#EleNão e a motivação moral da contraposição

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Por Bruno Carneiro Castro

Em meio à corrida eleitoral pela Presidência da República em 2018, a campanha #EleNão ganhou repercussão nas mídias sociais e se materializou em protestos pelas ruas em diversas cidades brasileiras, além de algumas localidades no exterior. A hashtag em questão teve origem na rejeição de parte do eleitorado contra um candidato específico, tido por uma parcela da população como indigno de ocupar o cargo de presidente.

A hashtag sintetiza o imperativo “Não vote neste candidato”, que se configura como uma contraposição, e não como uma proposição propriamente dita. Como o voto é obrigatório no Brasil, a lógica requer que essa voz de comando apresente seu corolário, que seria a recomendação de voto em outro candidato, também específico, de modo a garantir a simetria entre a categoria do elemento a ser negado e a do elemento substituto. No entanto, o movimento #EleNão se dispôs, enfaticamente, a não oferecer essa alternativa, liberando os indivíduos para criarem o desdobramento propositivo como melhor lhes aprouvesse.

Por que motivo se teria operado propositalmente tal omissão?

A explicação remete a outra campanha recente, que usa de expediente parecido. Trata-se da mobilização contra a distribuição de canudos e sacolas plásticas em estabelecimentos comerciais, que, novamente, prega uma contraposição sem apelo propositivo claro. O que o ativismo ambiental anti-plástico almeja é, essencialmente, banir o uso do material poluente nesse contexto, com vistas à preservação do planeta, especialmente das formas de vida afetadas pelo descarte do material. Está evidente o imperativo negativo, mas se deixa em aberto qual ação positiva se deve tomar como corolário: ingerir bebidas diretamente no copo? Usar sacos de papel para empacotar as compras no supermercado?

Ambas as iniciativas de negação parecem se submeter uma escala de valores em que prevalece a moral de dever para com a consciência. Dizendo de outro modo, é como se a percepção da nobreza e da urgência de se dizer “não” a determinado elemento justificasse fazê-lo de imediato, para evitar o sentimento de omissão. Assim, a necessidade de detalhar uma proposição posterior é ignorada ou postergada.

Há pontos a favor e contra tal posicionamento. Pesa, a seu favor, a constatação de que o recurso aos princípios da própria consciência é procedimento legítimo e amplamente defendido pela democracia. E, no polo oposto, pode-se apontar que o senso de urgência seria construído artificialmente, evitando o debate sobre a parte propositiva faltante da mensagem, para blindar o movimento de negação – e, nos casos aqui expostos, há indícios de que se possa ter resvalado nesse aspecto.

É notório que a posse de um presidente supostamente despreparado para a função ou a tragédia ambiental do plástico acumulado nos oceanos são situações que chegam velozmente e são de difícil reversão. Ainda assim, nada justifica que, subjugando-se ao ritmo frenético das mídias sociais, se queira simplificar e polarizar a opinião pública. Infelizmente, o senso comum tende mais e mais a repelir qualquer ideia que exija mais caracteres para ser defendida do que o espaço de um tuíte.

Abraçar a contraposição é, de fato, necessidade que pontua toda a História, como atestam os movimentos anti-ditatoriais que tantas nações viveram e de cujos frutos hoje se beneficiam. Mas há que se ponderar que, sempre que se tentou remover algo sem antes planejar minimamente o que lhe substituiria, o resultado foi desastroso. Portanto, que cada “não” seja, sempre, devidamente alicerçado sobre o “sim” que obrigatoriamente lhe sucede.

As visões e opiniões expressadas nos artigos são as dos autores e não refletem necessariamente a Política oficial ou posição do grupo AdmEthics

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