A virtuosidade nas forças de caráter

Por Felipe Flôres Martins

Sempre que algum escândalo como a corrupção de membros de algum órgão público ou um escândalo financeiro advindo de alguma empresa ocorre, questões acerca da ética emerge novamente ao debate público. Falta de caráter, falta de virtude, empresa antiética, etc, são questões debatidas, mas que muitas vezes ficam sem solução.

Mas afinal, o que de fato são esses conceitos? Ser virtuoso seria a mesma coisa que ter caráter? O que significa ter caráter?

Em 2007 os pesquisadores Thomas A. Wright e Jerry Goodstein buscaram caracterizar o que seria ter força de caráter e qual a sua relação e diferenciação com a virtude. Para esses pesquisadores, definir caráter não é uma coisa tão simples como se pensa e que sobre este assunto, diversos estudiosos já haviam se debruçado ao longo de quase um século. Wright e Goodstein descrevem que muitas vezes “ter força de caráter” e “ser virtuoso” são usados como termos intercambiáveis e que assim, causam confusão em razão de sua não conceptualização correta.

Virtude é um tema já discutido desde os filósofos clássicos, como Aristóteles, por exemplo. É um assunto que tem sido revisado e debatido ao longo dos séculos, como na idade média com Tomas de Aquino, bem como na contemporaneidade com Alasdair MacIntyre em um de seus livros mais conhecidos chamado “After virtue” de 1981.

Em 2004 os pesquisadores Christopher Peterson e Martin E. P. Seligman por meio de uma pesquisa histórica listam seis categorias de virtudes que constantemente emergem da literatura, as quais são: sabedoria, coragem, humanidade, justiça, temperança e transcendência. Assim, os pesquisadores especulam que todas essas virtudes devem estar presentes acima dos valores limite para um indivíduo ser considerado de bom caráter (Peterson e Seligman, 2004, p.13). Neste sentido, buscam descrever a força de caráter sob essas seis virtudes, pois para eles, mensurar a virtude é algo muito abstrato e geral.

Wright e Goodstein (2007, p.932) descrevem que as forças do caráter são os ingredientes psicológicos – processos ou mecanismos – que definem as virtudes. Por exemplo, a virtude da coragem pode ser alcançada através de forças de caráter como persistência, integridade e o que eles chamam de vitalidade ou entusiasmo – aproximando a vida com entusiasmo e energia. Assim, definem o caráter da seguinte forma:

“nos definimos o caráter como aquelas qualidades habituais interpenetráveis dentro dos indivíduos, e aplicáveis a organizações que as limitam e as levam a desejar e buscar o bem pessoal e social” (Wright e Goodstein 2007, p.932).

Baseado nos trabalhos de Peterson e Seligman e de Wright e Goodstein, é possível entender que a virtude é composta por forças de caráter, assim, para a virtude Sabedoria, requer-se forças de caráter como Criatividade, Curiosidade, Mente Aberta e Amor ao Aprendizado, por exemplo. Para virtude de Temperança, forças de caráter como, Perdão e Misericórdia, Humildade e Modéstia, Prudência e Autocontrole são necessárias. A figura 1, busca sintetizar a ideia apresentada pelos pesquisadores Peterson e Seligman.

Neste sentido, os autores (Wright e Goodstein) destacam que em um contexto de disciplina moral, o caráter, mais do que a virtude pressupõe fornecer indivíduos com um barômetro moral mais específico, assim, este barômetro é fundamental para ajudar a monitorar o comportamento real, ou seja, usando o exemplo acima, a prudência e o autocontrole reforça a necessidade da temperança.

Assim, ser virtuoso requer forças de caráter. Indivíduos em ambientes de disciplina moral ajudarão a reforçar a necessidade de virtude, seja em órgãos públicos quanto em empresas privadas.

