{"id":1346,"date":"2019-09-01T16:39:44","date_gmt":"2019-09-01T16:39:44","guid":{"rendered":"https:\/\/admethics.com\/?p=1346"},"modified":"2021-02-23T20:52:48","modified_gmt":"2021-02-23T23:52:48","slug":"exceptions-to-the-rule-for-your-own-benefit-a-moral-judgment-problem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.admethics.com\/br\/exceptions-to-the-rule-for-your-own-benefit-a-moral-judgment-problem\/2019\/","title":{"rendered":"Exce\u00e7\u00f5es \u00e0 regra em benef\u00edcio pr\u00f3prio: um problema de julgamento moral"},"content":{"rendered":"\n<p>A casa em que morava alguns anos atr\u00e1s ficava em uma avenida\nrelativamente movimentada. No outro lado da rua havia uma grande padaria e\nmuitos de seus clientes estacionavam seus carros em frente \u00e0 minha casa. O\nproblema \u00e9 que, em muitas vezes, deixavam o ve\u00edculo bloqueando a sa\u00edda da\ngaragem. \u00c9 proibido estacionar em frente \u00e0 sa\u00edda de garagem, mas mesmo assim:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ah, \u00e9 s\u00f3 um minutinho&#8230;vou ali e j\u00e1 volto!<\/p>\n\n\n\n<p>Ou ainda:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Foi s\u00f3 um minutinho! J\u00e1 estou saindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre havia uma desculpa para deixar o carro em qualquer lugar.\nSempre havia uma justificativa para estacionar em local proibido. Quando eu\nreclamava, os motoristas diziam que era eu quem estava sendo impaciente e\ndesrespeitosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de algumas tentativas frustradas de lembrar aos motoristas de\nque estavam prejudicando o ir e vir alheio, estrat\u00e9gias mais \u201cpersuasivas\u201d\ncome\u00e7am a povoar o imagin\u00e1rio, como deixar bilhetinhos no retrovisor, dar a r\u00e9\nem cima do ve\u00edculo que bloqueia a sa\u00edda ou, sordidamente, surpreender o\ncondutor com fezes caninas na ma\u00e7aneta do ve\u00edculo (imagina\u00e7\u00e3o com uma dose de\nindigna\u00e7\u00e3o podem ser muito criativas juntas). Mas estes foram planos\nmirabolantes que n\u00e3o passaram de divertid\u00edssimos devaneios corretivos.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que comum nos deparamos com justificativas para exce\u00e7\u00f5es \u00e0s\nregras, especialmente se as a\u00e7\u00f5es levam \u00e0 um benef\u00edcio pr\u00f3prio, sem se pensar\nnas consequ\u00eancias para os demais. Isso significa que na situa\u00e7\u00e3o anterior haveria\ndois problemas relacionados \u00e0 responsabilidade: uma incorreta aplica\u00e7\u00e3o das\nregras para as pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es (a regra s\u00f3 vale para os outros) e uma considera\u00e7\u00e3o\nparcial das consequ\u00eancias dos atos praticados.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa miopia nas consequ\u00eancias da a\u00e7\u00e3o p\u00f4de ser vista de forma\nabrangente em 2018, durante a greve dos caminhoneiros que paralisou o pa\u00eds.\nCidad\u00e3os, independentemente de classe ou distin\u00e7\u00e3o, correram para os\nsupermercados para se estocar de arroz e outros itens, com medo do t\u00e9rmino de\nprodutos b\u00e1sicos. Ao serem entrevistados, alegavam que s\u00f3 queriam garantir que\nn\u00e3o lhes faltasse, justificando dessa forma compras exorbitantes como 25 sacos\nde arroz. Ficou evidente o ditado popular de que quando a \u201cfarinha \u00e9 pouca, meu\npir\u00e3o primeiro\u201d. Como um excesso de instinto de sobreviv\u00eancia, na hora de\neventos inesperados o brasileiro revela como age baseado no que lhe \u00e9 mais\nconveniente, em detrimento das condi\u00e7\u00f5es do restante da comunidade, revelando\ncomo o seu lado animal\/instintivo \u00e9 intenso.