A irrelevância da ética

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Por Felipe Flôres Martins

O título pode parecer um pouco presunçoso, uma afirmação dura. E o é de fato, entretanto, este é o título de um artigo publicado no livro Virtue and economy: Essays on morality and markets. O artigo em questão é de um autor de suma importância para o contexto da ética, mais precisamente a ética das virtudes, Alasdair MacIntyre.

No artigo em questão MacIntyre faz uma dura crítica a possibilidade de o agente ser ético ao trabalhar na área financeira. Já no início do texto MacIntyre descreve por exemplo que é impossível negar que há um problema e que foi notavelmente no período que se seguiu aos desastres econômicos de larga escala que o capitalismo da modernidade avançada trouxe recentemente a si mesmo e aos povos do mundo. Neste sentido, MacIntyre explica que: “O pressuposto de tal discussão tem sido que indivíduos que se desviaram em seus julgamentos e ações frequentemente o faziam apenas porque não haviam prestado atenção suficiente ao que os padrões das virtudes recomendavam e, portanto, tinham sido moralmente mal orientados quanto aos padrões que deveriam guiá-los em suas atividades de fazer dinheiro” (MacIntyre, 2015, p.7).

MacIntyre está fazendo uma crítica a ética no setor financeiro e nos dizendo que o que está faltando nos indivíduos é uma dimensão ética. MacIntyre argumenta ainda no texto que a aquisição das virtudes morais enfraqueceria a capacidade de alguém de ser um bom operador no sistema financeiro e, inversamente, que um treinamento adequado nas virtudes da boa negociação milita diretamente contra a aquisição das virtudes morais.

O argumento de MacIntyre se dá em quatro pontos e a minha intenção neste artigo é descrever esses pontos propostos por ele. A questão que envolve tais argumentos é: Quais são então os hábitos que precisamos adquirir, se quisermos agir como agentes moralmente responsáveis? (MacIntyre, 2015, p. 9).

A primeira característica moral no qual ele discorre sobre é baseada não em Aristóteles como ele deixa claro, mas em D.W. Winnicott por um entendimento psicanalítico sobre a influencia das mães no caráter das crianças. A ideia é que as mães precisam encontrar um meio entre um regime muito rigoroso e muito indulgente. Se uma criança é criada em um ambiente muito rigoroso, tende a ser muito complacente segundo MacIntyre e assim, deferente a autoridade, ou seja, muito anuente. Por outro lado, um regime muito indulgente pode levar a criança a não conseguir distinguir a realidade de suas projeções fantasiosas. Neste sentido, uma primeira marca de caráter moral é um realismo moderado sobre si mesmo. De acordo com MacIntyre há pouca oportunidade para essa virtude no setor financeiro.

A segunda característica proposta é a coragem. Coragem é para MacIntyre, baseando-se agora em Aristóteles, um meio entre a temeridade e a covardia. Para MacIntyre essa seria a segunda característica de um agente moralmente responsável. Assim, descreve que: Ela ou ele é capaz de avaliar os perigos iminentes com precisão, identificar os recursos disponíveis para confrontar esses perigos e julgar que riscos é razoável assumir e quais são imprudentes, sejam esses riscos para si ou para os outros.

MacIntyre diz também que o agente moralmente corajoso se coloca na linha de frente, ou seja, se algo der errado ele (agente) também compartilhará as perdas. Assim, o agente financeiro acaba por se basear muito em fórmulas, o que em si mesmo não tem nada de errado, mas que acaba por confiar na sofisticação matemática na análise risco, por exemplo, o que os deixam “aptos a fracassarem em não serem capazes de distinguir adequadamente entre temeridade, covardia e coragem” (MacIntyre, 2015, p.11).

A terceira característica proposta é a virtude da justiça, onde as pessoas não se preocupam apenas com as suas próprias questões, mas com as questões dos outros a sua volta. O que essas pessoas que possuem tais características “compreenderam é que a realização de seu próprio bem é inseparável de sua realização de um conjunto de bens comuns, bem comuns compartilhados com aqueles os quais suas vidas se encontram ou aqueles em que suas vidas impactam em suas várias atividades” (MacIntyre, 2015, p. 10).

É comum agentes financeiros atuarem em seu próprio interesse ao custo de outros. Essa questão nos parece ser bem difundida nas mais diversas atividades corporativas, bem como nos pressupostos teóricos, como visto no trabalho de Jensen e Meckling em 1976.

A quarta característica daqueles que apresentam caráter moral desenvolvido não é um foco no presente em detrimento do futuro, nem um foco no futuro em detrimento do presente. Para MacIntyre é compreender o senso da história, ou seja, é compreender a si mesmo como responsável não apenas por esse ou aquele conjunto de ações, mas por viver e ter vivido sua vida bem ou mal. MacIntyre descreve que é “preferir o honroso fracasso ao sucesso desonesto e saber o que fazer quando falhar” (MacIntyre, 2015, p.10). Assim, a quarta característica é um senso do contexto histórico de suas ações. Para ele, os agentes financeiros “são mantidos estritamente para dar conta de sucessos e fracassos de curto prazo sob condições de extrema competitividade, em que a resposta imediata à mudança de preços é exigida deles” (MacIntyre, 2015, p. 11). Assim, esta visão de curto prazo impede que se desenvolva a virtude requerida.

Neste contexto, me parece claro que MacIntyre se dispõe enfaticamente contra a possibilidade de atuação virtuosa por parte de agentes financeiros. Ou você é bem treinado para a atuação no contexto financeiro como um negociador ou investidor profissional do mercado ou você não seria um excelente investidor profissional caso tenha adquirido virtudes morais. Ou é uma coisa ou outra, mas não ambas. O que você acha?

Referência:

MacIntyre, A. C. (2015). The Irrelevance of Ethics. In A. Bielskis & K. Knight (Eds.), Virtue and Economy. (pp. 7–21). Ashgate.

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