 

Referências:

Peterson, C., & Seligman, M. E. P. 2004. Character strengths and virtues: A handbook and classification. New York: Oxford University Press/Washington, DC: American Psychological Association

Wright, T.A., & Goodstein, J. 2007. Character is not “dead” in management research: A review of individual character and organizational-level virtue. Journal of Management, 33: 928-958.

Black Mirror e a morte da ética

Por Everton Silveira de Souza

Giges era um pastor de ovelhas, um cidadão respeitável moralmente, que trabalhava para o soberano da Lídia. Após uma grande tempestade e um tremor na terra, abriu-se uma fenda no local onde ele pastoreava o rebanho. Nesta fenda, Giges encontrou um cadáver, que tinha um anel de ouro na mão. Ao perceber o anel, o pastor acaba se apropriando dele. Chegando na comunidade, Giges participa de uma reunião com outros pastores. Giges, sentado no meio dos outros, deu, por acaso, uma volta no anel, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao redor, os quais falavam dele como se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes fatos, verificou que o anel havia lhe dado o poder de se tornar invisível. Ao fim da história, Giges seduz a mulher do soberano, assassina-o, e dessa maneira, assume o poder sobre a sua comunidade.

A alegoria retrata a história de um sujeito bom e virtuoso, sem histórico de ações imorais, indesejadas ou indignas. Porém, ao encontrar um anel, que lhe deu o poder da invisibilidade, ele passou a cometer enormes atrocidades, como traição, assassinato, abuso de poder.

Platão traz a interpretação de Glauco da alegoria. Para este último, Giges representa a essência da natureza humana, que não é virtuosa. Em condições de invisibilidade (quando não ninguém está vigiando) as pessoas tendem a ser antiéticas. Nesta lógica, justifica-se ter um sistema de repressão forte para coibir atitudes indesejadas, pois o indivíduo, essencialmente heterônomo e egoísta, é condicionado pelo meio externo. Thomas Hobbes, no Leviatã, sustenta esta posição ao defender que deve existir um estado forte a fim de coibir ações indesejadas, pois o ser humano, em um estado de natureza, tende a ser egoísta.

Mas esta não é a visão de Platão. Para o filósofo, a ética implica em agir corretamente mesmo quando se é invisível. A ética está relacionada à consciência, e não com a repressão e a coação da sociedade. A moral seria é um diálogo do indivíduo consigo mesmo, um diálogo intraconsciente. Mas o fato é que quanto mais vivemos em uma sociedade repressiva, que constrange seus cidadãos a base da força, menos espaço para a moral. A moral e a policia estão em lados opostos. Uma sociedade sem moral precisa de altos níveis de repressão. Já uma sociedade moralmente superior, precisa de um sistema de opressão mais moderado.

Em um país de motoristas imprudentes, justifica-se a intensa fiscalização por agentes de transito, a colocação de radares de velocidade e a utilização de bafômetros para coibir motoristas alcoolizados. A tentativa de resolver os problemas através da coação é uma maneira muito utilizada pela sociedade atual. Mas estas ações nada tem a ver com a moral segundo Platão. Na visão de Platão, este método de coação possui um risco: sempre haverá um momento em que ninguém estará nos observando.

Notar que um sujeito deixou cair uma carteira no chão e devolvê-la quando ninguém está por perto; devolver a um caixa de supermercado o dinheiro de um troco incorreto; comprar um bilhete de trem, mesmo que não tenha ninguém para lhe cobrar; comprar uma revista em uma banca de jornal, mesmo que não exista jornaleiro. Estas são questões que, de fato, se relacionam com a moral. Situações onde somos praticamente invisíveis. Se fossemos todos como Giges, nas situações tratadas acima, agiríamos incorretamente. Esta é a grande lição que Platão nos ensina.

Parece que a sociedade moderna não comprou a concepção de moral de Platão. Pelo contrário, parece que a visão de Glauco e de Hobbes é endossada, pois é possível perceber um aumento considerável dos meios de repressão por parte da sociedade, principalmente através da tecnologia.

