{"id":1595,"date":"2019-10-25T20:03:54","date_gmt":"2019-10-25T20:03:54","guid":{"rendered":"https:\/\/admethics.com\/?p=1595"},"modified":"2021-02-23T20:25:15","modified_gmt":"2021-02-23T23:25:15","slug":"rediscovering-adam-smiths-three-primary-virtues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/rediscovering-adam-smiths-three-primary-virtues\/2019\/","title":{"rendered":"Redescobrindo \u201cas tr\u00eas virtudes prim\u00e1rias\u201d de Adam Smith"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cN\u00e3o\n\u00e9 da benevol\u00eancia do a\u00e7ougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o\nnosso jantar, mas da considera\u00e7\u00e3o que eles t\u00eam pelos pr\u00f3prios interesses.\nApelamos n\u00e3o \u00e0 humanidade, mas ao amor-pr\u00f3prio, e nunca falamos de nossas\nnecessidades, mas das vantagens que eles podem obter\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9\ncom esta m\u00e1xima que Adam Smith arrebata sua <em>Investiga\u00e7\u00e3o sobre a natureza e\nas causas da riqueza das na\u00e7\u00f5es<\/em>, lan\u00e7ada originalmente em 1776 e\nconsiderada por muitos como a obra fundadora da ci\u00eancia econ\u00f4mica. T\u00edtulo\nimerecido porque ignora os fisiocratas franceses Anne Robert Jacques Turgot e\nFran\u00e7ois Quesnay, seu antecessor imediato Richard Cantill\u00f3n e, especialmente, a\nmonumental contribui\u00e7\u00e3o dos escol\u00e1sticos e p\u00f3s-escol\u00e1sticos, que de t\u00e3o\nnumerosos, n\u00e3o me permitem cit\u00e1-los um a um neste pequeno artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fato\n\u00e9 que <em>A<\/em> <em>riqueza das na\u00e7\u00f5es <\/em>tem tamanha influ\u00eancia e foi tantas\nvezes mal interpretada que caracterizou permanentemente, e de forma injusta,\nSmith como um defensor do ego\u00edsmo ou egocentrismo. Talvez se possa dizer que\nera defensor individualismo, mas um individualismo \u00e0 sua maneira, diferente do\nsignificado popular e digno de extensos ensaios. <\/p>\n\n\n\n<p>O\nescoc\u00eas, na verdade, tinha uma forma \u00fanica de combinar o crescimento econ\u00f4mico\ndos pa\u00edses com a moralidade dos indiv\u00edduos, seu pensamento n\u00e3o pode ser\nequiparado aqueles defensores expl\u00edcitos do ego\u00edsmo, como o objetivismo de Ayn\nRand. Prova disso \u00e9 sua primeira grande obra <em>A teoria dos sentimentos morais<\/em>,\npor tantas vezes ignoradas, vitima do pr\u00f3prio sucesso de Smith.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicada\npela primeira vez em 1759, <em>A teoria dos sentimentos morais<\/em> consiste de\numa s\u00e9rie de reflex\u00f5es, derivadas em grande parte da disciplina de filosofia\nmoral que Smith lecionava na universidade de Glasgow, acerca da moralidade\nintrinsecamente humana. Nele, Smith diferencia os homens dos animais\nespecialmente pelo sentimento de solidariedade e pela capacidade de cultivar o\nque chamou de \u201ctr\u00eas virtudes prim\u00e1rias\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O\nformulador da \u201cm\u00e3o invis\u00edvel do mercado\u201d entendia a solidariedade como uma\nsensibilidade em rela\u00e7\u00e3o ao sofrimento alheio, oriunda da consci\u00eancia de que, a\nqualquer momento, o pr\u00f3prio indiv\u00edduo que observa pode passar pela mesma\nsitua\u00e7\u00e3o. J\u00e1 as tr\u00eas virtudes prim\u00e1rias eram explicitamente definidas como:\nPrud\u00eancia, justi\u00e7a e benevol\u00eancia. Todas elas configuram condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua\nnon<\/em> para o alcance da \u201cexcel\u00eancia humana\u201d e s\u00e3o dependentes entre si.<\/p>\n\n\n\n<p>A\nprud\u00eancia, para Smith, \u00e9 definida como uma decis\u00e3o ponderada, cultiva atrav\u00e9s\ndo h\u00e1bito de realizar o bem para si mesmo, seus entes mais pr\u00f3ximos e seu\nentorno social. O h\u00e1bito de realizar o bem demanda a\u00e7\u00f5es honestas,\nbem-intencionadas e precisas. Al\u00e9m disso o prudente \u00e9 uma pessoa experimentada,\nque sabe medir riscos. A justi\u00e7a \u00e9 descrita como um compromisso individual e\nsocial de defender os indiv\u00edduos, suas propriedades, seus direitos fundamentais.