{"id":1542,"date":"2019-09-27T19:29:39","date_gmt":"2019-09-27T19:29:39","guid":{"rendered":"https:\/\/admethics.com\/?p=1542"},"modified":"2021-02-23T20:26:07","modified_gmt":"2021-02-23T23:26:07","slug":"the-crazy-of-carlos-drummond-de-andrade-and-the-applications-on-our-reality","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/the-crazy-of-carlos-drummond-de-andrade-and-the-applications-on-our-reality\/2019\/","title":{"rendered":"A Doida de Carlos Drummond de Andrade e as Aplica\u00e7\u00f5es sobre nossa Realidade"},"content":{"rendered":"\n<p>Ler\nbons livros, apreciar artes e ouvir boas m\u00fasicas desenvolvem em n\u00f3s uma\ncapacidade mais acentuada de perceber o mundo a nossa volta. A leitura sempre\nexerceu e exercer\u00e1 profunda transforma\u00e7\u00e3o no leitor sincero que reconhece que\npouco sabe, e que mesmo sob esse pouco, existe uma imensid\u00e3o a ser considerada.\nA sensibilidade torna-se agu\u00e7ada no exerc\u00edcio da leitura e a percep\u00e7\u00e3o do que\nacontece ao entorno \u00e9 endossada por esse cont\u00ednuo exerc\u00edcio. <\/p>\n\n\n\n<p>Poucos\nlivros, contos, poesias ou cr\u00f4nicas causaram tamanha reflex\u00e3o quanto O Capote\nde Nikolai Gogol (1991) e A Doida de Carlos Drumond de Andrade (2012). Sobre\nesse segundo conto, lembro-me emo\u00e7\u00e3o e responsabilidade que senti ao ler as linhas\nescritas, e mesmo bem jovem, n\u00e3o pude conter algumas l\u00e1grimas. Esse conto nos\nrelembra de que somos respons\u00e1veis por ser pessoas melhores, destitu\u00eddos dos\npreconceitos que nos afastam uns dos outros pelo medo de simplesmente saber ouvir\no que o outro tem a dizer, uma vez que se tem dado cada vez mais lugar a\nprop\u00f3sitos ego\u00edstas que tornam semelhantes apenas aqueles que compartilham das\nmesma ideologias e prop\u00f3sitos. <\/p>\n\n\n\n<p>Jamais\nfarei jus \u00e0s palavras do poeta, mas tentarei explicar em breves linhas porque\nesse conto ainda hoje remete ao mesmo sentimento de 14 anos atr\u00e1s. Ela era\nchamada de doida e habitava num chal\u00e9 no centro de um jardim maltratado.\nPr\u00f3ximo dali, havia um c\u00f3rrego onde os meninos da vizinhan\u00e7a costumavam se\nbanhar, mas n\u00e3o apenas com essa inten\u00e7\u00e3o, era prazeroso passar pela casa da\ndoida e provoc\u00e1-la. As m\u00e3es exortavam as crian\u00e7as sobre suas atitudes\nreprov\u00e1veis: \u201cdos doidos devemos ter piedade, porque eles n\u00e3o gozam os mesmos\nbenef\u00edcios que n\u00f3s, os s\u00e3os, fomos afortunados\u201d (ANDRADE, 2012).<\/p>\n\n\n\n<p>Muito\nse especulava sobre o que deixou a doida naquele estado: agress\u00e3o conjugal?\nFora expulsa de casa pelo pai por tentar envenen\u00e1-lo e enlouqueceu? De qualquer\nmodo, nada se sabia sobre, apenas que era repudiada por todos e que se trancara\nno chal\u00e9 com o passar dos anos. Vivia s\u00f3 e julgada. Por\u00e9m naquela tarde, os\ntr\u00eas meninos rumo ao rio, acreditaram pertinente repetir a tradi\u00e7\u00e3o que seus\npais a muitos anos atr\u00e1s tamb\u00e9m fizeram: jogar pedras na casa da doida. <\/p>\n\n\n\n<p>Nada\nrespondia ao ardente ataque daquelas crian\u00e7as: nem a casa nem a doida. Tomado\npor s\u00fabita coragem, o terceiro do grupo, um menino de 11 anos resolveu invadir\no jardim. Como nada nem ningu\u00e9m respondeu aos avan\u00e7os, resolveu ser corajoso e\nadentrar o chal\u00e9. <\/p>\n\n\n\n<p>Drummond\n(2012) continua: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Atr\u00e1s da massa do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto soerguido, a doida esticava o rosto para a frente, na investiga\u00e7\u00e3o do rumor ins\u00f3lito. N\u00e3o adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida n\u00e3o deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as m\u00e3os \u00e0 altura dos olhos, como para proteg\u00ea-los de uma pedrada. Ele encarava-a, com interesse. Era simplesmente uma velha, jogada num catre preto de solteiro, atr\u00e1s de uma barricada de m\u00f3veis. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma eleva\u00e7\u00e3o min\u00fascula. Mi\u00fada, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ela\nbalbuciou: tinha sede. O menino deu-lhe \u00e1gua, mas nem for\u00e7as para segurar o\ncopo ela possu\u00eda. Ele precisou ajudar. Ela estava com dor e parecia estar\nmorrendo. Ele nem mais se lembrava porque entrara na casa. E doida j\u00e1 n\u00e3o\nparecia mais doida: era um ser humano. Ela sofria, e ele mal compreendia a\nsitua\u00e7\u00e3o. Precisava pedir ajuda, mas recusava-se a deix\u00e1-la s\u00f3: \u201cexitava deixar\na mulher sozinha na casa exposta a pedradas\u201d. Receava que morresse em completo\nabandono. \u201cN\u00e3o deixaria a mulher para chamar ningu\u00e9m. Sabia que nada poderia\nfazer para ajud\u00e1-la, a n\u00e3o ser sentar-se \u00e0 beira da cama, pegar-lhe nas m\u00e3os e\nesperar o que ia acontecer (ANDRADE, 2012).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse\ntexto liter\u00e1rio breve, \u00e9 repleto de significados e implica reflex\u00f5es sobre o\neu. Cada leitura dele, \u00e9 um lembrete de que precisamos nos destituir dos v\u00edcios\nque carregamos em nossa vida e que nos afastam de sermos pessoas melhores,\npessoas virtuosas. Enquanto vivemos acreditando em ideologias de senso comum,\ntomando por nossos os discursos prontos, fal\u00e1cias maquiadas de boas inten\u00e7\u00f5es,\nacusamos como doidos aqueles que ousam discordar daquilo que chamamos de \u201cnossa\nverdade\u201d e na tentativa de defender uma tradi\u00e7\u00e3o que nem compreendemos,\natacamos com pedradas esses doidos que ousam pensar diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Contextualizando\nos sentidos mais profundos do conto, palavras que muitas vezes tomam forma de\npedras s\u00e3o desavisadamente lan\u00e7adas contra o outro, minando qualquer\noportunidade de di\u00e1logo, m\u00fatua compreens\u00e3o e empatia. Nesse cen\u00e1rio notadamente\ncomum em nossos dias, uma postura compreensiva e emp\u00e1tica \u00e9 praticamente uma\nproibi\u00e7\u00e3o: ap\u00f3s longos anos acreditando que o entrincheiramento de ideias \u00e9 a\nmelhor maneira de (n\u00e3o) se resolver as coisas, parece que esse virou costume,\nde costume passou a ser verdade, e de verdade, virou tradi\u00e7\u00e3o. Porque fazemos o\nque fazemos? Porque todos fazem e achamos que \u00e9 melhor assim. <\/p>\n\n\n\n<p>Nesse\nmomento, precisamos criar certa coragem para sair de tr\u00e1s das trincheiras que\nseparam uns dos outros, passar pelo jardim abandonado do inimigo e abrir a\n\u201ccancelinha\u201d, entrar na casa e enxergar quem ali reside. \u00c9 preciso tamb\u00e9m\ncoragem para soltar as pedras, estender as m\u00e3os e olhar nos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o\ns\u00e3o doidos, mas sim humanos. Podemos notar que a atitude parent\u00e9tica do menino\nde 11 anos o fez compreender uma outra perspectiva, uma vez, que caso\ncontinuasse a jogar pedras do lado de fora jamais poderia ter entendido.\nUltrapassando as conven\u00e7\u00f5es sobre a casa da doida e tudo que a rodeava, ele deu\no primeiro passo. Sobre a atitude parent\u00e9tica, Guerreiro Ramos (1996) atribui\ncomo a capacidade de colocar entre par\u00eanteses o eu e o mundo e a viv\u00eancia do eu\ncomo tal. Agindo assim, cria-se a consci\u00eancia cr\u00edtica de si e das\ncircunst\u00e2ncias, abandonando o plano existencial natural e ing\u00eanuo. <\/p>\n\n\n\n<p>Criar\ne praticar essa consci\u00eancia cr\u00edtica de si e das circunst\u00e2ncias exige humildade\nde reconhecer que certas cren\u00e7as e costumes podem estar equivocados. Ap\u00f3s 40\nanos de cren\u00e7as sobre a louca, o menino percebeu que ela era apenas uma velha\nfr\u00e1gil, pequena e maltratada \u2013 por ele e por tantos outros. Que dura realidade.\nUm equ\u00edvoco que se sustentou por longos anos. Quem de fato eram os doidos? Quem\nde fato s\u00e3o os doidos? O exerc\u00edcio das virtudes e a pr\u00e1tica da postura\nparent\u00e9tica podem come\u00e7ar a responder essa pergunta.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>RAMOS, G. A. A redu\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica. 3.ed.\nRio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p>ANDRADE, D. C. <strong>A doida<\/strong>. Contos de aprendiz. Companhia\ndas Letras; Edi\u00e7\u00e3o: 1\u00aa. 5 de mar\u00e7o de 2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ler bons livros, apreciar artes e ouvir boas m\u00fasicas desenvolvem em n\u00f3s uma capacidade mais acentuada de perceber o mundo a nossa volta. A leitura sempre exerceu e exercer\u00e1 profunda transforma\u00e7\u00e3o no leitor sincero que reconhece que pouco sabe, e que mesmo sob esse pouco, existe uma imensid\u00e3o a ser considerada. 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