A cada passo que damos o GPS do nosso celular identifica nossa localização. Todo conteúdo acessado pela internet é registrado em algum servidor, bem como cada mensagem de texto ou de voz. Empresas, bancos, escolas, condomínios já possuem sistemas de monitoramento, e em alguns casos, até em nossas próprias residências. A partir do sistema de monitoramento chinês, em poucos minutos, é possível encontrar, a partir da tecnologia de reconhecimento facial, qualquer cidadão que transite pelas ruas. Estas tecnologias estão sendo cada vez mais usados, porque, de fato, tendem a evitar que as pessoas cometam crimes. Por exemplo, a corrupção no Brasil, parece diminuir significativamente, principalmente pelo aumento nos mecanismos de fiscalização.

Dado que o medo da punição tem o poder de coibir os cidadãos, será que no futuro a humanidade irá exigir um chip no cérebro para o monitoramento das pessoas?

A série do NetFlix chamada Black Mirror, nos episódios Arkangel, National anthem e The entire history of you, retrata um futuro possível para a sociedade, caso a tecnologia de monitoramento continue avançando a passos largos. No último episódio citado, os seres humanos carregam um implante atrás da orelha, algo que chamam de grain. Ali fica armazenada a memória. Todos têm por hábito relembrar os acontecimentos. Fazem isso manipulando um aparelhinho sintonizado com o grão. As imagens guardadas são projetadas em telas instaladas nas casas, nas ruas, nos carros.

Estas imagens podem ser utilizadas pela imigração de um país para investigar o histórico de um passageiro, para checar a memória de um suspeito de cometer um crime, para enviar vídeos para pais que desejam monitorar seus filhos, ou até mesmo para descobrir uma eventual traição em um relacionamento amoroso. Para Platão, isto seria o fim da moral, pelo menos se a entendermos como um diálogo intraconsciente do indivíduo consigo mesmo.

Mas vale lembrar que pessoas não podem ser vigiadas pela sociedade a todo o momento. Sempre haverá um instante onde as pessoas poderão cometer alguma transgressão com poucas chances de ser reprimidas. É neste momento que o sujeito movido pelo egoísmo e pelo egocentrismo infringe a lei. Ou seja, quando o egoísmo do sujeito for maior do que o medo imposto pela sociedade, ele tenderá a agir de modo a satisfazer seus desejos, independente dos meios para isto. Neste caso, onde o poder de coação das autoridades é nulo, como coibir o cidadão? A resposta pode estar na educação, que pode fazer com que o indivíduo transcenda a heteronomia e aja de acordo com princípios internos. Aja corretamente, mesmo que seja invisível.

 

 

 

 

 

 

Vida alternativa (mas nem tanto): reflexões sobre o filme Capitão Fantástico à luz da delimitação dos sistemas sociais de Ramos (1989)

Por Maria Clara F. D. Costa Ames

Quem já assistiu ao filme Capitão Fantástico (2016), (assista ao trailer) sabe do inspirador personagem de Viggo Mortensen como pai de seis filhos. Ele, juntamente com sua esposa e filhos, optaram por morar isolados em uma floresta americana. Longe da sociedade, criam seus próprios métodos de estudo, de produção de alimentos e de cuidados com a saúde do corpo e da mente.

O filme suscita algumas reflexões. Por exemplo, sobre a diferença entre os sistemas de ensino tradicionais e a possibilidade de alternativas, como o ensino em casa ou homescholing.

Outro elemento para reflexão, para o qual este artigo se direciona, diz respeito à escolha dos personagens por viver uma vida alternativa e isolada da sociedade convencional.  A história se desenrola quando o “capitão fantástico”, como era chamado pela esposa, fica sabendo que ela comete suicídio, enquanto estava internada para tratamento psicológico. Diante disso, os membros da família se veem obrigados a voltar a interagir com pessoas locais, enfrentando problemas decorrentes de seu estilo de vida peculiar.

