Quem assistiu ao filme Capitão Fantástico (2016), (veja o trailer do filme) conhece o personagem inspirador de Viggo Mortensen como pai de seis filhos. Ele, junto com sua esposa e filhos, escolheram viver sozinhos em uma floresta americana. Longe da sociedade, onde criam seus próprios métodos de estudo, produção de alimentos e cuidados com a saúde do corpo e da mente.
O filme levanta algumas reflexões. Por exemplo, sobre a diferença entre sistemas educacionais tradicionais e educação domiciliar. Outro elemento de reflexão, ao qual este artigo se dirige, diz respeito à escolha dos personagens de viver uma vida alternativa, isolados da sociedade convencional. A história se desenrola quando o “capitão fantástico”, como era chamado por sua esposa, sabe que ela comete suicídio enquanto está no hospital para tratamento psicológico. Diante disso, os familiares são forçados a re-interagir com pessoas locais, enfrentando problemas decorrentes de seu estilo de vida peculiar.
Ao abrir mão de uma vida tipicamente americana, especialmente de sua cultura consumista (“America’s business is business”, ironiza o personagem de Mortensen), uma vida alternativa livre de sociedade definida pela sociedade nem sempre permite uma ausência total de regras ou um isolamento total da vida social. De fato, as regras desse pequeno grupo eram bastante rígidas e seguiam uma rotina altamente regulamentada: acordar cedo, fazer exercícios, alimentar-se, caçar, estudar, meditar, estudar música, regar plantas, entre outras tarefas.
O filme revela dilemas e desafios na tentativa de reduzir a existência a um enclave individual e privado, longe de outros grupos ou regras acordadas. Com base no paradigma paraeconômico de Guerreiro Ramos (1989), o que vemos é a substituição do enclave econômico altamente regulamentado e coletivo por um enclave muito próximo do indivíduo/família, mas não livre de regras.
Segundo Ramos (1989), a realização do ser humano ocorre pela participação em várias esferas da vida, em espaços de igualdade (isonomia) e em outros indivíduos, em contextos regulamentados e em esferas com poucas ou nenhuma regra. Além disso, quando um enclave, como o mercado, predomina e seu ethos é inserido nos demais, as pessoas perdem essa capacidade de florescimento e desenvolvimento pessoal e passam a se comportar de acordo com uma determinação externa. Nesse aspecto, o tipo de vida em questão se assemelha ao enclave isolado, que, segundo França-Filho (2010), não constitui propriamente um sistema social.
O filme expõe pontos interessantes sobre o estilo de vida adotado, como diferentes possibilidades de crescimento intelectual e conhecimento sobre o meio ambiente. Mas suas exigências e regras eram bastante rígidas, expondo seus filhos a certos riscos, privações e constrangimentos. Tanto que os avós maternos se preocupavam com a segurança e o futuro dos netos.
Além disso, a falta de relacionamento com outras pessoas fez com que os filhos tivessem dificuldades de interação, de ida a um centro urbano ou de fazer algo habitual para um jovem. Os meninos mais velhos então questionam se o “método” do pai é adequado e paralelamente traçam planos para frequentar a escola e o ensino superior. O filho mais velho, por exemplo, com um conhecimento incrível de filosofia e ciências, ilustra essa dificuldade de interação social e, no final do filme, parte para conhecer outros países como se percebesse sua falta de experiência de vida.
Apoiando-se em Ramos (1989), percebe-se que a forma como Capitão Fantástico cria seus filhos parece ter reduzido as oportunidades de participação na esfera da vida convivial e política, pois embora conhecessem o trabalho de pensadores políticos, não tiveram oportunidade de debater essas ideias com quem pensa diferente, nem de contribuir na coprodução de bens e serviços públicos em sua localidade.
O filme nos permite refletir que a unidimensionalização da vida humana pode restringir o desenvolvimento pessoal, caso algum outro enclave social venha a predominar sobre os demais (ver artigo França-Filho). Então, o que pode ser feito? Deve-se tentar aproveitar a vida em diferentes enclaves sociais, em espaços de isonomia (orientação comunitária) e de fenonomia (orientação individual), saber atuar em esferas com alta ou pouca regulação, produzir, atuar e participar da vida política, desenvolver diferentes atividades em diferentes organizações e distinguir entre esferas reguladas e lógica competitiva, de esferas onde prevalecem outras lógicas. Em outras palavras, é estar atento para que um enclave não absorva ou anule as outras esferas da vida.
Referências:
Capitão Fantástico. (2016). Direction: Matt Ross. Universal Pictures, EUA, 118 min.
França- Filho, G. (2010). Decifrando a noção de Paraeconomia em Guerreiro Ramos: a atualidade de sua proposição. O&S, 17(52), 175-197.
Ramos, A. G. (1989). A nova ciência das organizações. (2nd ed.) Rio de Janeiro: FGV.
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