\nO homem justo \u00e9 aquele que busca o bem comum e n\u00e3o imp\u00f5e preju\u00edzo ileg\u00edtimo ao\npr\u00f3ximo em prol de ganho pessoal. J\u00e1 a benevol\u00eancia \u00e9 tribut\u00e1ria tanto da\njusti\u00e7a quanto da prud\u00eancia, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com decis\u00f5es arrazoadas e uma forte\nconvic\u00e7\u00e3o moral de fazer o certo as pessoas certas. A virtude da benevol\u00eancia \u00e9\ndescrita como aquela que nasce do h\u00e1bito da generosidade, que por sua vez nasce\nde a\u00e7\u00f5es individualmente desinteressadas, que visam a felicidade do pr\u00f3ximo. O\nhomem benevolente \u00e9 o que tem auto-dom\u00ednio o suficiente para fazer o bem ao\npr\u00f3ximo, pelo simples motivo de que \u00e9 o certo a se fazer, mesmo que isso n\u00e3o\nlhe traga satisfa\u00e7\u00e3o pessoal instant\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>Para\nSmith, as tr\u00eas virtudes fundamentais se desenvolvem no \u00e2mbito individual, mas\ntamb\u00e9m nas rela\u00e7\u00f5es humanas e, sendo o mercado um grande conjunto de rela\u00e7\u00f5es\nhumanas motivadas pela troca, as virtudes devem ser desenvolvidas tamb\u00e9m no\nmercado. \u00c9 urgente redescobrir as virtudes fundamentais smithianas no contexto\nde uma sociedade de mercado que erode as rela\u00e7\u00f5es sociais, atomiza os\nindiv\u00edduos e ignora, quando n\u00e3o despreza, o cultivo das virtudes, a dignidade\nhumana e a busca pelos bens mais elevados, n\u00e3o materiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos\nque acusam Smith de ser uma esp\u00e9cie de antecessor do utilitarismo, defensor\nirrestrito do que viria a ser chamado de \u201ccapitalismo\u201d, vale lembrar que Joseph\nSchumpeter o acusou de ser um \u201cmoralista\u201d por jamais dissociar \u00e0 economia da\n\u00e9tica ou da pol\u00edtica. <\/p>\n\n\n\n<p>Smith,\nsem d\u00favida alguma, era um grande defensor do livre mercado e, em muitos\naspectos do <em>laissez-faire<\/em>, mas nem por isso nutria simpatia autom\u00e1tica\npelo homem de neg\u00f3cios. Defendia a desregula\u00e7\u00e3o das trocas e das rela\u00e7\u00f5es de\ntrabalho pois acreditava que assim se alcan\u00e7aria o interesse geral, em especial\npara os pobres, que mereceram muita aten\u00e7\u00e3o em seus escritos. Defendia, por\nvezes, a a\u00e7\u00e3o ego\u00edsta, mas por que essa criaria, mesmo que involuntariamente,\num benef\u00edcio coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>A\nli\u00e7\u00e3o mais importante que deve ser aprendida a partir da uni\u00e3o de <em>A teoria\ndos sentimento morais<\/em> com <em>Uma investiga\u00e7\u00e3o sobre a natureza e as causas\ndas riquezas das na\u00e7\u00f5es <\/em>\u00e9 que as benesses do livre mercado n\u00e3o podem ser\nalcan\u00e7adas em um v\u00e1cuo de valores morais, pelo contr\u00e1rio, dependem do cultivo\nde virtudes, da solidariedade, de um forte sentimento \u00e9tico. Apenas uma\nsociedade formada por indiv\u00edduos com bons julgamentos \u00e9ticos, benevolentes,\njustos e prudentes est\u00e1 preparada e \u00e9 merecedora da liberdade.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>SMITH,\nAdam.&nbsp;<strong>The theory of moral sentiments<\/strong>. J. Richardson, 1822.<\/p>\n\n\n\n<p>SMITH,\nAdam; STEWART, Dugald.&nbsp;<strong>An Inquiry into the Nature and Causes of the\nWealth of Nations<\/strong>. Homewood,\nIll: Irwin, 1963.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 da benevol\u00eancia do a\u00e7ougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da considera\u00e7\u00e3o que eles t\u00eam pelos pr\u00f3prios interesses. 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