Ao abrir mão de uma vida tipicamente americana, especialmente de sua cultura de consumo (“O negócio dos Estados Unidos são os negócios” ironiza o personagem de Mortensen), uma vida alternativa e livre de regras estabelecidas pela sociedade nem sempre permite uma ausência total de regras ou um isolamento total do convívio social. Na verdade, as regras desse pequeno grupo eram bastante rígidas e seguiam uma rotina altamente regrada: acordar cedo, se exercitar, se alimentar, caçar, estudar, meditar, estudar música, regar plantas, entre outras tarefas.

O filme revela dilemas e desafios em se tentar reduzir a existência a um enclave individual e privado, longe de outros grupos ou regras convencionadas. Baseando-se no paradigma paraeconômico de Guerreiro Ramos (1989), o que vemos é a substituição do enclave econômico, altamente regrado e coletivo, por um enclave muito próximo do individual/familiar, porém não livre de regras.

Segundo Ramos (1989), o ser humano se atualiza ao participar de várias esferas da vida, em espaços de igualdade (isonomia) e em outros individuais, em contextos regulados e em esferas com poucas ou nenhuma regra. Além disso, quando um enclave, como o do mercado, predomina e seu ethos se insere nos demais, as pessoas perdem essa capacidade de atualização e desenvolvimento pessoal e passam a comportar-se segundo uma determinação externa.  Nesse aspecto, a família em questão se aproxima do enclave isolado, o que, segundo França-Filho (2010), não constitui propriamente um sistema social.

O filme expõe pontos interessantes sobre o estilo de vida adotado, como diferentes possibilidades de crescimento intelectual e de conhecimento sobre o meio-ambiente. Mas suas exigências e regras eram bastante rígidas, expondo os filhos à certos riscos, privações e constrangimentos. Tanto que os avós maternos se preocupavam com a segurança e o futuro dos netos.

Além disso, a falta de relacionamentos com outras pessoas fez com que os filhos tivessem dificuldades de interação, ao ir a um centro urbano ou ao fazer algo habitual para um jovem. Os rapazes mais velhos passam a questionar se o “método” do pai é adequado e paralelamente tecem planos para frequentar a escola e o ensino superior. O maior deles, por exemplo, com um incrível conhecimento sobre filosofia e ciências, ilustra essa dificuldade de interação social, e ao final do filme parte para conhecer outros países, como que compreendendo sua carência por experiência de vida.

Apoiando-se em Ramos (1989), percebe-se que a forma de criação do Capitão Fantástico parece ter reduzido as oportunidades de participação na esfera da vida convivial e política, pois embora conhecessem a obra de pensadores políticos, não tinham oportunidades de debater essas ideias com quem pensasse diferente, ou de contribuir na coprodução de bens e serviços públicos em sua localidade.

O filme nos permite refletir que a unidimensionalização da vida humana pode restringir a atualização, se qualquer outro enclave social vier a predominar sobre os demais possíveis. (Ver artigo França-Filho) O que se pode fazer então? Deve-se procurar desfrutar da vida em diferentes enclaves sociais, em espaços de isonomia (orientação comunitária) e de fenonomia (orientação individual), saber agir em esferas com alta ou pouca regulação, produzir, agir e participar da vida política, desenvolver diferentes atividades em diferentes organizações e saber distinguir entre as esferas reguladas e de lógica competitiva, como o mercado formal, de esferas onde prevalecem outras lógicas. Dito de outra forma, é estar atento para que um enclave não absorva ou anule as outras esferas da vida.

Referências

Capitão Fantástico. (2016). Direção: Matt Ross. Universal Pictures, EUA, 118 min.

França- Filho, G. (2010). Decifrando a noção de Paraeconomia em Guerreiro Ramos: a atualidade de sua proposição. O&S, 17(52), 175-197.

Ramos, A. G. (1989). A nova ciência das organizações. (2nd ed.) Rio de Janeiro: FGV.

