{"id":1707,"date":"2019-11-15T21:07:07","date_gmt":"2019-11-15T21:07:07","guid":{"rendered":"https:\/\/admethics.com\/?p=1707"},"modified":"2024-04-18T04:30:18","modified_gmt":"2024-04-18T07:30:18","slug":"ethics-and-the-rise-of-sentiments","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/ethics-and-the-rise-of-sentiments\/2019\/","title":{"rendered":"A \u00e9tica e a ascens\u00e3o dos sentimentos"},"content":{"rendered":"\n<p>Adam Smith publicou em 1759 seu livro \u201cTeoria dos\nSentimentos Morais\u201d. Nesta obra, o pensador escoc\u00eas considerava que a base da\nmoral consiste num sentimento de simpatia, isto \u00e9, na capacidade humana inata\nem se colocar no lugar de outras pessoas, na escolha em agir moralmente\ntendo-se em mente n\u00e3o o que uma a\u00e7\u00e3o pode trazer para si, mas nos efeitos que\nesta a\u00e7\u00e3o pode trazer a outros \u2013 e, intimamente relacionada a isso, a quest\u00e3o\nde se consideramos moral a a\u00e7\u00e3o de outra pessoa. Smith, assim, afirma que o\nsentimento moral se baseia no que acreditamos ser os interesses de outras\npessoas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa a\u00e7\u00e3o e em como nos sentimos se, em vez de agentes,\nformos os sujeitos de tal a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Smith ficou mais conhecido como economista do que\nfil\u00f3sofo moral, e me<span style=\"font-size:0px; color:#ff0000;\">\ufeff<a href=\"https:\/\/www.mallevitra.com\/\">\u6a02\u5a01\u58ef<\/a>\n<\/span>smo que alguns estudiosos vejam uma tens\u00e3o entre o seu\npensamento \u00e9tico e o econ\u00f4mico, essa tens\u00e3o desaparece quando se tem em mente\nque, numa sociedade de mercado, prospera o capitalista que coloca os interesses\ndo p\u00fablico ao qual serve acima dos seus pr\u00f3prios, e oferece o produto que estes\ndesejam, e n\u00e3o aquele que gostaria de oferecer. Para usar a pr\u00f3pria met\u00e1fora de\nSmith, o cervejeiro, o a\u00e7ougueiro e o padeiro n\u00e3o s\u00e3o benevolentes, mas ao\nperseguirem seu interesse, agem de modo a satisfazer o nosso em comer p\u00e3o,\ncarne, e beber cerveja. Ao longo do s\u00e9culo XIX, a teoria econ\u00f4mica tomou\ndiferentes rumos, e embora ainda reverencie Smith pelo pioneirismo, n\u00e3o deixou\nde refutar o que estava errado em seu pensamento. Mas a filosofia moral o\nesqueceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Damos um salto cronol\u00f3gico, e nos encontramos em 1903,\nquando o fil\u00f3sofo brit\u00e2nico G. E. Moore, que ensinava em Cambridge, publicou\nseu livro \u201cPrincipia Ethica\u201d. Neste livro, ele advogava uma teoria moral que\npoderia ser resumida em um princ\u00edpio central: o que algu\u00e9m sente como o certo \u00e9\no que deve ser considerado como moral. O agente agora n\u00e3o precisa considerar o\nsujeito da a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o precisa simpatizar com ele: o sentimento, a intui\u00e7\u00e3o, de\nque est\u00e1 fazendo a coisa certa torna-o moral mesmo que n\u00e3o o seja. Moore hoje \u00e9\npouco discutido no campo do pensamento moral \u2013 mas pelo menos um de seus mais\nardentes entusiastas, John Maynard Keynes, continua sendo discutido no campo da\neconomia. E, embora n\u00e3o haja, na teoria econ\u00f4mica de Keynes, nenhuma influ\u00eancia\ndireta de Moore, sua filosofia nunca se desviou daquele princ\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje em dia, o pensador espanhol Carlos El\u00edas, em seu livro \u201cScience on\nthe Ropes\u201d, cita a pol\u00edtica alem\u00e3 Angela Merkel: as pessoas n\u00e3o est\u00e3o mais\ninteressadas em fatos, mas em emo\u00e7\u00f5es e sentimentos. O que importa n\u00e3o \u00e9 mais a\nverdade, e sim o que as pessoas gostam. Um \u201clike\u201d no Facebook importa mais do\nque dizer a verdade. El\u00edas critica os resultados dessa tend\u00eancia para o\npensamento e a atitude dos ocidentais para com a ci\u00eancia, o que n\u00e3o \u00e9 o objeto\ndeste pequeno artigo; mas a mesma tend\u00eancia tem efeitos graves no que entendemos\npor moral.<\/p>\n\n\n\n<p>E o principal efeito, na minha opini\u00e3o, consiste no\nfato de que o certo passa a ser o que se sente como certo. Esse sentimento nada\ntem de racional \u2013 \u00e9 meramente o resultado de uma popularidade, \u00e9 vazio de\nsignificado para o agente moral. A pessoa quer ser apreciada, quer ser curtida\nna rede social, quer ser popular, mas as a\u00e7\u00f5es morais nunca foram sin\u00f4nimo de\npopularidade. As a\u00e7\u00f5es morais envolvem sentimentos? Claro que sim, mas antes de\nmais nada envolvem a raz\u00e3o, porque acreditar que algo \u00e9 certo deriva de um\nesfor\u00e7o mental, de um pensamento, n\u00e3o de tentar descobrir o que os outros gostariam.\n\u00c9 um sentimento pelos outros, e n\u00e3o dos outros. O agente moral pensa e age\nconforme uma mistura de sentimento e raz\u00e3o, n\u00e3o conforme o que as pessoas\nesperam.<\/p>\n\n\n\n<p>Poderia ser diferente? Redes sociais divulgam, algumas\nvezes, decis\u00f5es moralmente corretas, e ganham o respeito, o apre\u00e7o e a\nadmira\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias pessoas. Nem sempre, entretanto, isso deriva de um esfor\u00e7o\nracional, mas sim do desejo de fazer o que os outros pensam estar correto e\nadmir\u00e1vel. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 melhor do que nada, sem d\u00favida; agir certo porque \u00e9 o que os outros admiram \u00e9 melhor do que decidir por agir errado. Mas, se \u00e9 verdade que sentimentos e raz\u00e3o nem sempre dependem um do outro, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que formam um time formid\u00e1vel quando atuam juntos no campo da moral. E hoje em dia, isso n\u00e3o parece estar ocorrendo: quando o certo \u00e9 o que os outros gostam, quando o verdadeiro \u00e9 o que os outros acham, sentir-se moralmente certo n\u00e3o deriva de pensar \u2013 e concluir \u2013 que se est\u00e1 certo. Fala-se hoje em \u201cp\u00f3s-verdade\u201d sem jamais ter descoberto o que \u00e9 verdade; meu medo \u00e9 que um dia se fale em p\u00f3s-moral sem jamais ter descoberto o que \u00e9 moral.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>MACINTYRE, Alasdair. <strong>After virtue<\/strong>. 3rd. ed. Notre Dame: University\nof Indiana Press, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p>SMITH, Adam. <strong>An inquiry into the nature and causes of the wealth of\nnations<\/strong>. Indianapolis: Liberty Classics, 1979.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adam Smith publicou em 1759 seu livro \u201cTeoria dos Sentimentos Morais\u201d. 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