<\/p>\n\n\n\n<p>O que os brasileiros fariam durante um voo comercial se o avi\u00e3o, por\nalguma emerg\u00eancia, precisasse ser evacuado \u00e0s pressas. A orienta\u00e7\u00e3o das\ncompanhias a\u00e9reas \u00e9: \u201cem caso de emerg\u00eancia, deixe seus pertences e dirija-se \u00e0\nsa\u00edda mais pr\u00f3xima\u201d. Imaginem os brasileiros. Estes iriam pensar, na mesma\nl\u00f3gica da exce\u00e7\u00e3o para estacionar em local proibido, ou para garantir o que \u00e9\nseu primeiro: s\u00f3 eu vou levar a bolsa, n\u00e3o vai atrapalhar ningu\u00e9m; s\u00f3 o\nnotebook n\u00e3o vai atrapalhar e ningu\u00e9m vai reclamar. E com isso, haveria grandes\nchances de muitos insistirem em levar seus pertences, mesmo com a orienta\u00e7\u00e3o\npara deixar, gerando um caos na evacua\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 mesmo um risco para a\nsobreviv\u00eancia dos passageiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Reuni essas inquieta\u00e7\u00f5es para ilustrar a\u00e7\u00f5es em que o respeito \u00e0s regras \u00e9 flexibilizado para um benef\u00edcio particular ou ainda em que se levam em conta as consequ\u00eancias para si, em detrimento dos demais. Este argumento n\u00e3o adere exatamente \u00e0 \u00e9tica utilitarista, segundo a qual recorremos \u00e0 an\u00e1lise das consequ\u00eancias das a\u00e7\u00f5es (utilitarismo de atos) ou das regras (utilitarismo de regras), de forma a produzir o maior bem para o maior n\u00famero de pessoas. (ver, por exemplo, Mulgan, 2012). <\/p>\n\n\n\n<p>Ao cometer esse tipo de julgamento moral, parece que algu\u00e9m est\u00e1\nvoluntariamente se esquecendo n\u00e3o apenas de aplicar as regras de forma justa,\nmas tamb\u00e9m de considerar o contexto de sua a\u00e7\u00e3o.&nbsp; Parece estar relacionado \u00e0 uma certa ast\u00facia\nna apreens\u00e3o da realidade n\u00e3o alinhada com fins moralmente virtuosos, tais como\nas virtudes da fortaleza e da justi\u00e7a (Sison &amp; Ferrero, 2015). Parece ser\num desvio no uso da virtude da prud\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa exce\u00e7\u00e3o autoimposta sugere o envolvimento de dois elementos no julgamento\nmoral. O primeiro representa um processo volunt\u00e1rio de flexibilizar regras em\ndeterminadas situa\u00e7\u00f5es para proveito pr\u00f3prio, como se a pessoa voluntariamente\nesquecesse aquilo que j\u00e1 sabe; um processo de racionaliza\u00e7\u00e3o, um autoengano com\no intuito de um benef\u00edcio individual. O segundo elemento, que geralmente\nacompanha o primeiro, envolve se colocar uma limita\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea na prud\u00eancia\nou sabedoria pr\u00e1tica (Arist\u00f3teles, 2009), ao se considerar as consequ\u00eancias das\na\u00e7\u00f5es, para algo que a pessoa j\u00e1 sabe pela sua experi\u00eancia e conhecimento que\ndeveria considerar. Nos casos narrados significa esquecer dos direitos do\nmorador que precisa ter acesso livre para sair de sua casa de carro, de pensar\nnos demais consumidores que precisam ter acesso \u00e0 alimentos em situa\u00e7\u00f5es de\ncalamidade, ou nas implica\u00e7\u00f5es para a seguran\u00e7a na evacua\u00e7\u00e3o de uma aeronave em\nsitua\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia. A ideia remete a um processo de infantiliza\u00e7\u00e3o ou\nretrocesso no n\u00edvel de desenvolvimento moral, se considerarmos a perspectiva da\npsicologia de Lawrence Kohlberg (Biaggio, 2002).<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed podemos nos perguntar, quais as implica\u00e7\u00f5es para a vida\nconvivial e pol\u00edtica de decis\u00f5es tomadas a partir desses pequenos desvios? As\nconsequ\u00eancias s\u00e3o muitas e geralmente se disseminam na sociedade e,\ninfelizmente, muitas podem ser observadas no nosso cotidiano, como a falta de\nconfian\u00e7a em nossas institui\u00e7\u00f5es e nas pessoas, atitudes oportunistas ou a\nvelha malandragem de tirar vantagem. Algumas dessas express\u00f5es atuais t\u00eam\nra\u00edzes profundas na cultura brasileira e naquilo que se foi perpetuando como um\ncerto modo de ser do brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A moral da exce\u00e7\u00e3o e a oportunidade de levar vantagem s\u00e3o\nexemplificadas, por exemplo, no desconto recebido quando n\u00e3o se exige nota\nfiscal e nas liga\u00e7\u00f5es clandestinas de \u00e1gua, luz ou tv a cabo, o famoso \u201cgato\u201d.