Apresentação do NISP na 3º Semana Acadêmica de Administração Pública da Udesc

O Prof. Mauricio Serafim, líder do projeto de pesquisa Admethics e vice-líder do NISP (Núcleo de Inovação Social na Esfera Pública) participou da 3º Semana Acadêmica de Administração Pública da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), apresentando aos presentes o trabalho do NISP e do Admethics no dia 17 de abril. Confira o vídeo:

O evento aconteceu de 17 a 19 de abril de 2018, no campus principal da Udesc. Foram três dias de oficinas, palestras e debates voltados aos estudantes do curso de graduação em Administração Pública, organizados pelo Departamento de Administração Pública da Udesc/Esag, em conjunto com o Centro Acadêmico Cinco de Julho (Cacij), que representa os alunos do curso.

Pesquisadores do Grupo AdmEthics publicam artigo sobre o Ensino de Ética em Cursos do Campo de Públicas

A doutoranda Laís S. Santos, o Prof. Mauricio C. Serafim e o Prof. Marcelo B. Zappellini, da ESAG e pesquisadores do Grupo AdmEthics e NISP, em parceria com as professoras Silvia Maria K. C. Zappellini e Martha K. Borges, publicaram o artigo “Ensino de Ética em Cursos do Campo de Públicas: Uma Análise a Partir de Projetos Pedagógicos de Curso e das Diretrizes Curriculares Nacionais” na Revista “Education Policy Analysis Archives”.

Tendo em vista a inserção do ensino da ética como conteúdo disciplinar básico e indispensável à formação do aluno nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) do curso de graduação em Administração Pública, os autores tiveram o interesse em saber como seu ensino é trabalhado e auxilia na formação profissional dos alunos dos cursos de graduação em Administração Pública no Brasil. Para tanto, realizaram uma pesquisa documental em Projetos Pedagógicos de Cursos (PPC) do Campo de Públicas.

A discussão sobre o ensino de ética vai ao encontro de uma das linhas de pesquisa do NISP, chamada “Ética, epistemologia e sociologia da ciência na Administração Pública”, que tem como um de seus objetivos “compreender os processos de enfrentamento de dilemas éticos e morais pelos gestores públicos”. Além disso, o artigo se insere num conjunto de trabalhos que vêm sendo desenvolvidos pelo Grupo AdmEthics sobre como o estudo de dilemas morais pode contribuir sobre o debate a respeito da racionalidade na gestão de organizações públicas.

O artigo completo está disponível no link da Revista, de acesso aberto: https://epaa.asu.edu/ojs/article/view/3290

Pesquisadoras têm trabalhos aprovados no ENANPAD 2017

Duas pesquisadoras de nosso projeto de pesquisa tiveram trabalhos aprovados no XLI Encontro da ANPAD – EnANPAD 2017, realizado em São Paulo/SP, de 1 a 4 de outubro de 2017.

Seguem os resumos dos artigos aprovados:

Ensino de Ética em Cursos do Campo de Públicas: uma análise a partir de Projetos Pedagógicos de Curso e das Diretrizes Curriculares Nacionais

Resumo: As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) do curso de graduação em Administração Pública trazem a discussão e o ensino da ética como conteúdo disciplinar de formação básica e indispensável ao perfil do egresso. A partir de reflexões teóricas e práticas sobre a relação da ética com a Administração Pública e da existência de DCN específicas que destacam o aspecto ético, surgiu a curiosidade em saber como seu ensino vem sendo trabalhado e auxilia na formação profissional dos alunos dos cursos de graduação em Administração Pública no Brasil. Para tanto, foi realizada uma pesquisa e análise documental em Projetos Pedagógicos de Cursos (PPC) do Campo de Públicas, pois são aqueles orientados pelas DCN de Administração Pública e, anteriormente, pelas DCN de Administração. A partir de três critérios de seleção dos cursos, foram relacionados 15 PPC para estudo. Os cursos do Campo de Públicas, tendo o ethos republicano e democrático como princípio orientador, deveriam reproduzir esse princípio fundamental em todos os processos de ensino-aprendizagem e foi isso que se observou ao analisar os PPC, por meio de três categorias de análise: matriz curricular, ementas das disciplinas e perfil do egresso. Verificou-se que há, na maioria dos projetos, uma busca pela inserção da discussão, ação e atitude ética, crítica e reflexiva durante o curso e na prática profissional. Contudo, embora essas temáticas estejam presentes na maioria dos PPC, parece haver um longo caminho a percorrer para a real integração da discussão de ética nos cursos de Administração.

