{"id":1664,"date":"2019-11-03T21:46:32","date_gmt":"2019-11-03T21:46:32","guid":{"rendered":"https:\/\/admethics.com\/?p=1664"},"modified":"2019-11-28T18:19:37","modified_gmt":"2019-11-28T21:19:37","slug":"the-gift-give-receive-and-return","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/the-gift-give-receive-and-return\/2019\/","title":{"rendered":"Teoria da D\u00e1diva: dar, receber e retribuir"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Vivemos na era da desaten\u00e7\u00e3o, sempre fazendo tudo de maneira superficial e descompromissada. Desaten\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa apenas falta de aten\u00e7\u00e3o ou de concentra\u00e7\u00e3o, mas sobretudo falta de cuidado, de zelo, de carinho. \u00c9 estar no mundo e n\u00e3o cuidar dele. \u00c9 conviver com as pessoas sem verdadeiramente interagir. \u00c9 passar pela exist\u00eancia como um fruto que n\u00e3o \u00e9 colhido e apodrece ao sol sem beneficiar a ningu\u00e9m.<\/p><cite> Por Alex Castro no livro &#8220;Aten\u00e7\u00e3o. Por uma pol\u00edtica do cuidado.\u201d (2019). <\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vivenciamos a modernidade, eu, voc\u00ea, as pessoas em nossa volta. Vivemos em tempos modernos e nos deixamos seduzir pela modernidade com seu ar de liberta\u00e7\u00e3o. Ela nos liberta de nossas obriga\u00e7\u00f5es, de nossas rela\u00e7\u00f5es, de nossos la\u00e7os. A sociedade moderna nos permite viver s\u00f3, se assim desejarmos, nos permite n\u00e3o ter filhos, \u201cescolher\u201d nossa fam\u00edlia\u2026 O mercado nos da a facilidade de sair de uma rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o apreciamos e prontamente podemos ir \u00e0 procura de outra, sem sermos julgados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Em um piscar de olhos a modernidade e toda a sua liquidez pode nos parecer algo encantador, entretanto, precisamos refletir sobre quem estamos nos tornando, qual \u00e9 o nosso papel nesse mar l\u00edquido e como podemos manter nossa ess\u00eancia em um mundo onde estamos nos tornando cada vez mais dependentes de produtos e nos libertando de nossos la\u00e7os. Proponho a utiliza\u00e7\u00e3o da teoria da d\u00e1diva como um mecanismo para mantermos e criarmos novos la\u00e7os \u2014&nbsp;ao inv\u00e9s de nos desfazermos deles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea j\u00e1 experimentou sentar ao lado de uma pessoa em um \u00f4nibus, avi\u00e3o, metr\u00f4? A maior parte das pessoas est\u00e1 \u201cinteragindo\u201d com meus ret\u00e2ngulos luminosos \u2014 como diria o escritor Alex Castro. Sugiro que sente ao lado de uma pessoa que n\u00e3o est\u00e1 \u201cocupada\u201d e que d\u00ea sua aten\u00e7\u00e3o a ela. Sim, sua aten\u00e7\u00e3o. Em um mundo t\u00e3o moderno, proponho que nossa aten\u00e7\u00e3o \u00e9 uma d\u00e1diva em extin\u00e7\u00e3o. De in\u00edcio a pessoa pode at\u00e9 estranhar seu comportamento, n\u00e3o por ela n\u00e3o gostar do seu gesto, mas simplesmente por ela n\u00e3o estar mais acostumada a receb\u00ea-lo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certa vez sentei-me ao lado de uma senhora e conversamos por quase uma hora enquanto o \u00f4nibus ia do Centro da cidade at\u00e9 nossas casas. Chegando no ponto final, a senhora ficou t\u00e3o agradecida que confesso que fiquei um pouco envergonhada, \u201cde nada\u201d \u2014 disse \u00e0 senhora. Neste caso,&nbsp;aconteceu uma d\u00e1diva entre estranhos, cuja liberdade \u00e9 grande e existe uma obriga\u00e7\u00e3o muito pequena, quase nula, daquela senhora retribuir \u00e0 mim a felicidade que causei a ela. N\u00e3o h\u00e1 sempre um retorno, pelo menos n\u00e3o um retorno mercantil, como estamos \u201cacostumados\u201d, o gesto em si foi a pr\u00f3pria d\u00e1diva e a pr\u00f3pria d\u00e1diva foi o retorno. Ao iniciarmos um novo ciclo: dar, receber e retribuir, rompemos o isolamento di\u00e1rio no qual nos colocamos e come\u00e7amos a sentir nossa pr\u00f3pria identidade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No mercado, nos tornamos seres livres cada vez que quitamos nossas d\u00edvidas, comprei, paguei e o com isso sou considerada uma pessoa livre. A d\u00e1diva, por sua vez, busca a d\u00edvida. O desequil\u00edbrio entre dar, receber e retribuir \u00e9 o que faz o espiral ou ciclo continuar, buscando a espontaneidade e n\u00e3o o dever. Como exemplo entre dever e espontaneidade, podemos fazer uma reflex\u00e3o acerta do imposto. De in\u00edcio ele pode parecer uma d\u00e1diva, \u201cestou doando uma parte de meu sal\u00e1rio para que o Estado ajude quem mais precisa\u201d. N\u00e3o deixamos nos enganar, o imposto \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o e n\u00e3o uma d\u00e1diva. Quebramos o princ\u00edpio da espontaneidade e ademais, a doce ilus\u00e3o nos coloca em posi\u00e7\u00f5es confort\u00e1veis. Ao inv\u00e9s de espalharmos d\u00e1divas, ela nos da a falsa sensa\u00e7\u00e3o de que o Estado j\u00e1 est\u00e1 o fazendo por n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em tempos modernos, finalizo encorajando-os a praticar a teoria da d\u00e1diva, seja ela uma doa\u00e7\u00e3o de sangue ou a doa\u00e7\u00e3o de alguns minutos de sua aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos na era da desaten\u00e7\u00e3o, sempre fazendo tudo de maneira superficial e descompromissada. 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