogas, falta de sentido ou prop\u00f3sito de vida; decis\u00f5es tomadas unicamente considerando o interesse pr\u00f3prio; n\u00e3o reconhecer o feto em sua dignidade. As virtudes, por sua vez, poderiam ser incentivadas para dar conta dessas dificuldades. O Quadro 1 procura relacionar tais dificuldades com respectivas virtudes que poderiam ajudar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Elementos que dificultam a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida intrauterina<\/strong><\/td><td><strong>Virtude que poderia ser desenvolvida<\/strong><\/td><\/tr><tr><td><strong>Dificuldades de todos as ordens, econ\u00f4micas, sociais, vulnerabilidade social, viol\u00eancia<\/strong><\/td><td>Fortaleza \u2013 disposi\u00e7\u00e3o para resistir e manter uma decis\u00e3o, permanecer fiel \u00e0 sua consci\u00eancia, mesmo diante de forte oposi\u00e7\u00e3o; \u00e9 o sacrif\u00edcio de si mesmo para a realiza\u00e7\u00e3o de objetivos justos e prudentes.<\/td><\/tr><tr><td><strong>Envolvimento com drogas<\/strong><\/td><td>Temperan\u00e7a ou autodom\u00ednio: capacidade de direcionar ou submeter \u00e0s paix\u00f5es \u00e0 raz\u00e3o, evitando as tenta\u00e7\u00f5es do prazer e do poder.<\/td><\/tr><tr><td><strong>Falta de sentido ou prop\u00f3sito para a vida<\/strong><\/td><td>Magnanimidade: refletir sobre o prop\u00f3sito da vida ou <em>telos; <\/em>ser capaz de vislumbrar um futuro melhor, a partir do reconhecimento de suas condi\u00e7\u00f5es e valores. (Havard, 2011).<\/td><\/tr><tr><td><strong>Tomar a decis\u00e3o pensando somente no interesse pr\u00f3prio;<\/strong><\/td><td>Prud\u00eancia: conhecimento sobre a realidade para a tomada de decis\u00f5es prudentes, considerando as circunst\u00e2ncias e o contexto em que vive, considerando inclusive os impactos para os demais.<\/td><\/tr><tr><td><strong>N\u00e3o reconhecer o feto e sua dignidade enquanto pessoa humana em forma\u00e7\u00e3o<\/strong><\/td><td>Humildade e justi\u00e7a. A humildade est\u00e1 relacionada a viver na verdade, de si mesmo e reconhecendo a verdade do outro; \u00e9 um convite para servir. A justi\u00e7a \u2013 dar a cada um o que \u00e9 seu e assumir a responsabilidade que se tem para com os outros.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quadro 1 \u2013 Dificuldades para a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida na perspectiva de gestantes em vulnerabilidade<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fonte: elaborado pela autora, com base em descri\u00e7\u00f5es das virtudes de A. Havard (2011).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto sociedade, cabe a n\u00f3s construir e intensificar a\u00e7\u00f5es da sociedade civil que possam contribuir para a prote\u00e7\u00e3o da vida de gestantes e beb\u00eas. O Estado por si s\u00f3 n\u00e3o consegue atender \u00e0s gestantes de forma a considerar as circunst\u00e2ncias e particularidades \u00fanicas de cada mulher, de cada fam\u00edlia e comunidade. Por isso, organiza\u00e7\u00f5es locais, de base comunit\u00e1ria, t\u00eam um grande potencial em alcan\u00e7ar aquelas fam\u00edlias e gestantes que ficam desassistidas pelos servi\u00e7os de sa\u00fade, assist\u00eancia social e outras pol\u00edticas p\u00fablicas. Al\u00e9m disso, os volunt\u00e1rios que atuam em tais organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o engajados com tal problema, querem de fato contribuir para tais pessoas. As comunidades mais carentes geralmente enfrentam problemas de criminalidade e viol\u00eancia, o que demanda coragem dos envolvidos para atender \u00e0s gestantes, especialmente se as pr\u00e1ticas envolvem visitas domiciliares, bem como uma postura de humildade e abertura para acolher e ouvir, entender as circunst\u00e2ncias de cada gestante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Discutimos neste artigo algumas virtudes que podem contribuir para a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida durante o per\u00edodo gestacional, considerando a perspectiva da mulher, enquanto gestante, bem como o papel da comunidade, a exemplo de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil. Com isso, tentamos defender a ideia que o reconhecimento da dignidade da pessoa humana come\u00e7a na gesta\u00e7\u00e3o, quando se reconhece a pessoalidade do beb\u00ea em forma\u00e7\u00e3o como sendo algu\u00e9m, um novo membro da comunidade, e que isso \u00e9 algo que podemos captar naturalmente a partir de nossa pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o enquanto pessoa humana. Para proteger a vida em forma\u00e7\u00e3o, precisamos ainda exercer virtudes, como a prud\u00eancia, a fortaleza, o autodom\u00ednio, justi\u00e7a, coragem e humildade, de modo a dar conta de enfrentar as dificuldades enfrentadas por gestantes e comunidades.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Arist\u00f3teles. (2009).<strong> <em>\u00c9tica a Nic\u00f4maco<\/em><\/strong><em>.<\/em> (Trad. Caeiro, A. C.). S\u00e3o Paulo: Atlas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Berti, E. (2002). <em><strong>As raz\u00f5es de Arist\u00f3teles<\/strong><\/em>. (Trad.\u00a0 Macedo, D. D.). 2\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finnis, J. (2011). <em><strong>Natural law e natural rights<\/strong><\/em>. 2<sup>nd<\/sup> ed. New York: Oxford University Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havard, A. (2011). <em><strong>Virtudes e lideran\u00e7a: a sabedoria das virtudes aplicada ao trabalho<\/strong><\/em>. (Trad. Carillo, \u00c9lcio). S\u00e3o Paulo: Quadrante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ramos, A G. (1989). <em><strong>A nova ci\u00eancia das organiza\u00e7\u00f5es: Uma reconceitua\u00e7\u00e3o da riqueza das na\u00e7\u00f5es<\/strong><\/em>. 2. ed. Rio de Janeiro: Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ribeiro, M. S. &amp; Pinheiro, V. S. (2017). <strong>A dignidade da pessoa humana e o direito \u00e0 vida do nascituro: fundamentos biol\u00f3gicos, filos\u00f3ficos e jur\u00eddicos<\/strong>. <em>Bio\u00e9tica e Direitos Fundamentais, <\/em>18(3), 139-176.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sarlet, Ingo Wolfgang. (2010). <em><strong>Dignidade (da pessoa) humana e direitos fundamentais na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988<\/strong><\/em>. 10\u00aa ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Spaemann, R. (2015). <em><strong>Pessoas: ensaios sobre a diferen\u00e7a entre algo e algu\u00e9m<\/strong><\/em>. (Trad. Schneider, N.). S\u00e3o Leopoldo (RS): Editora Unisinos. \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Studlar, D. T. &amp; Burns, G. J. (2015). <strong>Toward the permissive society? Morality policy agendas and policy directions in Western democracies<\/strong>. <em>Policy Sci, 48<\/em>, 273-291.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que virtudes precisamos para proteger a vida de algu\u00e9m? No momento em que entendemos que cada pessoa possui um valor em si mesmo, acabamos por rejeitar a\u00e7\u00f5es que humilhem, maltratem ou incorram contra a vida de algu\u00e9m. A pr\u00f3pria pessoa, alvo dessas a\u00e7\u00f5es, poder\u00e1 reclamar nessa situa\u00e7\u00e3o, buscar por seus direitos. 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