Palavras-chave: ética, ensino, administração pública, Projeto Pedagógico de Curso, Diretrizes Curriculares Nacionais.

Autores: Laís Silveira Santos, Mauricio Custódio Serafim, Marcello Beckert Zappellini, Silvia Maria Knabben Corrêa Zappellini e Martha Kaschny Borges.

O Estudo da Phronêsis nas Organizações: Uma Revisão Sistemática

Resumo: Diante de dilemas e de diversas questões éticas envolvidas na realidade organizacional, o estudo das virtudes morais vem apresentando um significativo crescimento no campo da Administração. Associada à tais virtudes éticas, a phronêsis é a virtude intelectual que coopera e pela qual as demais virtudes se fortalecem. Traduzida como prudência ou sabedoria prática, a phronêsis foi reinterpretada em diferentes momentos do pensamento filosófico e hoje tem sido revisitada por várias áreas do conhecimento. Devido às suas diferentes interpretações associadas à ética das virtudes, à racionalidade, às ciências sociais e à hermenêutica, os estudos organizacionais e da Administração vêm acolhendo diferentes conceitos a seu respeito, entrelaçando abordagens e arcabouços teóricos. O objetivo dessa revisão sistemática é investigar de que maneira o conceito de phronêsis vem sendo discutido e relacionado aos estudos organizacionais e administrativos. Realizou-se uma busca sistemática por artigos nas bases Scopus, Ebsco e Web of Science. A análise de 53 artigos selecionados revela os autores e principais definições atribuídas à phronêsis, os autores mais referenciados e os principais temas de pesquisa encontrados: (1) racionalidade, decisão, julgamento, intuição e moralidade; (2) profissões, experiência, caráter e contexto; (3) práticas, liderança, estratégia, expertise e relação gestores-equipes; (4) conhecimento e aprendizagem organizacional; (5) metodologia baseada na phronêsis e (6) governança, discurso e comunicação. Novas investigações empíricas poderiam aprofundar o conhecimento desses temas, especialmente sobre “racionalidade, decisão, julgamento, intuição”, para o qual foram encontrados poucos trabalhos empíricos.

Palavras-chave: phronêsis, prudência, estudos organizacionais, virtudes morais.

Autores: Maria Clara Ames, Maurício C. Serafim e Marcelo Zappellini.

Reunião de 12 de julho de 2017

Notícias

Os membros do grupo submeteram dois artigos ao evento acadêmico EnANPAD e foram aprovados:

  • Ensino de ética no Campo da Administração Pública, de Mauricio, Marcelo, Silvia e Martha.
  • O Estudo da Phronêsis nas Organizações: Uma Revisão Sistemática, de Clara, Mauricio e Marcelo.

Foi discutida e incentivada a ideia de buscar publicar artigos em revistas internacionais A1/A2.

Discussão do texto “A razão” – Parte II

Referência: Marias, J. Introdução à Filosofia. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1995. Capítulo 5: A Razão.