\nEssa l\u00f3gica est\u00e1 t\u00e3o enraizada nas pr\u00e1ticas brasileiras que, se voc\u00ea n\u00e3o as pratic\u00e1-las,\n\u00e9 chamado de ing\u00eanuo ou inocente, as pessoas esperam que voc\u00ea as pratique e\nisso ajuda a levantar a sua moral com os demais. Se voc\u00ea ao contr\u00e1rio, se\nopuser \u00e0 essas pr\u00e1ticas, \u00e9 taxado de \u201cCaxias\u201d ou \u201ccertinho demais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Passando das rela\u00e7\u00f5es pessoais e considerando a moral da exce\u00e7\u00e3o na\nesfera p\u00fablica, essa l\u00f3gica pode estar associada \u00e0 falta de responsabilidade\npelo que \u00e9 de interesse p\u00fablico e privilegiando interesses particulares ou de\ngrupos de interesse. A moral da exce\u00e7\u00e3o permite o favorecimento de amigos,\nvantagens no acesso \u00e0 servi\u00e7os p\u00fablicos, como \u201cpassar na frente\u201d nas filas de\natendimento \u00e0 sa\u00fade ou para se conseguir uma vaga em creche. E isso ocorre\nmuito pr\u00f3ximo de n\u00f3s. Os dois elementos relacionados \u00e0 moral da exce\u00e7\u00e3o podem estar\npresentes nas a\u00e7\u00f5es na \u00e1rea p\u00fablica, quais sejam, a flexibiliza\u00e7\u00e3o ou formas\nassim\u00e9tricas de aplica\u00e7\u00e3o das regras (as regras deveriam valer para todos e da\nmesma forma, certo?) e a miopia na considera\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias, considerando\nno que se refere \u00e0 quest\u00e3o moral das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso n\u00e3o se quer afirmar que os brasileiros somente praticam\na\u00e7\u00f5es baseadas em uma moral da exce\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 isso. O que procuro discutir \u00e9\nque h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es e momentos em que as a\u00e7\u00f5es parecem sugerir um julgamento moral\nego\u00edsta e racionalizado em prol de benef\u00edcios particulares e moment\u00e2neos e que,\nem outras situa\u00e7\u00f5es, esses mesmos atores podem vir a requerer que essas mesmas\nregras e consequ\u00eancias sejam consideradas quando outras pessoas est\u00e3o atuando. E\nisso remete a uma quest\u00e3o de justi\u00e7a baseada na reversibilidade, encontrada na\nteoria filos\u00f3fica desde Arist\u00f3teles (2009). Alerta-se, dessa forma, pela\nnecessidade de repensarmos nossa responsabilidade no momento em que tomamos\ndecis\u00f5es para agir, de forma a considerar o contexto e as circunst\u00e2ncias, os\natores envolvidos e as consequ\u00eancias de forma mais abrangente, tendo em vista o\nprop\u00f3sito de nossas a\u00e7\u00f5es e da nossa vida como um todo.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>ARIST\u00d3TELES. <strong>\u00c9tica\n\u00e0 Nic\u00f4maco<\/strong>. (Trad.: Ant\u00f4nio de Castro Caeiro). S\u00e3o Paulo: Atlas, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>BIAGGIO, A. M. <strong>Lawrence\nKohlberg: \u00c9tica e educa\u00e7\u00e3o moral<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Moderna, 2002. <\/p>\n\n\n\n<p>MULGAN, T. <strong>Utilitarismo<\/strong>.\nPetr\u00f3polis: Vozes, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>SISON, A. J. G.; FERRERO, I. How different is neo-Aristotelian virtue\nfrom positive organizational virtuousness? <strong>Business Ethics: A European\nReview<\/strong>, 24(S2), 2015, pp. S78-S98.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A casa em que morava alguns anos atr\u00e1s ficava em uma avenida relativamente movimentada. No outro lado da rua havia uma grande padaria e muitos de seus clientes estacionavam seus carros em frente \u00e0 minha casa. 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