Continuamos a refletir sobre o texto “A Razão” e concluímos o debate sobre ele. Os tópicos abordados hoje foram:

  • Este livro aborda a filosofia de maneira mais autêntica do que se costuma encontrar na academia atualmente. O livro ‘Introdução à Filosofia’ de Jacques Maritain, que costuma ser utilizado no Ensino Médio brasileiro, trata do materialismo e idealismo dentro da cosmovisão da filosofia clássica, similar à de Marías.
  • A filosofia moderna não conversa com a escolástica; ela não integrou o conhecimento grego e medieval, isto é, não houve uma superação, como a escolástica tentou fazer, somando a filosofia cristã e a grega.
  • O conceito de experiência é mais abrangente do que a experiência sensível. Ele se refere à experiência de vida, a algo que acontece no cotidiano, e não fica restrito ao mundo das ideias. A experiência tem seu lugar na realidade: “tudo aquilo que encontro e tal como encontro”. É, em resumo, aquilo que se capta pelo senso comum, aquilo que vemos.
  • A realidade passada e a realidade possível (horizontes de possibilidades): relação com teoria P e teoria N de Guerreiro Ramos.
  • Agostinho e a ideia de “eu”: experiência biográfica, de vida.
  • Descartes filosofa a partir de uma abstração que não tem origem na própria vida, no próprio “eu”: negação de sua vida.
  • Viver uma ilusão equivale a viver como um animal, isto é, reagir a estímulos do ambiente; isso remete ao behaviorismo, à síndrome comportamentalista e a Guerreiro Ramos.
  • Definição de razão: apreender a realidade, compreender a realidade e inserir-se na realidade, considerando realidade como aquilo que vemos.
  • Deve-se considerar o nexo ou vínculo entre a realidade como contexto, bem como a posse de si mesmo (estar em si) e da realidade (daquilo que é compreendido).
  • Compreender significar “pegar”, agarrar com a mente (apreender).
  • Verdade, razão e método: razão como instrumento da verdade.
  • A razão é o modo de viver a vida que a pessoa pretende viver, é o modo de se conectar com a realidade.
  • Estar lúcido, portanto, equivale a ter um projeto de vida claro.
  • A razão lúcida/plena, no contexto da racionalidade substantiva e racionalidade instrumental.
  • Conceito é um caminho de apreender a realidade.
  • “A razão é a vida humana”.
  • Pluralidade da razão.
  • O homem necessita ser racional, ou seja, encontrar sua essência; o homem pode ser racional.
  • Noos é a posse mental da realidade.
  • logos significa juntar partes da realidade para fazer sentido: dar a razão (logos) daquilo que se vê (noos).
  • A visão noética é a plenitude no logos.
  • A dialética representa o movimento do Só se pode apreender através do diálogo.
  • Para tomarmos uma decisão moral, é necessária memória e imaginação.
  • Lembremo-nos dos termos latinos: mens, intellectus e Buscar a razão significa viver plenamente a partir dessas três dimensões.
  • Discussão sobre crença.
  • A ideia de razão é ocidental e está relacionada a ordenação, harmonia.
  • O temo “funcional” é filosófico. Ele adquire significado quando circunstanciado, ou seja, quando observado nas circunstâncias da vida.
  • A razão substancial transcende a realidade circunstancial e busca significação.
  • Ser histórico não significa que não há algo que perdure ao longo do tempo (o momento presente é o mesmo que eternidade, que “viver o presente”).
  • Apesar do percurso da História, a razão não se modificou.
  • Os passos da razão vital (método) permitem fazer uma associação à atitude parentética (método para a atitude parentética e fenomenológica).

Reunião de 21 de junho de 2017

Discussão do texto “A razão” – Parte I

Referência: Marias, J. Introdução à Filosofia. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1995. Capítulo 5: A Razão.

Demos início à discussão do texto “A razão”. O grupo abordou os seguintes tópicos:

  • Falácias: supressão da causa final, polilogismo (termo cunhado por von Mises) e nominalismo.
  • Etimologia da palavra compreender: apreender, agarrar com a mente a realidade.
  • Indicação de considerar-se uma concepção de cosmovisão, baseado nas perspectivas e arcabouço teórico do grupo, como alternativa à concepção de paradigma.
  • O noos, o logos e sua conexão.
  • Apreensão da realidade, tal como ela é.
  • Racionalidade instrumental e substantiva.